sábado, 18 de fevereiro de 2012

Lição ancestral de humildade

Não importa o que se diga nem quem o diga, mas o fato é que existem pessoas, e elas talvez sejam a grande maioria, que são superiores e distinguem-se em especial pela dupla notabilidade de estarem acima de tudo e de terem sempre razão. E eu, que não passo de um reles amontoador de linhas que não almeja ser outra coisa além disso, admiro-as muito e fico-lhes imensamente grato por dispensarem-me de estar certo sobre alguma coisa na vida, mesmo que seja pela mais insignificante das questiúnculas. Não que deseje de algum modo comparar-me a elas; apenas pensava cá com os meus botõezinhos o quanto tais criaturas são bondosas e mesmo gentis por deixarem a nós, os insignificantes, habitarem o mesmo mundo que elas, o qual, bem o sabemos, pertence-lhes em cada centímetro, assim como os planetas em redor, bem como o sol. É esforço inútil querer um pouco de sua atenção; toda ela está comprometida com suas próprias e urgentes necessidades, às suas causas que são realmente primeiras em todos os sentidos. No máximo, o que conseguiremos é um olhar de condescendência, não de quem se apieda, mas de quem se digna, embora não mais que por um instante, a olhar para baixo e ver-nos em nossa pequenez para, logo em seguida, observarem uma vez mais o quanto são fabulosas, coisa de que não se cansam de admirar. Quando sofrem, quando se preocupam, tais pessoas, temos que estar de acordo com elas quanto ao fato de que suas dores e misérias são as maiores de que se tem notícia desde Édipo e persignar-nos com sua triste sorte. “Se nenhum deus quer se manifestar na terra, sejamos nós próprios deuses”, diz um antigo poema alemão, como que profetizando que um dia o mundo se povoaria de deuses, cada um mais magnífico que o outro em potência e ato. E a nós, mortais, não resta muito mais que concordar com as palavras de Emil Cioran: “Cada um é para si mesmo um dogma supremo; nenhuma teologia protege seu deus como nós protegemos nosso eu; e este eu, se o assediamos com dúvidas e o colocamos em questão, é apenas por uma falsa elegância de nosso orgulho: a causa está ganha de antemão”. Que Deus me proteja do grau tão absoluto de tais seres: quero continuar a exercer meu trabalho e, nas horas livres, dedicar-me ao ofício, a eles indiferente, de juntar palavras e a dedicar-me a meus livros, pelo simples fato de não desejar felicidade maior nem mais completa nesse mundo.
E, enquanto me distraio pensando nestas palavras, lembro-me do que dizem as gerações mais antigas. Nem preciso ir muito longe para colher exemplos: basta ouvir minha mãe, que, pelo próprio hábito de ficar calada, a observar, sempre teve muito a dizer, embora prefira sempre a quietude. Conta ela que, na sua infância e adolescência, como não havia televisão, o passatempo de todas as noites, após o jantar, era sentar-se à frente da casa em que morava com os meus avós e, com olhos fixos, atentos e encantados, contemplar as estrelas. Diz ela que é como se naquele tempo houvesse mais dessas formas nebulosas e brilhantes, pois o céu de sua infância, costuma dizer-me, sabendo de minhas intenções de escrevinhador, era tal que palavra alguma lhe faria jus. E me ocorre que os astros, entristecidos pelo descaso hodierno dos homens-deuses, refugiaram-se em outras galáxias, onde talvez ainda haja quem lhes dê atenção. Mas naqueles tempos, fosse inverno ou verão, era hábito passar horas com os olhos no firmamento. Meus bisavós, filhos de imigrantes e que viviam também da agricultura, quando em visita também se juntavam aos observadores do infinito. Sentados em cadeiras de palha, formavam uma plateia silenciosa e reverente, que se sabia testemunha de um espetáculo de beleza sem rival em termos de grandiosidade e que, se fosse instada a descrever o que via, preferiria silenciar a recorrer à inutilidade das palavras, por mais que os vocábulos correspondentes sempre me tenham soado de modo particularmente belo: die schoenen Sterne, as belas estrelas. Recordar os dias de trabalho e as noites de descanso e encantamento de meus antepassados me trouxe à lembrança um fragmento imortal que poderia dar testemunho daqueles dias: “A terra respira fundo em repouso e sono. Todos os desejos transformaram-se agora em sonhos. Os homens, fatigados, retornam às casas para encontrar no sono a felicidade perdida e para aprender novamente a juventude”. Ao tomar nota dessas palavras, recordo-me de um poeta que, num conto de Jorge Luis Borges, diz que “o jornalista escreve para o esquecimento e que o desejo dele era escrever para a memória e o tempo”. A ilusão, enquanto dura, parece sempre doce. Amargos são os despertares: saber que não importa se somos poetas, jornalistas ou simples amontoadores de palavras; o fato é que escrevemos todos para o olvido.

Lavravam a terra, meus avós, bisavós e várias gerações que os precederam, e, como que seguindo intuitivamente uma receita de humildade prescrita por filósofos, dedicavam as horas da noite à contemplação de um céu que lhes aliviava o cansaço do dia e também da existência, um céu que, a julgar pelo que se diz, não é mais o mesmo. E hoje, ao escrever sobre eles e suas noites, sinto como se ainda há pouco tivesse deixado o cabo da enxada. E, como que temporariamente privado de memória e de passado, componho estas notas desconexas em outro idioma, tão diverso daquele de origem. Munido apenas de palavras, a única coisa de que disponho, manifesto o desejo inútil de que os meus contemporâneos se despojem da sua fantasia de deuses para revestir-se novamente de sua condição original de mortais, e, assim como em um passado não tão remoto, passemos todos a observar o firmamento estrelado. Todos calados e, acima de tudo, pacificados. Porque os astros nos dizem, em seu silencioso fulgor, de nossas limitações, apontando-nos um caminho de humildade e talvez até de virtude. E que, através da simples contemplação por alguns poucos minutos, não nos esqueçamos de quem somos, do que somos e não percamos de vista nossas origens, em algum ponto sempre modestas. Não fosse assim, ninguém teria imigrado. Ao domínio das noites estreladas pertence o poder de mostrar a cada um o que é e não deixar que nenhum ser humano se julgue mais do que isso, um ser que, na eterna noite dos tempos, feitas as contas, sequer terá existido e que, se pensar um pouco no que vê ao erguer os olhos acima da linha do horizonte, verá que todas as dores, assim como as glórias, são passageiras. “O homem é a medida de todas as coisas”, dizia o bom Protágoras. Tudo é uma questão de ponto de vista. Entre todas as questões, importa não esquecer jamais que, entre o céu e a terra, depois de algumas noites, na verdade não muitas, não restarão muitas coisas, e a filosofia será mais vã do que jamais foi algum dia. Para o bem ou para o mal, “para todo o sempre, eternamente... eternamente...”.
Vincent Van Gogh: Estrada com ciprestes e estrela, 1890




sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Dostoiévski na Alemanha

Existem interrogações que, pelas mais diversas razões, parece-me, ficam relegadas a um segundo plano em nosso pensamento. Entre os motivos pelos quais não nos dedicamos muito a estes assuntos está a impressão enganadora de que as respostas estão entre as mais acessíveis ao nosso conhecimento: um grande engano. Na verdade, em termos de teoria, tais perguntas consistem um mistério diante do qual não canso de me assombrar, por seu caráter esquivo. A rigor, é fato que tais questões estão ao nosso alcance, nos livros de teoria da literatura; contudo, as respostas constituem uma soma de fenômenos que apenas em parte são explicáveis: o que é a literatura? Em que consiste o poder que ela exerce sobre nós a ponto de nos mobilizar de forma tão intensa? Em que consiste o conceito de literariedade? Como pode ser definida nossa relação com os escritores e com um determinado autor em especial? Qual a origem do fascínio dos leitores judeus por um escritor sabidamente antissemita, como Dostoiévski? Essas são algumas das questões suscitadas pela leitura deVerão em Baden-Baden, romance de Leonid Tsípkin, escritor russo morto em 1982. As palavras finais do inspirado ensaio de introdução, assinado por Susan Sontag, são no mínimo instigantes: elas nos informam queo leitor emerge do livro “purgado, fortalecido, respirando um pouco mais fundo, agradecido à literatura por aquilo que ela pode abrigar e exemplificar”. Por experiências anteriores relativas a romances com base em vidas de escritores, tendemos a desconfiar. Contudo, o testemunho de Sontag, crítica sempre tão lúcida quanto sincera, tem tudo para parecer acima de qualquer suspeita. E assim, tendo apenas uma vaga ideiasobre o que esperar, mergulhamos na leitura.

Leitor apaixonado de Dostoiévski, Tsípkin constrói seu romance em torno do grande autor russo e de sua jovem esposa Anna Grigorievna, mais especificamente a partir do ano de 1867, no verão que passam na cidade balnear de Baden-Baden, acompanhando o casal até o ano da morte de Dostoiévski, em 1881. Tornamo-nos testemunhas do drama vivido pelo autor de Crime e castigo diante de uma força que ele próprio reconhece superior a si mesmo: a roleta; do amor intenso entre o escritor e Anna, além das constantes ameaças da epilepsia. Em um tempo paralelo, um século depois dos episódios envolvendo os Dostoiévski, Tsípkin, em primeira pessoa, nos faz um relato fragmentado, mas extremamente eloquente de sua própria viagem na tentativa de refazer a trajetória de seus dois personagens, numa peregrinação no tempo e no espaço, passando pelas casas em que eles viveram e, por último, à casa onde o grande escritor russo viveu seus últimos anos. É comum, no romance, o narrador privilegiar o ponto de vista de Anna Grigorievna, e é através do seu olhar que observamos os pungentes momentos finais da vida deste que foi, ao lado de Tolstoi e Tchékhov, um dos maiores escritores russos do século XIX e, sem o menor exagero, de toda a literatura.
Longe de nos fornecer respostas prontas ou fórmulas para as interrogações sugeridas por sua obra, Tsípkin oferece-nos algo melhor do que isso: amplia os limites de nossa visão através de um dos melhores exemplos do que conhecemos por literatura, mostrando, a partir de seu próprio modo de agir, a maneira como somos movidos a buscar respostas de forma ininterrupta, de obra em obra, círculo em que de repente nos deparamos com uma obra que parece ter como base nossa própria ânsia de conhecimento, de sentido e de beleza através de uma das formas mais elevadas de arte. Ao colocar Verão em Baden-Baden “entre as realizações mais belas, arrebatadoras e originais de um século de ficção e paraficção”, Sontag, em seu entusiasmo, está sendo fiel à sua própria impressão, que, terminada a leitura, se torna também a nossa. É realmente difícil ficar impassível em relação aos fatos narrados, à fragilidade dos personagens, que, por sua vez, refletem nossas próprias limitações, por mais que estas pareçam às vezes enganadoramente contornáveis. Eis aí uma obra para todos os públicos, não apenas amantes de Dostoiévski ou de literatura russa.
 Dostoiévski: retrato a óleo de 1872

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Anacronismos: a noção de casa em tempos líquido-modernos

É frequente, em nossas leituras, depararmo-nos com filósofos que nos exortam a sermos tão simples quanto possível, contentando-nos com pouco e tendo hábitos com base em virtudes como a modéstia e a humildade. Tais pensadores defendem a ideia de que para viver não precisamos mais do que do mínimo – ou, ao contrário do que normalmente acreditamos, que temos necessidade mesmo de muito menos do que estamos habituados a crer. A ordem do dia, segundo suas palavras, baseia-se no desapego a bens e objetos materiais, bem como a pessoas: seria uma maneira de sofrer menos com as perdas, dizem-nos, no que não estão errados. Difícil é colocar esses ensinamentos em prática. Mesmo que essas assertivas se percam nos milênios, ainda há quem as defenda hoje. Quanto a mim, até pouco tempo sempre tive a impressão de realmente precisar de muito pouco no cotidiano. Porém, um exame rápido, porém sincero, foi suficiente para me mostrar o quanto estava enganado, evidenciando que essa minha suposta independência em relação ao material não passava mesmo disso: uma impressão.
Há dias atrás, folheando as páginas de Vida líquida, de Zygmunt Bauman, deparei-me com inúmeras passagens sublinhadas a lápis. Como muitos livros já se passaram depois da leitura dessa obra, a maior parte dos trechos me soou com um ar de novidade – lembrando-me mais uma vez que o aprendizado se dá mesmo através da releitura atenta, o que por si só justifica o viver cercado de livros e de partituras, algo que, por sua vez, já de início coloca em xeque a ideia de tanta simplicidade. Em certo ponto, o sociólogo polonês define as características das pessoas possuidoras das “chances mais amplas de vitória” nisso que ele chama de mundo líquido-moderno: “Pessoas que se consideram em casa em muitos lugares, mas em nenhum deles em particular. Tão leves, lépidas e voláteis quanto o comércio e as finanças cada vez mais globais e extraterritoriais que as assistiram no parto e que sustentam sua existência de nômades”. Não posso deixar de me espantar com o que para mim se assemelha a um paradoxo: pergunto-me, a propósito, que noção de vitória é essa que exige o preço de considerar-se em casa em tantos lugares e ao mesmo tempo em nenhum, o que a meus ouvidos soa antes de tudo como desconforto. E, entre desavisado e despreocupado , mas nem um pouco surpreso, descubro o quanto estou alheio ao que se considera válido nesse tempo em que se deve aprender a “andar sobre areia movediça”, tema do sexto capítulo da referida obra. A essa descoberta acrescenta-se a constatação de algo que eu já sabia, mas que a vida nunca cansa de me recordar: excetuadas certas vantagens da modernidade, sinto-me em casa mesmo é no anacronismo, ou, mais especificamente, na conservação de hábitos hoje tidos como ultrapassados. E eu, que me considerava até certo ponto um sujeito simples, percebo-me agora, para meu próprio espanto, cheio de manias – não sei como considerar de outra maneira o culto a certos usos e valores em vários aspectos extintos para muitos de meus concidadãos.
Muitos desses apegos têm origem na valorização da cultura de todas as épocas e nos hábitos da leitura, da escrita e da prática da música. Creio não se tratar de culto à matéria propriamente dita, uma vez que o que me mobiliza é mais o conteúdo do que o seu suporte, embora um não seja nada sem o outro. Em grande parte, esse apreço pode ser definido como uma reverência à herança de meus antepassados. Por mais que a nossa noção de casa como lar vá sofrendo alterações mais que naturais com o passar do tempo, a ideia, no cerne, permanece inalterada. Como descendente de alemães, o amor à família e à história dos ancestrais, bem como ao seu legado, é mais que essencial, diria quase visceral. Creio que foi Nathaniel Hawthorne, na introdução ao seu romance A letra escarlate, quem melhor definiu o sentimento de pertencimento que nos liga a algum lugar específico: “Essa longa ligação de uma família com o lugar de seu nascimento e sepultamento cria um parentesco entre o ser humano e a localidade que independe, em grande medida, de algum atrativo do cenário ou das circunstâncias morais que cercam o homem. Não se trata de amor, mas de instinto”. Pouco importa o fato de meus antepassados estarem sepultados a muitos quilômetros da cidade onde vivo e, retrocedendo alguns séculos no tempo, no distante povoado de Halsenbach, Alemanha. Desse modo, nossa casa acaba se tornando indissociável àquilo a que costumamos chamar, cientes de nossa pequenez, nossa história, e a concepção de casa, mesmo não perdendo seu aspecto tão centrado no caráter espacial, mostra-nos algo em que antes não acreditávamos: que nosso lar, apesar de tudo, pode sim mudar de endereço. Quanto à saudade, ou nostalgia, creio tratar-se de um sentimento que, de uma forma ou de outra, ocupa um lugar à parte e constante na trajetória de cada um. Se ele está sempre presente, talvez seja a confirmação de que lar é antes de tudo lealdade à nossa trajetória. E se a rigor nossas raízes estão a muitos quilômetros do local onde agora vivemos, descobrimos que, nessa analogia com o reino vegetal, acabamos por desenvolver novos laços que, em termos de desapego, se não ocupam o lugar dos anteriores no espaço, esses novos laços afetivos nos mostram, todavia, que é muito mais fácil do que em princípio acreditávamos desenvolver um sentimento de vínculo com o que há anos atrás não passava de um território estranho. E através desse novo sentimento percebemos que, de certa forma, as inclinações de nossos afetos não deixam de ser, até certo ponto, independentes. De uma maneira distinta do que antes supúnhamos, mas, em todo caso, desapegados – por mais que me doa escrever isso.
À medida que avançamos nos anos, aprendemos também que sentir-se em casa diz respeito, em grande medida, à memória, esta tida aqui como a soma de uma vivência feita de trabalho, estudo, relações de amizade e vínculos que apenas a morte se revela capaz de romper. Em uma escala que em momento algum podemos ignorar, somos constituídos também de momentos difíceis e de perdas. Se há alguma verdade na afirmação de que é o ontem que faz de nós o que hoje somos, não há motivo melhor para reservar, em nossa vida, um lugar de grande honra para a memória, diga ela respeito a nós mesmos, seja ela referente ao nome de quem já nos deixou ou mesmo à cultura. E, por esse motivo, mesmo com os pés no presente e pensamento no futuro, nossa nova casa se torna também lugar de devoção. Nesse sentido, convém lembrar uma frase da romancista Marguerite Yourcenar, em Memórias de Adriano: “O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que pela primeira vez lançamos um olhar inteligente sobre nós mesmos: minhas primeiras pátrias foram os livros. Em menor escala, as escolas”. São palavras que, por virem ao encontro de algo que já vivenciamos, trazem um certo conforto, daquela espécie de confirmação por escrito de uma verdade que já intuíamos, mas para cuja expressão não encontramos as palavras. Essa frase corrobora também o que já foi dito acima, mas de uma maneira diferente: os lugares de nascimento não se restringem a um só, e eles constituem algo impossível de quantificar. Isso depende acima de tudo das vivências que vamos acumulando ao longo do tempo e, principalmente, do referido olhar sobre nós mesmos. E, se observarmos com um pouco mais de atenção, veremos que a identificação de casa com memória é mais profunda do que inicialmente suspeitamos, e transcende em muito a contingência da matéria. Não se trata de um lugar, tampouco de um momento, mas de um estado de alma, através do qual percebemos algo semelhante a uma completude, diria mesmo plenitude: é quando percebemos que nossa história, somada aos conteúdos que assimilamos ao longo da vida, seja através dos livros ou de experiências vivenciadas e de convivência com amigos e familiares, se torna uma coisa só, sem lugar definido que não seja em nós mesmos, em nossa história, pensamentos, crenças e, mais do que tudo, em nossas recordações. Algo como uma fusão, diria, da qual poucas vezes temos uma noção mais exata. Esse aspecto me traz à mente diversas imagens; como exemplos, menciono a torre da casa em Tübingen onde Hölderlin viveu seus últimos 36 anos de vida, privado da razão, e a lírica contemplação da natureza nas pinturas de Caspar David Friedrich.
Mas voltemos por um instante à lição filosófica do início deste texto. Por mais que, prestando ouvidos aos filósofos, façamos do desapego uma religião ou uma questão de honra, chegará um momento em que nos veremos na impossibilidade de abrir mão de uma coisa em especial. Ignoro se isso consiste em uma nova fusão, transubstanciação ou transcendência que seja, da qual não estaremos conscientes, e que, quando ocorrer, mesmo que seja a confirmação dos conteúdos já assimilados, já não fará mesmo diferença alguma. Desse momento em diante, não restarão mais que palavras e terra, elementos que sempre me pareceram irmãos, ou terra e silêncio, o que, em última análise, revela-se a mesma coisa. Existe um poema de Friedrich Leopold Graf zu Stolberg, escrito no auge daquele romantismo lírico e contemplativo dos alemães, cujo final gostaria de relembrar aqui: “A Mãe Terra”: “Ela nos acolhe, pequenos e grandes, a Mãe Terra, em seu regaço; se a olhássemos em sua face, não temeríamos jamais o seu abraço”.

Caspar David Friedrich: A walk at dusk, 1835 
Casa da torre de Hölderlin, Tübingen





quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A virgem e o menino: afastamentos e aproximações

Entre tantos grandes momentos do filme Elizabeth, de Shekhar Kapur, de 1998, existe uma cena em particular cuja riqueza nunca deixou de me causar admiração. É perto do final, e, ao lado do seu conselheiro e chefe de espionagem Francis Walsingham, depois de intensas lutas contra o catolicismo, objetivando tornar o protestantismo a religião oficial da Inglaterra, a rainha tem diante de si uma imagem de Maria. Sua dificuldade consiste em entender o que tantos devotos viram nessa figura, que os mobilizou a ponto de não se importarem em perder a vida, desde que seu direito à fé católica fosse preservado. A direção da resposta é apontada por Walsingham: certamente os que morreram experimentaram nas madonas uma espécie de consolo que não encontraram em outra parte. Na cena seguinte, a última do filme, a corte está reunida e entra Elizabeth. Transfigurada, entre desumanizada e deificada, ela caminha por entre os presentes, que se ajoelham em profunda reverência. Antes de ocupar o trono, ela se dirige a um dos conselheiros e diz: “Veja; agora eu sou uma virgem”. Percebe-se nessa veneração e também na rainha algo próprio das monarquias absolutistas: a visão do soberano como uma criatura próxima à divindade, sentimento comum no final da Idade Média; uma espécie de sentimento de segurança que a Igreja, em crise depois da Reforma, começava a ter dificuldades em oferecer.
Interessante é observar que, passados tantos anos, a Virgem, como é normalmente chamada pelos católicos, depois de ser por séculos uma das principais fontes de inspiração para pintores de várias nacionalidades, volta a ser tema de discussões que, como seria de se esperar, não conduzem a lugar algum e que não oferecem qualquer possibilidade de conciliação, mesmo porque não há a mínima boa vontade entre os contendores. De um lado, os evangélicos, que veem na adoração a essas imagens uma transgressão aos mandamentos cristãos: a idolatria, ou seja, o culto a falsos ídolos. Se no século XVI, nos anos que se seguiram à Reforma, os iconoclastas literalmente destruíam imagens, hoje os seus herdeiros não perdem oportunidade de macular de todas as formas possíveis aquela que para os católicos não é menos que a mãe do próprio Deus, na sua forma humana. Não é exagero algum – na verdade, é dizer o mínimo - afirmar que na visão dos evangélicos Maria ocupa um lugar inferior ao de Maria Madalena, fazendo parte das hostes inimigas a serem combatidas e vencidas, ao custo de muita difamação e oração. Talvez não tivessem em relação a ela tantas reservas se não vissem eles próprios o poder de apelo de uma madona de Leonardo da Vinci ou de Giotto. Para os católicos, ela continua sendo o que sempre foi em sua tradição: a mulher escolhida por Deus para dar à luz o Salvador, por meio de uma concepção sem pecado, e que acompanhou o filho até o seu trágico final.
A mim não interessa saber quem está com a razão, se é que alguém a possui. Meu objetivo é observar, mesmo que rapidamente, o que essas imagens possuem de tão eloquente a ponto de causarem reações tão antagônicas como a adoração por parte de uns e, do ponto de vista dos evangélicos, promessas de fogo eterno a quem as cultua. O que sei é que as artes visuais, como a pintura e a escultura, seriam hoje indizivelmente mais pobres se não fosse essa forma de evangelização, ou propaganda, para falar mais honestamente. Em seu livro Religião para ateus (Rio de Janeiro: Intrínseca, 2011), o filósofo e escritor Alain de Botton examina diversos aspectos que considera válidos nas principais religiões, elementos que, fora de seu âmbito de origem, são inexistentes, no que, por vários motivos, os ateus saem empobrecidos. Entre as proposições de De Botton, está a valorização da arte. Nesse sentido, e como prova material, contundente, de que as religiões mais afastam as pessoas do que propriamente as aproximam, o que era seu objetivo inicial, estão as estátuas em relevo da catedral de São Martinho, em Utrecht, destruídas por iconoclastas no século XVI. Somos levados a crer que, caso fossem inofensivas ou mesmo pouco expressivas, não teriam sido destruídas. Para ilustrar o poder de tais imagens, o autor evoca uma tradição que vigorou em Roma entre os séculos XVI e XIX, acerca de uma irmandade que se informava a respeito dos condenados a caminho da forca para, momentos antes de sua execução, colocar-lhes diante dos olhos pequenas tábuas ilustrando geralmente a crucificação de Jesus ou a Virgem com o menino, na tentativa de proporcionar-lhes algum alívio em suas horas derradeiras. Segundo De Botton, “é difícil conceber um exemplo mais extremo de crença na capacidade redentora das imagens, e, contudo, a irmandade estava apenas realizando uma missão com a qual a arte cristã sempre teve um compromisso: colocar diante de nós exemplos das mais importantes ideias nas ocasiões difíceis, a fim de nos ajudar a viver e a morrer”.
(Há tempos atrás, refletindo a respeito do fanatismo religioso, cheguei à conclusão de que o tamanho da fé é proporcional à extensão do desespero, mas sei que, sobre esse assunto, qualquer certeza será sempre tão suspeita quanto as incertezas, dependendo do lado em que se está. Sei apenas que é difícil permanecer neutro em relação ao tema quando se observa o quanto a crença se apodera e estabelece sua hegemonia na mente daqueles que creem, de forma a torná-los muitas vezes cegos mesmo para os aspectos mais básicos da vida e não deixando espaço para mais nada. É curioso observar também outro aspecto: se para os cristãos o temor a Deus é o princípio da sabedoria, para os filósofos dos primórdios do cristianismo a sapiência estaria justamente em abrir mão das ilusões de imortalidade e fazer as pazes com o que, segundo sua crença, temos de mais irreversível: a finitude  [justamente o que, em minha pequena opinião, faz de nós e de nossas vidas algo glorioso]. Nisso residiria, segundo os cristãos, o “orgulho” próprio dos pensadores. Mas já começo a fugir ao assunto inicialmente proposto).
Em seu livro, Alain de Botton defende a ideia de que, acima do conteúdo veiculado pela arte religiosa, mais importante é saber o que ela diz de nossas necessidades humanamente mais básicas, valores geralmente ignorados como indignos pela filosofia, mas de cuja expressão, de uma forma ou de outra, depende nosso bem-estar e nossa paz de espírito, mesmo que não sejamos seguidores de nenhuma religião. Pode-se perguntar, a respeito disso, o que obras como La pietà ou A virgem, o menino e Santa Ana nos dizem para além de qualquer crença, e descobrimos que nelas há uma expressividade que as torna únicas e de valor inestimável não para a arte em si, mas no que elas são capazes de nos dizer, independentemente de seu significado religioso. Basta para isso saber admirá-las. Conforme o filósofo, tudo é uma questão de ponto de vista. Entre poucas obras de arte, elas estão entre as poucas ainda capazes de falar à criança que existe eternamente em nós, procurando insuflar-lhe algum alento em momentos dolorosos. No caso em questão, trata-se ainda de lições que, em sua maior parte, já assimilamos, mas que, por uma questão de distração, vivemos esquecendo. Eis aí a função de pinturas e esculturas: não nos deixar esquecer de que causas como o amor e a fraternidade estão sempre – ou deveriam estar – no centro da humanidade, e não na periferia, para onde as relegamos, distraídos muitas vezes pelas causas mais nobres e por nossas melhores intenções.
Leonardo da Vinci: A virgem, o menino e Santa Ana
Relevos da Catedral de São Martinho, Utrecht



sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Linhas de chegada

Geralmente, ao iniciar um texto, sinto um certo receio que, mesmo sendo passageiro, incomoda um pouco na sua brevidade. Hoje não é diferente. Coisa que, desnecessário é dizê-lo, não mais me surpreende. O que causa surpresa é o ineditismo, o imprevisto, e não a rotina, constante, leal em sua previsibilidade. O temor de hoje em relação ao tema escolhido não poderia ser mais eloquente. Pois, quando me proponho escrever sobre nossas buscas de todo dia – pelo que quer que seja, entre nossas metas particulares, intransferíveis -, percebo agora a incerteza, maior em relação a outros temas, quanto a saber encontrar as palavras adequadas, além de um sentimento que é vago apenas enquanto os objetos de minha procura permanecem, ao menos por enquanto, nesse início de texto, indefinidos. É hábito dizer que, quando se persegue algum objetivo, convém não colocá-lo na linha do horizonte, posto que, à medida que avançamos, a linha de chegada, em consequência, também se retrai à nossa frente. A respeito do caminho que percorremos para nos tornarmos – e nos mantermos - cidadãos da pós-modernidade, o sociólogo Zygmunt Bauman, em A arte da vida, expõe com singular clareza essa questão: “É como se não existisse um destino final pré-ordenado, uma linha de chegada predeterminada ao longo das estradas que percorremos, incluindo a que supostamente conduz aos ‘novos seres humanos’”. Por seu caráter material, trata-se de uma espécie de cidadania antes adquirida do que conquistada, e podemos usar como exemplo desse fato qualquer produto do setor eletroeletrônico e sua constante substituição por aparelhos novos, não necessariamente aperfeiçoados e portanto mais úteis, mas, por assim dizer, mais modernos. O que alcançamos hoje amanhã já estará ultrapassado, não esquecendo que, numa sociedade líquido-consumista, seres humanos também passam a ser considerados como similares a qualquer objeto de consumo e, por extensão, descartáveis no momento em que deixam de acompanhar o jogo da cadeira: ninguém quer deixar de participar da brincadeira que se tornou, nos últimos anos, a “construção” da condição de indivíduo.

Praticamente em todas as épocas, a literatura espelhou fielmente essa busca sem fim. Como exemplo, podemos mencionar um trecho bíblico de surpreendente pessimismo, em se tratando de um livro sagrado: “Vaidade das vaidades”, diz o Eclesiastes, “vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol? Uma geração passa, outra vem; mas a terra sempre subsiste. O sol se levanta, o sol se põe; apressa-se a voltar ao seu lugar; em seguida se levanta de novo. O vento vai em direção ao sul, vai em direção ao norte, volteia e gira nos mesmos circuitos (...). O que foi é e será; o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol”. Muitos séculos depois, surgiria um exemplo clássico da insatisfação: Madame Bovary, a personagem do memorável romance de Flaubert. Emma, que na juventude nutrira sua imaginação com romances açucarados, acaba por desenvolver, a partir deles, uma ideia equivocada da vida e da sociedade, e sua tentativa de escalada social termina malograda. Trata-se da típica personagem que valoriza tudo que não possui e não valoriza nada do que tem. Quando sabe que a casa em que vive seria levada a hasta pública, em função de seus gastos desordenados visando ao luxo, nem sequer tomando conhecimento do marido e da filha, a personagem toma arsênico e acaba morrendo sem perceber a mais básica e, na aparência, mais irremediável das verdades: o ser humano é insaciável por natureza. Tal como Messalina, poderia revelar sua aceitação do trágico final: “Eu morro, mas morro insaciada”. Essa obra, em posição de privilegiado destaque na história da literatura, deixou como parte de sua herança uma palavra que tenta definir essa demanda ambiciosa e desmedida, levada ao grau extremo de histeria: bovarismo, coisa que, em nossos dias, tenho a impressão de que se tornou regra, em vez de exceção. Gostaria imensamente de estar equivocado.

Quanto a mim, não me é difícil expor, em linhas gerais, em que constituem minhas expectativas em médio prazo, ao menos enquanto as palavras me forem fiéis. Poderia começar com o desejo da continuidade de algo em que me considero um cidadão plenamente realizado – embora nesse adjetivo exista algo de imobilidade que não se aplica a mim: hábitos tais como a dedicação ao trabalho diário, à leitura, à música e aos ensaios, à escrita, aos amigos, às viagens, à aquisição constante de novos conhecimentos e experiências. E, a partir disso, colaborar de algum modo e da melhor maneira possível, dentro de minhas limitações, para o aprimoramento da sociedade ou, ao menos, das poucas pessoas de um círculo mais restrito, o que se pode considerar obrigação básica não apenas para quem estudou em instituição federal, mas para qualquer um que almeje o grau de cidadão. Isso inclui também, em outras palavras, aceitar quem não aceita nossas diferenças, nossas limitações e as muitas imperfeições, que, por maiores que sejam nossos esforços, sempre existirão.

A questão exposta acima envolve mais uma vez tudo que diz respeito à formação do que se chama identidade. Acerca desse conceito, Bauman formula algumas indagações muito pertinentes: “Quem sou eu? Qual o meu lugar entre os outros – entre aqueles que conheço, entre aqueles de que tenho informação e aqueles de que até agora nunca ouvi falar? Quais são as ameaças que tornam inseguro este meu lugar? Quem está por trás das ameaças? Que tipo de medidas defensivas deveria eu tomar a fim de desabilitar essas pessoas e assim me colocar a salvo de tais ameaças?”. Creio que a resposta talvez seja muito mais simples do que pareça, e a questão pode ser resumida de maneira até muito simples: desde que tenhamos consciência de estarmos desempenhando da melhor maneira possível os papéis mais básicos que a sociedade e a vida nos legaram, estando em dia com nossas obrigações, o que basta é a autoaceitação e o pouco de paz de consciência que logramos alcançar. Nesse caso, não prevalece a opinião de Sartre, para quem o inferno são os outros: “L’enfer, c’est les autres”. Antes pelo contrário: esse universo dos outros constitui o início de uma série de deveres.

Este texto, mesmo que construído à base de digressões casuais, não estaria completo se não houvesse ainda um outro ponto, ao qual, se não fizesse alusão, não haveria a necessária sinceridade do autor para consigo mesmo, alicerce de qualquer progresso, por pequeno que seja. Esse viés me é sugerido por Sándor Márai, em seu romance Libertação. A protagonista, Erzsébet, vive na Budapeste da década de 1940, nos sangrentos meses da invasão de tropas inimigas. Dela dependem seu pai, cientista de renome que, por motivos políticos, é perseguido pela Gestapo, além de diversos outros refugiados. Enquanto procura em desespero por um novo abrigo, ela caminha pelas ruas da cidade sitiada: “Sob a luz da lua, nas ruas escuras, por toda parte havia canhões, caminhões de carga, soldados vagavam à espera. Esperavam por alguma coisa. Esperavam pelo cerco, por certos acontecimentos que dariam sentido a seu preparo e a sua existência. (...) Os grupos estavam taciturnos, sombrios. Todos esperavam numa prontidão impotente, os soldados, os canhões, os tanques, as batalhas, as pessoas, nos porões e nas casas às escuras, a cidade inteira; porque alguma coisa tinha se realizado, chegara a hora”. O trecho não poderia ser mais claro e sintético em relação tanto ao papel exercido por Erszébet quanto ao ofício dos soldados. Se por um lado dela dependem a vida e a salvação dos refugiados, os soldados, ansiosos, esperam pela hora de desempenhar as funções para as quais se prepararam durante anos. Em comum, a protagonista e os soldados têm a característica de esperar pelo que trará um maior significado às suas existências. Ela, salvando; os soldados, por sua vez, capturando e matando. Mesmo que não vivamos em tempo de guerra, o exemplo não deixa de ser ilustrativo. Se não é óbvio, ao menos deveria ser claro que todos esperam por momentos em que suas vidas passem não apenas a ter um sentido fundamental para si mesmas, mas, em grau não menos elevado, para outras pessoas. Creio mesmo que seja muito mais do que isso. É algo que não vem de uma hora para outra, mas um pouco por dia, através de algo que fazemos, uma palavra que dizemos, ouvimos ou escrevemos, uma opinião expressada, um livro lido, uma viagem... Por mais impotentes que sejamos. É o momento em que sonhos e aspirações pessoais dividem seu lugar com uma obrigação moral, ética, para com nossos semelhantes, sem o que nada, absolutamente nada, teria sentido ou razão de ser. Contudo, para o bem ou para o mal, isso é apenas uma opinião, e não exatamente a realidade.

Evidentemente, quando essas metas forem alcançadas, outras surgirão em seu lugar. Creio que seja óbvio: o momento da morte de um desejo é o instante exato em que o satisfazemos. Todavia, conforme já expus acima, um dos “tesouros” encontrados na caixa de Pandora é a insaciabilidade de nossos desejos e ambições. Mas isso é detalhe. O importante é jamais, em momento algum, suspender a busca. Se nada desejamos neste mundo, já morremos para os outros e, sobretudo, para nós mesmos. (E tenho a impressão de que o mundo está repleto de seres que já desistiram, no sentido que sua ausência de aspirações nos permite observar: pessoas, principalmente as mais jovens, que não desejam coisa alguma e para quem tudo tanto faz). Há também o entusiasmo, elemento indispensável para que qualquer vida seja não apenas interessante, mas vida em plenitude. Conforme a frase de Balzac, “o homem começa a morrer quando perde o entusiasmo”. E, no pouco que me é dado ver, creio que o romancista não poderia estar mais certo. A propósito, em grego, entusiasmo tem um significado muito peculiar: “estar possuído por um deus”.

Uma voz em surdina me diz que estou longe, muito longe, de ter esgotado o assunto, em suas inúmeras, talvez infinitas possibilidades. Mas estaria sendo insincero se afirmasse saber o que terei omitido. Mas deixo para pensar nisso amanhã, talvez. Por hoje, chega. E agora, para encerrar, Clair de Lune.

Fotografia: Sándor Márai

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

As personas e a questão do sentido

Há muito tempo o assunto já se tornou lugar-comum, mas nem por isso perdeu o interesse e a importância: de todas as questões debatidas na antropologia, uma das mais instigantes continua sendo a maneira de diferenciar o homem das demais espécies. Diversas são as formas de ilustrar a peculiaridade dos humanos: de animal que ri, espécie perfectível segundo Rousseau, e no entanto o único capaz de planejar a morte de outros de sua espécie, até a tradicional caracterização do animal racional, essas definições, através de suas diferenças e na inexistência de consenso, acabam talvez dizendo mais de quem as defende do que da espécie humana em si. Particularmente, entre as tantas possibilidades, minha preferência recai sobre algumas que me parecem mais lúcidas e que não deixam margem para erros, como ilusões ou esperanças. Entre tais modos de ver, me parece especialmente digno de crédito o que distingue o homem como o único animal consciente da própria existência, bem como de sua finitude, ou, em outras palavras, do caráter inevitável do fim. Igualmente valiosa é a denominação segundo a qual o ser humano se sobressai por se sentir impelido a procurar sentido em tudo que o cerca e em tudo que vive, coisa que em nada difere da atribuição propriamente dita de sentido à vida e ao seu papel de criatura no mundo. Já se disse inclusive que o “sentido é a nossa droga pesada”, sentença que lembra outras, em especial a identificação de religião como ópio do povo. Seria talvez equivocado dizer que tal droga seja nociva no sentido mais imediato. Contudo, argumenta-se, o hábito humano de procurar significado em tudo que vivencia acaba por afastá-lo da realidade última da vida e do mundo, que, para muitos pensadores, é o de não ter sentido algum. De certa maneira, somos como crianças grandes a usarem personas, isto é, máscaras que nos especializamos em fabricar e aperfeiçoar ao longo de nossa existência, e a que muitos chamam identidade.
Creio não ser o único a ver na infância uma gama quase infindável de possibilidades de vivência, isto no sentido de experiências imediatas, permitidas pela maior flexibilidade de trânsito entre os universos da ficção e da realidade. Um bom exemplo é viver pela manhã o papel do menino comportado que não falta à aula e que, na hora da chamada, responde ao ouvir a pronúncia de um nome particular, cuja função é também integrá-lo no seio de uma família semelhante a tantas outras e, ao mesmo tempo, única. O desempenho desse papel no turno da manhã em nada impede que à tarde o mesmo menino protagonize as mais fantásticas aventuras, já atendendo pelo nome dos heróis de suas histórias prediletas, não raro possuidores de peculiares superpoderes. Sendo a imaginação fértil, não há maiores problemas em não dispor de uma caverna nas cercanias para enfrentar os perigos representados por este espaço em especial, como o ogro monstruoso, o dragão cuspidor de fogo ou mesmo uma das tantas bruxas a povoarem os pesadelos típicos desse período da vida, com ou sem vassoura voadora. Nessas brincadeiras perdidas em remotas tardes de uma cidade que existe apenas em minha memória, preferia quase sempre brincar sozinho, por uma razão muito simples: a presença de meninos mais crescidos muitas vezes colocava em dúvida o que, para o bom andamento da brincadeira, não podia ser questionado: a veracidade, mesmo que momentânea, de nossos papéis. Brincando entre dois, sempre chegava mais cedo o momento que eu buscava ao máximo retardar: a hora de, terminada a brincadeira, retirar as máscaras e voltar a ser o que éramos pela manhã e o que voltaríamos a ser à noite, meninos obedientes atendendo aos apelos das mães que, no limiar entre o fim da tarde e o início de noite, nos chamavam para jantar. Cedo ou tarde, era necessário dar ouvidos às vozes desestabilizadoras e, por bem ou por mal, voltar à realidade.
Passadas décadas, é impossível deixar de comparar tais brincadeiras aos aspectos mais mecânicos da sociedade, bem como à artificialidade tantas vezes cega com que se busca seguir os mais diversos costumes ou tradições, esses tendo, entre tantos objetivos propalados, a função de verificar se todos os membros da comunidade estão cumprindo seus papéis de acordo com o esperado de cada um. Que todos precisamos de ficção, em pequenas ou grandes doses, dependendo do caso, é indiscutível. A grande diferença entre o modo de vivê-las reside no fato de alguns indivíduos saberem do caráter fictício mesmo da realidade mais próxima, enquanto outros entregam-se de corpo e alma ao que acreditam ser verdades absolutas. Para que essa empreitada seja efetiva, torna-se necessária a adesão de todos, portando suas personas, que, na vida em sociedade, ganham outro nome, a saber, individualidade. Percebe-se, a partir da desenvoltura com que cada um usa sua máscara, se a lição do faz-de-conta da infância foi bem assimilada. A diferença está nas formas de ficção: os sentidos do mundo dos adultos, muitas vezes mantidos à força da exclusão de quem questiona, são mais elaborados, mais resistentes aos ventos e às vozes contrárias. Mesmo os filósofos que dedicaram suas vidas à desconstrução do sentido foram, em muitos casos, exemplos clássicos de personagem com função bem estabelecida.
Existem diversos exemplos de momentos em que os papéis se confundem e o portador da máscara se vê de maneira imprevista no papel de desconstrutor, enquanto este assume como que acidentalmente os preceitos que tanto fez para desmentir. Talvez eu esteja equivocado, mas creio que parte da essência mais pura do ser humano, da mais legítima, talvez se encontre mesmo no limiar dessa inversão entre uma postura e outra, na dúvida que às vezes se instaura, instante que pode não durar mais que alguns poucos minutos, ou, às vezes, durar a vida inteira. Em todo caso, creio que já disse o bastante – ao menos é o que minha impressão diz; mais exatamente, a intuição de que, em alguns momentos, mais vale guardar a sinceridade para nosso próprio – e econômico – uso, lição cujo aprendizado me é especialmente difícil. Mas há uma imagem que me vem à mente e que gostaria de deixar para o leitor. Trata-se de um momento da vida de Friedrich Nietzsche: em Turim, no ano de 1889, o filósofo, que não via com bons olhos o sentimento da piedade, no sentido cristão da palavra – da piedade de um ser humano por outro -, deparou-se com um homem espancando brutalmente seu cavalo. Em lágrimas que lhe corriam abundantes por sobre a face, abraçou a cabeça do cavalo e beijou-lhe inúmeras vezes o focinho. Pouco tempo depois, Nietzsche foi levado a um sanatório, primeiro na Basileia, depois em Weimar, onde veio a falecer em agosto de 1900.
Curioso, acreditei, na minha ingenuidade, que através da leitura de algumas de suas obras iria encontrar a origem desse desequilíbrio. Acerca dessa interrogação, permaneço na dúvida até hoje. Mas, de certa forma, encontrei o que buscava: algo muito além de um pensamento apenas “humano, demasiado humano”. Seja como for, vale lembrar as palavras de Emil Cioran: “Um livro que, após haver demolido tudo, não se destrói a si mesmo, exasperou-nos em vão”. A pergunta que fica é o que o próprio Nietzsche teria pensado dessa frase; talvez dissesse que, quando alguém se exaspera, seja por qual motivo for, nunca é em vão, e sim por uma questão vital para a conservação da lucidez.
Nietzsche em 1882





sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Lições de Proust para mudar sua vida


“Quando se ama um autor, nunca se sabe demais sobre ele”, diz Julian Barnes. Quando esse autor é Marcel Proust, não tenho como discordar. Obras como a biografia de George Painter, ensaios de autores do porte de Walter Benjamin, Samuel Beckett, Georges Bataille e, mais recentemente, Harold Bloom, se a um tempo constituem uma vasta galeria sobre uma outra galeria ainda mais extensa, por outro lado, como que para confirmar a frase acima, parecem sempre insuficientes. Isso porque poucas vezes, na história da literatura, houve paradoxo semelhante: se vida e obra a um só tempo parecem inextricavelmente ligados numa mesma e contínua linguagem, como num fluxo ininterrupto, por outro lado passaram a constituir para sempre dois universos distintos, repletos de inúmeras histórias paralelas: mesmo depois de anos de dedicação tanto à sua biografia quanto à sua obra, Proust jamais cansa de nos encantar, nos surpreender e, acima de tudo, de nos lançar desafios. É por seu intermédio que conhecemos personagens e pessoas a quem passamos a admirar por si mesmas, no que elas possuem de mais individual e por serem também modelos de grandeza, de dedicação e de fidelidade a um homem e a uma causa, a saber, a literatura. Nesse trajeto, travamos contato com Céleste Albaret, a criada que, por oito anos, conviveu diariamente com o escritor, sendo a única a ter acesso à sua intimidade e que, não obstante ter sido assediada por jornalistas e biógrafos quase por toda a sua existência, apenas perto do final de sua longa vida, quando contava já oitenta e dois anos, decidiu-se a dar seu testemunho de um dos autores que mudaram para sempre a história da literatura. Do quanto a escrita de Em busca do tempo perdido deve a essa humilde senhora ficamos cientes no longo relato intitulado Senhor Proust, e, ao final, é impossível deixar de ser grato a alguém que, pelo papel que o acaso lhe reservou, transcendeu em muito a condição de simples criada.
Porém, não é necessário ser um admirador de Proust, esse grande devoto do Tempo e da Memória, para surpreender-se com a inventividade de Como Proust pode mudar sua vida, do filósofo e escritor Alain de Botton (Rio de Janeiro: Intrínseca, 2011). Ao se deparar com tal obra, a primeira interrogação do leitor é quanto ao gênero: não se trata de biografia, nem de crítica literária, tampouco de filosofia. Na ficha catalográfica, a temática consta como sendo “Humor, sátira etc.”. O que é bem verdade: a obra não deixa de ser uma bem-humorada sátira aos eternos livros de autoajuda, inteiramente elaborado tendo as matérias-primas mais diversas: a obra, a correspondência, a vida e depoimentos de amigos do grande escritor francês, tudo tecido com a prosa fluente e lúcida de De Botton, ele mesmo parecendo ter se especializado em desafiar constantemente a rotulação em gêneros. O resultado é um inspirado e cativante guia para o dia a dia, tratando de temas como a leitura, o amor à vida, o sofrimento, a amizade, o amor, entre tantos outros. Uma das muitas virtudes do autor é saber aliar a sabedoria das citações com a riqueza de suas reflexões sobre os temas abordados, sabendo o momento exato tanto de conduzir, com sua prosa, a ordem dos capítulos, introduzi-los e discorrer sobre os assuntos, sem perder a noção quanto ao momento de calar-se para deixar as palavras na voz de Proust.
E é através da voz de Marcel que recebemos orientação a respeito do que, mais exatamente, buscamos tanto em obras como essa como na própria Busca: “Na verdade, todo leitor, enquanto está lendo, é o leitor de seu próprio eu. O trabalho do escritor é simplesmente uma espécie de instrumento ótico oferecido ao leitor para lhe permitir distinguir o que, sem o livro, ele talvez nunca fosse vivenciar em si mesmo. E o reconhecimento em si próprio, por parte do leitor, daquilo que o livro diz é a prova da sua veracidade”. Em contraponto a esse trecho, temos o capítulo final, “Como abandonar os livros”: “Transformar [a leitura] em disciplina é atribuir um papel grande demais ao que é apenas um incentivo. Ler está no limiar da vida e pode apresentá-la a nós, mas não a constitui”. E, de acordo com De Botton, “até mesmo os melhores livros merecem ser abandonados”.
Ultimamente, tornou-se hábito das editoras usar as contracapas dos livros como um estímulo para vendas, através de trechos de críticas muitas vezes em tom hiperbólico. No caso em questão, não é preciso desconfiar do teor desses comentários, nos quais também não há qualquer exagero. Como exemplo, podemos citar as palavras de John Updike: “Este livro contém mais interesse humano e inventividade do que a maioria das obras de ficção. Ao enfatizar a capacidade de curar e aconselhar que há em Proust, De Botton nos faz o favor de relê-lo, fornecendo uma destilação doce e lúcida daquele lago vasto e sagrado”.
Conforme André Gide, deve-se valorizar um artista não apenas pelo que é capaz de criar, mas também pelo que é capaz de sacrificar. Em parte, em virtude do recolhimento que a escrita requer, isso se aplica a um elevado número de bons escritores, o que nos leva a amar a literatura como um todo e de um modo particular, especial. Mas quem alguma vez tomou conhecimento da maneira de viver de Proust não deixará de pensar que, ao fazer essa afirmação, Gide aludia especificamente a esse autor; sendo assim, tornamo-nos duplamente gratos àquele que, talvez mais do que qualquer outro, soube fazer da renúncia a condição sine qua non para o surgimento de sua obra, que, como a descreve Walter Benjamin, constitui um “Nilo da linguagem, que transborda nas planícies da verdade, para fertilizá-las”.
Marcel Proust, retrato de Jacques-Émile Blanche, 1892
Céleste Albaret em 1914