quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Relendo Todorov: A literatura em perigo

Muitas vezes, dependendo da intensidade com que as leituras se sucedem, um exame mesmo que rápido nas estantes pode trazer belas surpresas. A voracidade com que não raro nos atiramos ao novo, lendo de forma quase indisciplinada ou mesmo descuidada, nos faz lembrar que o conhecimento se dá mesmo é no vagar desigual da releitura. Nesse sentido, livros lidos nos primeiros meses do ano revelam passagens sublinhadas (a lápis) que, se não fosse o acaso nos fazer retomar o volume, estariam na antevéspera ingrata do esquecimento. Destaco hoje a redescoberta de uma obra vibrante de Tzvetan Todorov: A literatura em perigo (Rio de Janeiro: DIFEL, 2010).
“Hoje, se me pergunto por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é: porque ela me ajuda a viver (...). Não creio ser o único a vê-la assim. Mais densa e eloquente que a vida cotidiana, mas não radicalmente diferente, a literatura amplia o nosso universo, incita-nos a imaginar outras maneiras de concebê-lo e organizá-lo. Somos todos feitos do que os outros seres humanos nos dão: primeiro nossos pais, depois aqueles que nos cercam; a literatura abre ao infinito essa possibilidade de interação com os outros e, por isso, nos enriquece infinitamente. Ela nos proporciona sensações insubstituíveis que fazem o mundo real se tornar mais pleno de sentido e belo. Longe de ser um simples entretenimento, uma distração reservada às pessoas educadas, ela permite que cada um responda melhor à sua vocação de ser humano”.
“Se a poesia não deve se submeter à procura da verdade e do bem, é porque ela é em si mensageira de uma verdade e de um bem superiores àqueles que podemos encontrar fora dela”.
“(...) não somente a arte conduz ao conhecimento do mundo, mas (...) ao mesmo tempo revela a existência dessa verdade cuja natureza é diversa”.
“A arte interpreta o mundo e dá forma ao informe, de modo que, ao sermos educados pela arte, descobrimos facetas ignoradas dos objetos e dos seres que nos cercam”.
“A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver. Não que ela seja, antes de tudo, uma técnica de cuidados para com a alma; porém, revelação do mundo, ela pode também, em seu percurso, nos transformar a cada um de nós a partir de dentro. A literatura tem um papel vital a cumprir; mas por isso é preciso tomá-la no sentido amplo e intenso que prevaleceu na Europa até fins do século XIX e que hoje é marginalizado, quando triunfa uma concepção absurdamente reduzida do literário. O leitor comum, que continua a procurar nas obras que lê aquilo que pode dar sentido à sua vida, tem razão contra professores, críticos e escritores que lhe dizem que a literatura só fala de si mesma ou que apenas pode ensinar o desespero. Se esse leitor não tivesse razão, a leitura estaria condenada a desaparecer num curto espaço de tempo”.
“A leitura de romances, segundo [Richard Rorty], tem menos a ver com a leitura de obras científicas, filosóficas ou políticas do que com outro tipo bem distinto de experiência: a do encontro com outros indivíduos. Conhecer novas personagens é como encontrar novas pessoas, com a diferença de que podemos descobri-las interiormente de imediato, pois cada ação tem o ponto de vista de seu autor. Quanto menos essas personagens se parecem conosco, mais elas ampliam nosso horizonte, enriquecendo nosso universo. (...) Essa aprendizagem não muda o conteúdo do nosso espírito, mas sim o próprio espírito de quem recebe esse conteúdo (...). O horizonte último dessa experiência não é a verdade, mas o amor, forma extrema da ligação humana”.
Michael Ancher: Sick girl, 1882

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A verdureira, ou Da necessidade de ganhar a vida

Ela costumava vir nos finais de tarde, quando as cores do dia já anunciavam uns tons alaranjados ou róseos nos céus ora claros, ora cinzentos de dias já remotos. Embora passasse sempre por volta do mesmo horário, isso não quer dizer que o seu dia de trabalho não começasse cedo, nas primeiras horas da manhã. Eu, que na época vivia brincando na rua, tinha como obrigação diária avisar minha mãe que a verdureira vinha chegando à frente de nossa casa. Naquele tempo, eu ainda falava alemão, idioma em que pronunciei minhas primeiras palavras e cujos rudimentos dialetais usava para designar brinquedos, pessoas e os animais de que vivia cercado. Referia-me a ela simplesmente como Die Frau, “a senhora”, assim mesmo, não como se fosse a única que existisse, mas a única que importava naquele contexto específico dos afazeres cotidianos de minha mãe e dos quais eu tomava parte simplesmente chamando-a no momento em que a referida personagem chegava. Como vim a concluir mais tarde, o modo no singular como a designava nada tinha de arbitrário. Mas deixemos isso para depois. Preocupado que estava em decorar suas rugas, suas feições e, mais tarde, nos primórdios de meu interesse por psicologia, em descobrir os sentimentos que sua fisionomia e tons de voz deixavam por vezes adivinhar, dedicava toda a minha atenção a esses detalhes, não chegando jamais a descobrir ao certo em que consistia o carrinho que ela empurrava. Visto que era com as mãos que o impulsionava, não chegaria a constituir um erro chamar aquela estranha estrutura em madeira coberta de carrinho de mão, embora nada tivesse em comum com os tradicionais veículos chamados por esse nome. Na verdade, ao menos levando em consideração o seu conteúdo, o instrumento de trabalho de Die Frau era muito mais pesado, e causava admiração a leveza com que ela o fazia deslizar rua acima e, da mesma forma, o cuidado que tinha para não o deixar despencar ladeira abaixo, com suas frutas, verduras e hortaliças.

“Ela precisa ganhar a vida”, disse-me meu irmão quando observei, certa vez, a sua assiduidade em dias tanto de sol implacável como da mais forte chuva, nos quais Die Frau se protegia, tanto nuns como nos outros, com um simples lenço por sobre os cabelos. Lembro que a expressão me causou certa perplexidade: não ganhamos a vida de uma vez só, no instante em que nascemos? Interrogado a esse respeito, meu irmão se perdeu em explicações que mais me trouxeram dúvidas e inquietações que esclarecimentos. Se precisávamos garantir a vida um dia depois do outro, e assim por toda a existência até o momento em que deixaríamos de viver, o que poderia fazer eu, um menino de cinco, seis anos? E assim me detinha em pensamentos e indagações sobre valores cujos nomes só vim a saber muito mais tarde, como dever, constância, humildade, coragem, resistência, perseverança, fé – lições que jamais aprenderemos tão corretamente como deveríamos –, além de coisas que mesmo hoje, tendo se passado décadas, embora eu saiba de que são feitas e como se faz para vivê-las e conservá-las, ainda não sei nomear, mas que fazem parte do meu dia-a-dia. Pois não é constituído apenas de virtudes, nobres valores e de imperfeições o mundo dos adultos, mas sim de elementos que pertencem mais ao universo das intuições e dos sentimentos de plenitude, mistérios que revestem o absurdo de significado e realizam o milagre cotidiano de atribuir sentido ao que, em última instância, é puramente aleatório ou, com maior exatidão, simplesmente caótico.
Mas eis que me deixo levar por divagações que conduzem sempre a lugar nenhum e perco de vista a minha personagem. Sempre me chamava a atenção, ao ver a verdureira, o rosto coberto de suor no verão ou a maneira desordenada como se protegia do frio nos dias mais rigorosos de inverno. A nós, que viéramos do interior não fazia muito, pouco habituados a presenciar os reveses da pobreza, aquelas roupas nada eram além de trapos, tal como o lenço improvisado sobre a cabeça. Os anos foram passando, e, de menino conhecedor de apenas alguns rudimentos de alemão, passei à condição de pequeno cidadão alfabetizado, esquecendo o dialeto germânico em detrimento da língua pátria. Mudamo-nos para o outro lado da cidade, e a verdureira, passando quase sempre à mesma hora, levava-me a fantasiar acerca de misteriosos e secretos dons de onipresença, revelados apenas a iniciados. É preciso antes dizer que, como acontece às vezes, algumas pessoas a que nos habituamos a ver com frequência, pelas mais diversas razões, acabam se tornando de certa forma especiais para nós, por adquirirem o simbolismo de algo intangível, característico, e que jamais conseguiremos decifrar por completo. Talvez por estarem por perto durante tempos tanto bons quanto difíceis, acabam se tornando testemunhas de parte nossa história, e nós da trajetória desses seres. Quanto a Die Frau, nunca lhe dirigi a palavra, nunca soube onde morava nem como se chamava, mas aquela senhora passou a ser para mim, para todo o sempre, e sem exagero, muito mais que essas pessoas que costumam nos apontar rotineiramente como modelos a serem seguidos. O que a revestia de tanto significado, ao menos a meu ver, tinha origem talvez no pouco que sabíamos a seu respeito, características, qualidades e histórias que, afeito que já era à leitura, encontrava na ficção e, desejoso de vislumbrar na vida cotidiana um pouco da realidade entressonhada nas páginas, atribuía alguns dos enredos que lia à verdureira. Creio que, se soubesse mais sobre sua vida, com certeza ela jamais teria adquirido nenhum dos sentidos que vejo nela até hoje, não apenas em retrospecto. A verdade é que alguns personagens dos nossos primeiros anos acabam se tornando, se não ícones, ao menos a personificação dos aspectos mais complexos, algumas vezes contraditórios, outras simplesmente banais e por vezes causadores mesmo de perplexidade, esses elementos que, reunidos, compõem o todo de uma vida humana.
Pois bem: certo dia, quando eu já era um adolescente, ocupado com os enigmas próprios desse período, aconteceu de uma notícia vir obscurecer os assuntos na vizinhança: o fato era que a filha da verdureira, filha que para ela significava mais que a sua própria vida, havia morrido. Todos pensaram, como acontece nessas ocasiões, que por dias, talvez semanas, deixaríamos de ver a mulher, alterando dessa forma um dos elementos de que se compunha nossa rotina de então. Foi por essa ocasião que se revelou para mim o real imperativo daquela expressão que meu irmão usara, mostrando-me um lado que me pareceu cruel: no dia seguinte ao enterro da filha, de maneira completamente inesperada, vi ao longe, avançando na rua, no mesmo horário de sempre, a sofrida verdureira. Naquele dia, contrariando completamente o seu costume de deixar que o viço de suas frutas e verduras falasse por si mesmo, ela se pôs a fazer algo que nunca antes fizera: elogiar o verdor das alfaces, a cor das cenouras, a aparência das maçãs. E o fazia com lágrimas nos olhos, correndo volumosas pela face, mostrando que ela, mesmo não vestindo luto, estava completamente ausente em pensamento. Um detalhe: as lágrimas não se limitariam àquele único dia, mas durariam meses. Sim, meu irmão estava certo: era necessário ganhar a vida. Um dia depois do outro. Nem que, para isso, se precisasse expor aos olhos de todos o que temos de mais íntimo e particular: as lágrimas da alma.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A escrita e o silêncio, esse elo perdido

Talvez por conterem em seu significado a origem de diversos outros temas, alguns assuntos parecem possuir, a meu ver, um caráter de quase urgência. Por essa razão, seja qual for o momento em que forem abordados, virão sempre acompanhados de uma sensação de atraso, como se, por mais que nos apressemos em falar a seu respeito, será sempre tarde demais. Contudo, exatamente por essa premência, essa importância, qualquer alusão que se lhes faça, por banal que seja, é possível que não seja destituída totalmente de valor, mesmo que feita um tanto às pressas, como é o caso aqui. Mas é com esperança de acrescentar nem que seja um grão de areia que principio, com cautela e receoso de não encontrar as palavras exatas. Bem sei que esta não será a única vez que toco nesses assuntos. Querendo ou não, sei que os retomarei ainda muitas vezes: a escrita e o silêncio.
Sei que talvez pareça estranho, até absurdo; mesmo assim, confesso que durante muito tempo escrever era coisa me enchia de assombro. Isso por uma razão que talvez nem seja difícil de compreender: durante muitos anos, por sugestão de professores, além de outros motivos, os únicos livros cuja leitura me parecia valer a pena eram os clássicos; o tempo já havia comprovado grandemente seu mérito. Sendo assim, os autores que lia, ou ao menos a maior parte deles, no momento em que tomava contato com seus escritos, estavam mortos há muito tempo; em alguns casos, há séculos. Por essa equação simples, pode-se compreender a circunstância um tanto grave que, em meu pensamento, cercava esse universo misterioso da escrita. E era um mistério cercado de rituais, como esses que deixamos o mais das vezes para os que já se foram. Talvez compreenda-se, portanto, que em muitos momentos, mesmo em relação aos textos mais simples, era como se eu estivesse redigindo meu próprio epitáfio. Isso, claro, é um certo exagero. Mesmo assim, não posso negar que escrever sempre foi para mim uma atividade que aparentemente colocava em comunhão os dois mundos distintos que, em minha mente, existiam: o dos vivos e o dos mortos.
Pelo prolongamento involuntário de certos sentimentos e de algumas outras características minhas ao longo da vida, não sei se digo isso da criança que fui ou do adulto que sou hoje. Pelas dúvidas, e para não incorrer em erros, digamos que isso se refira a nós dois. E percebo dessa forma que não é apenas a fronteira referida acima que desaparece diante do ato de escrever. Talvez essa seja uma definição razoável da escrita: buscar, através das palavras, obscurecer os limites conhecidos, tais como o eu do autor e o do leitor, passado e presente, realidade e ficção, e fazer deles a fusão de novas possibilidades em termos de realidade concreta. Bem se sabe que uma das definições do escrever é, por eventuais descontentamentos com a realidade imediata, colocar-se a criar outra, através de outro elemento, diferente dos quatro conhecidos: o vocabulário.
Digam o que disserem, as palavras revelam-se tudo de que dispomos para restaurar a ordem em um mundo desorientado e para pacificar os contrários. Gostaria de ter alguma certeza, ao menos uma que fosse, mas não obtive essa graça. Em todo caso, posso dizer que creio nas palavras. Não se trata de fé, pois esta exige convicção absoluta em relação ao que não se sabe. Pois bem: creio firmemente no dom transformador das palavras, mas como em tudo, porém, existem dois lados, não são poucos os efeitos nocivos que se têm obtido através do uso inadequado da linguagem: a luz que alumia também pode ser usada para assustar, confundir, mostrar falsos caminhos, isso sem que as pessoas, enquanto vivem, se apercebam do engano. Entristeço-me ao ouvir os discursos enganadores dos muitos que possuem o nobre ofício de guiar. Seria de esperar que ao menos quem tem a missão de conduzir soubesse aonde vai, mas não parece ser o caso.
Como afirmei acima, eu creio no dom de transformação das palavras, na possibilidade de redenção das criaturas humanas através da literatura, essa arte brotada do âmago do silêncio, do cerne de uma existência. Se a linguagem não é capaz disso, nada mais o será. Contudo, sei que talvez pareça incoerência, mas acredito que isso apenas se dará no momento em que as pessoas se voltarem novamente para o silêncio, esse elo quase perdido – é apenas na ausência absoluta de sons que a literatura, assim como a escrita, pode renascer e reinar. Todavia, pelo que observo, nunca estivemos tão distantes desse momento. Nunca se lamentará nem se dirá o suficiente o quanto é grande a perda dos que não sabem suportar o silêncio - o seu próprio e particular silêncio. E a quietude é algo que não se precisa apenas buscar, mas resistir e desbravar, como a terra. E preparar. Creio que nada existe de tão semelhante à terra quanto as palavras. Contudo, é necessário observar ainda que fala e escrita são dois polos opostos a lutarem pela primazia em nossa vida. É uma questão de escolha, mas também de destino e tudo que ele traz de irrevogável, e também de inaudito.
Lembro de uma frase muito repetida de Franz Kafka: “Existe muita esperança, mas não para nós”. Se isso é verdade, por que então se escreve? Não sou porta-voz, mas creio que posso usar a primeira pessoa do plural para a resposta e falar em nome de vivos e mortos, presentes ou ausentes: escrevemos simplesmente pelo fato de não termos escolha. Escreve-se porque estamos vivos, porque nos sabemos mortais, e as frases que rabiscamos constituem expressões plenas de vida, e não de epitáfios ou de lápides, dos quais emulamos apenas o silêncio. Há que cuidar para não abusar desse vocábulo; receio que, à força de repeti-lo, ele perca não a aura, mas a sacralidade de que ele, e só ele, é guardião. Enquanto ainda disponho de alguns momentos, expresso minha esperança de que as pessoas acordem para o silêncio. Não, não se trata de votos e de claustros, e sim de libertação. A resposta à interrogação no início do parágrafo não estaria completa sem uma passagem de André Comte-Sponville, meu filósofo de cabeceira: “Escreve-se porque não se pode calar, ou porque não se quer. O silêncio também é um inimigo, também uma prisão, quando fecha, quando esmaga, quando mata, e às vezes mata. Escreve-se para devolver-lhe sua leveza, sua transparência, sua abertura, sua luz, mas sem o quebrar realmente, como faria a fala, sem sair dele, sem o renegar. Escreve-se no âmago do silêncio, aonde a fala quase não vai. (...) Toda fala é do instante, toda escrita, da duração. É essa duração que o leitor descobre, redescobre, habita. Isso faz como que um tempo redescoberto, no vácuo do cotidiano, um pouco de tempo no estado puro, como diria Proust, e é isso a que a chamam a eternidade: o tempo que passa sem se perder, o presente que muda e continua, o devir que permanece...”.
O que mais se pode dizer?

Johannes Vermeer: Mulher escrevendo uma carta com sua criada, óleo, 1670-1671

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Uma missa para a cidade de Arras

Em 1458, a cidade de Arras, norte da França, enfrentou uma peste que dizimou cerca de um terço de sua população. Os sobreviventes tiveram de lutar, por sua vez, contra um mal tão feroz quanto o anterior: a fome. Como não havia quem se dispusesse a vir de outras cidades para a manutenção de alimentos, não havia um grão de trigo, um grão de arroz, e, como em todo corpo em que se anima um espécime humano há também um germe insuspeitado de loucura, nenhum profeta foi capaz de prever os horrores que se sucederam naqueles dias. O canibalismo foi moeda corrente; registrou-se inclusive o caso de uma mãe que devorou seu filho recém-nascido. A multidão, enlouquecida por uma espécie de clamor do estômago, invadiu até o mais improvável dos locais para calar seu apetite: o cemitério. Passadas a peste e a fome, a vida foi voltando ao normal em Arras, dentro do possível. Porém, em cada habitante ficaria para sempre a marca dos horrores que vira, vivera ou cometera. Três anos depois, um acontecimento banal – a morte de um cavalo - deu início àquilo que entrou para a história como a Vauderie d’Arras. A partir desse fato meramente casual, passou-se a uma campanha de purificação e à busca por possíveis culpados. Procurou-se entre os rogadores de pragas, entre pessoas que conspiravam com o demônio. Não houve dia em que alguém não ia para a fogueira. E, nessa busca, os caçadores olhavam para todas as direções, menos para dentro de si mesmos. Ao final de tudo isso, chega uma autoridade e, com a maior naturalidade, afirma: “O que aconteceu não aconteceu, o que foi não foi!”.

Esses acontecimentos constituem o enredo de Uma missa para a cidade de Arras, do polonês Andrzej Szczypiorski (São Paulo: Estação Liberdade, 2001). Pelo que se pode deduzir, trata-se de uma obra com várias possibilidades de interpretação. À parte as mais comuns, prefiro ressaltar a direção seguida por essa busca por culpados: como se os seres humanos fossem perfeitos, todos os males são atribuídos a causas externas, como influências malignas, pragas etc. Não é preciso observar muito para constatar que, a cada dia, a história de Arras se repete em quase todos os cantos do mundo. Nada pode haver de mais cômodo que cometer um erro, ou mesmo uma atrocidade, e transferir a culpa a forças exteriores e ocultas. É como se o livre-arbítrio tivesse deixado de existir.
Em resumo, é através de acontecimentos como os retratados nessa obra que se vislumbra o abismo que se abre entre o pensamento do povo e a teoria das autoridades e pensadores. Um abismo que parece existir em grande parte apenas para que possamos constatar o tamanho de nossa impotência. E vem-me à mente Carlo Ginzburg e seus Andarilhos do bem e O queijo e os vermes. A respeito do episódio de Arras, é de se perguntar se, em certos casos, não seria a razão tão cega quanto o próprio fanatismo que procura combater.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Dia de Finados: o que se pode fazer pelos mortos?

Sempre me pareceu um tanto ambígua a existência, ou a necessidade de haver, no calendário, um dia para lembrar dos mortos. Da mesma maneira como a criação de uma lei proibindo matar só tem sentido para um povo potencialmente homicida, o Dia de Finados parece significar que saudade é coisa que se sente com hora marcada, ou, no outro extremo, existe apenas para que os vivos não se esqueçam de seus mortos. Em resumo, parece típico da única espécie que tem consciência da própria finitude e, por isso mesmo, não sabe como agir diante dos mortos e, por extensão, da morte em si.

Contudo, a instituição do 2 de novembro como Dia de Finados parece sugerir que a crença na imortalidade da alma sobrepujou todos os limites impostos pela ciência e pela Filosofia. Nessa data, diversos hábitos, tais como levar flores aos túmulos, limpá-los, acender uma vela ou mesmo simplesmente visitá-los parecem sugerir a certeza de que tais gestos são a última coisa que se pode fazer pelos falecidos. E sempre há os que nem questionam o significado dessas homenagens: apenas as respeitam por tradição, ou simplesmente obedecem-nas porque quase todos o fazem. De fato, essa é uma data em que todos os cemitérios parecem tornar-se verdadeiros jardins: o que mais se pode oferecer aos mortos além de flores, essência da natureza e, no caso, um símbolo da brevidade da vida?

No entanto, essa singela e simbólica homenagem cede lugar a outros questionamentos. Quais outros tributos poderíamos prestar àqueles que, antes de nós, foram conhecer a resposta ao grande enigma da morte? O que mais podemos fazer por eles além de seguir cegamente usos que o tempo e a tradição estabeleceram? As respostas podem ser muitas, mas dependem, basicamente, da consciência de cada um. Algumas delas poderiam vir, por exemplo, da negação, do ceticismo: nada mais podemos fazer pelos nossos entes queridos, além do que tradicionalmente já se faz. Outra resposta possível é a seguinte: o que podíamos fazer por eles já fizemos em vida e tais ações exigem verbos no passado. Ter sido um bom filho, um bom pai, um bom amigo, um bom aluno etc. Orar, segundo os católicos, é outra alternativa.

 Em seu romance O filósofo e o lobo, Mark Rowlands nos traz uma preciosa reflexão: “Mas existe outra forma, mais profunda e importante, de nos lembrarmos: uma forma de lembrança que ninguém jamais pensou em honrar com um nome. Trata-se da recordação de um passado que se imprimiu em nós, em nosso caráter e na vida que levamos – e que molda esse caráter. Não temos, normalmente, consciência dessas lembranças; muitas vezes nem são coisas que estão em nosso consciente. São elas, mais que qualquer outra coisa, que fazem de nós o que somos. Essas lembranças se manifestam nas decisões que tomamos, nos atos que praticamos e na vida que levamos. É em nossas vidas, e não, fundamentalmente, em nossas experiências conscientes, que encontramos as lembranças dos que se foram. Nossa consciência é instável, não é digna do trabalho de se lembrar. O modo mais importante de se lembrar de alguém é ser a pessoa em que este alguém nos transformou – pelo menos em parte – e viver a vida que ele nos ajudou a moldar (...). Levarmos uma vida que ele ajudou a moldar não é apenas um modo de nos lembrarmos dele; é como honramos sua memória”.

Ilustração:
Albrecht Dürer: Melancolia

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Algumas considerações

Muito já se discutiu a respeito do que consistiria o ato de escrever, e tanto a quantidade quanto a qualidade dessas opiniões intimidam quem deseja se atrever a acrescentar algo mais a esse verdadeiro legado sobre um legado anterior. Entre tudo que se escreveu, existe a carta de um escritor a um jovem poeta ensinando-nos sobre algo com que, na prática, já nos havíamos defrontado e que diz respeito àquilo que não se produziu por mero capricho, por uma simples vontade distraída de rabiscar algo, mas que teve origem numa necessidade quase visceral, como se o que surgisse em forma de palavras já tivesse vida plena e apenas ansiasse por vir à luz. A despeito disso, ou exatamente em razão do tom imperioso que às vezes caracteriza esse ato, receio ter de concordar, submisso ante tais palavras. Essa noção de algo já preexistente e pleno de vida a querer brotar traz à memória outra ideia: há quem compare a escrita a adentrar uma caverna completamente escura, sem qualquer recurso para iluminar o caminho, e voltar de lá trazendo algo em mãos, obtido através da única arma de que se dispõe: as palavras. Em outras vezes, as frases surgem prontas como que de um outro mundo, revestidas de uma voz que não é a nossa, mas à qual devemos nos submeter e registrar. Para ter paz, não nos resta senão obedecê-la. Percebe-se dessa forma que se trata de um processo no qual não nos cabe muita escolha: não é a nossa opinião que interessa, e sim das vozes que ouvimos.

Existe uma frase bastante conhecida de Liev Tolstoi que gostaria de recordar aqui, por ver nela um desafio maior a ser alcançado um dia, objetivo do qual me encontro extremamente distante: “Não há grandeza quando não há simplicidade”. A própria frase parece sintetizar na forma o que diz em conteúdo: eis a grandeza de um mestre. Em outro contexto, o autor de Anna Karênina nos mostra o que caracteriza sua simplicidade: “Se queres ser universal, começa por pintar tua aldeia”. Ao mesmo tempo em que nos revela humildemente sua grandiosidade, Tolstoi nos aponta nosso próprio lugar no mundo. Mesmo assim, existe um resto de ambição nessa frase que me incomoda: longe estou da presunção de querer ser universal. E, se fosse olhar minha própria história, constataria ter vivido em tantas cidades que, feitas as contas, acabo sendo de lugar nenhum, por mais significativo que seja o fato de ter escolhido Candelária como meu chão, cidade amada, cuja história tanto me encanta e que neste espaço gostaria de recordar. Porém, por lealdade a Schubert, gostaria de fazê-lo como um viandante, aquele que, mesmo vivendo há muitos anos na cidade, sente nitidamente estar apenas de passagem e cuja estadia responde pelo nome do provisório. Não saberia fazer de outra maneira. A isso, soma-se outro aspecto: o resto de fidelidade que tenho para com as outras cidades que me acolheram me levam a amar não somente este município, mas a estender meu apego à terra como elemento, a amada terra, elemento que nos dá vida e que depois nos acolhe maternalmente em seu regaço.
Por obra do acaso ou não, a cidade que hoje conhecemos como Candelária começou com uma simples estrada – a Estrada do Botucaraí. Uma picada, não mais do que isso, uma via de acesso, lugar por onde se precisa passar para chegar a outro. Não o destino em si, mas um caminho. E as avenidas que hoje conhecemos como Pereira Rego e Getúlio Vargas, em outros tempos, não eram mais que um pequeno trecho dessa estrada. Seria certamente um exagero dizer que isso, de algum modo, nos define, mas talvez o fato diga alguma coisa sobre a nossa condição de cidadãos, moradores que somos de uma antiga vereda. Caminhantes? Peregrinos? Ou seria excesso de imaginação? Talvez a simplicidade universal de nossa condição, do parentesco entre terra e palavras e da terra em si esteja na impressão que ela nos traz, mesmo viandantes, de pertencermos a um todo maior e que foge a qualquer tentativa de definição mais exata. Trata-se da famosa sensação de pertencimento, de que muitos se sentem privados. Quanto aos candelarienses, talvez baste vislumbrar os contornos do Botucaraí para que nos tornemos sentimentais a ponto de perceber um pulsar em ritmo diferente do coração. O vínculo com a terra, mais cedo ou mais tarde, se revela sempre soberano, e se ainda acreditamos desconhecer a resposta, o próprio elemento primordial se encarrega de responder ao que em nós é um silencioso e respeitoso reconhecimento de que algumas coisas não somos nós que decidimos.
Em 1907, o compositor austríaco Gustav Mahler, influenciado pela precoce morte da filha, de apenas quatro anos, começou a musicar um ciclo de antigos poemas chineses, criando uma grande obra para solistas e orquestra, intitulada A Canção da Terra. Trata-se de uma das páginas de maior profundidade e de transcendente beleza do repertório erudito. Como que sentindo a proximidade da própria morte e ciente de que a amada terra voltaria a florescer para ele apenas poucas vezes, Mahler deu à última peça o nome de O Adeus. A partitura descreve uma comovente despedida entre dois amigos e a expressão do desejo de voltar à terra natal para ali viver os últimos dias. Os versos finais, significativamente, são do próprio compositor: “Em toda parte, a amada terra floresce e fica novamente verde! Em toda parte, para sempre, os horizontes serão azuis e brilhantes! Para todo o sempre... Em toda parte... Eternamente... Eternamente...”.

Ilustrações
Caspar David Friedrich: O viajante acima de um mar de nuvens, óleo, 1818
Candelária e o Botucaraí: foto de Odete Jochims
Gustav Mahler em 1892

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Leitura: felicidade clandestina ou conquistada?

Entre os diversos tipos de leitores, existe uma espécie que pode ser reconhecida a grandes distâncias. Não se trata daqueles que leem por obrigação, por acaso ou ocasionalmente. Falo daqueles que têm na leitura não um hábito, mas um vício do qual não podem prescindir sem que sua rotina seja com isso não apenas completamente abalada, mas levada à total inviabilidade. São aqueles que fazem da leitura algo como que uma missão de vida, tarefa à qual se dedicarão enquanto restar neles um sopro que seja de vida, não se importando com os reveses às vezes da realidade mais imediata, favorável ou não: nada conseguirá distraí-los de sua missão. Para esse público, não obstante a variedade de gostos ou demais distinções entre as inúmeras possíveis, o livro como objeto pode ser definido por palavras que talvez encontrem eco em cada um, em diferentes graus; trata-se de uma expressão usada num texto sobre Clarice, não lembro agora por quem: promessa de felicidade. No seu conto “Felicidade clandestina”, a personagem é deliberada e impiedosamente submetida a uma indizível tortura antes de ver realizado seu simples desejo de receber um livro em empréstimo. Terminada a espera, a narradora conclui: “Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante”. Interpretações à parte, a frase encerra uma realidade que todo leitor por vocação conhece bem: o crescimento e o amadurecimento na companhia desses objetos tão amados, que na verdade pouco ou nada têm em comum com os demais objetos, tanto da infância quanto da vida adulta: neles estão contidos nada menos que o trabalho – muitas vezes de uma vida inteira - de nossos autores preferidos. Se se fizessem tentativas, perderia-se a conta na impossível tarefa de contar as horas passadas dessa forma, definida por Proust como “dias que tenhamos deixado passar sem vivê-los, aqueles que passamos na companhia de um livro preferido”. É possível que nesses dias “não vividos” estejam algumas das horas que vivemos mais plenamente e de forma mais intensa.
Muitas vezes me interrogo em que consiste essa devoção fiel aos escritores de todas as épocas e lugares. Quanto mais me pergunto, menos seguro fico em relação à resposta. Mesmo assim não me dou por vencido, e, por mais que me veja tentado a reconhecer que a leitura é um verdadeiro mistério, não aceito de bom grado as respostas prontas. E, por mais que eu deteste cair no lugar-comum, esse interrogar incessante me leva a considerar que o desejo de ler é uma dessas pulsões de satisfação momentânea, que se saciam parcialmente e que depois se refazem, renovadas pelo próprio ato diário de as alimentar. Assim como ocorre com as demais pulsões, lemos para sobreviver, ou para tornar a vida possível. Mas a semelhança acaba aí. A nossa necessidade de alimentos é algo previsível; com os livros, existe uma diferença, e esta diz respeito ao grau de insaciabilidade que, com o passar do tempo, se desenvolve em nós. Um livro leva a outro, assim como a resposta a uma dúvida gera outra dúvida, a ser sanada, ou não, conforme o nosso grau de resistência ao que essa voracidade tem de inelutável. Mas dessa sede impossível de ser saciada torno a falar depois.
Já se disse que a leitura exprime uma inconformidade com a nossa realidade, e, através do mergulho nas páginas dos livros, colocamo-nos a procurar um universo que nos convenha mais do que este que temos à nossa volta. Pode ser. Mas, entre os mais diferentes leitores, vejo muitos que nada têm dessa tal inconformidade. Antes pelo contrário: é por amor à vida, às pessoas e ao real que dedicam as horas aos livros, no desejo de saber sempre mais a respeito de tudo – emprego essa palavra com o que ela possui de mais absoluto. É essa busca pelo conhecimento que possibilita ao leitor uma visão panorâmica de todas as eras, mesmo as que já sucumbiram diante do tempo. Entregar-se de corpo e alma a um livro tem isso de inigualável: os segredos, a sabedoria, a suma do pensamento de todos os tempos está ali, acessível, como que numa esfera à parte dentro de nosso mundo, à qual temos livre acesso. Todas as épocas coexistem sem atritos; cessam as guerras e mesmo os povos inimigos depõem as armas para ficarem lado a lado, para sempre pacificados.
Também muito já se repetiu que ler possibilita viver diversas vidas, em vez de apenas uma. E é com a flexibilidade de verdadeiros atores que vivemos, por assim dizer, os mais variados papéis, e não raro com mais intensidade do que aquela com que vivenciamos nossa própria rotina, aquela que ninguém jamais poderá cumprir em nosso lugar. Entrega sem reservas ao que constitui o outro talvez seja uma expressão adequada para definir essa capacidade que temos de vivenciar outras existências, respirar em outras atmosferas com a mesma naturalidade como a que temos quando nos encontramos em nosso próprio elemento. E isso com a tal ânsia insaciável que deixei em suspenso acima, para retomá-la aqui: mais especificamente, o que é mesmo que buscamos nesse deixar-se viver pelos outros? Uma possível resposta está acima, disfarçada, através de uma palavra repleta dos mais variados significados: o absoluto.  “Repleta” talvez não seja a palavra exata; “prenhe” talvez seja melhor, por simbolizar as peripécias futuras por que passaremos em nossa vida de leitores. O filósofo André Comte-Sponville fornece-nos uma bela síntese do que estaria representado pelo absoluto: “uma espécie de salvação, ali onde tudo se funde, ali onde tudo forma apenas um: a eternidade no presente, a vida na morte, o amor na solidão, a serenidade no desespero...”.
A felicidade, para a personagem de Clarice, era clandestina porque veio através de um livro emprestado. Contudo, a satisfação que experimentamos na leitura mesmo de livros alheios constitui um grau elaborado de nossa condição de cidadãos de um mundo sempre em mutação, próprio a seres cuja gênese não acaba jamais e vem a ser interrompida apenas pela nossa morte. Vivemos nos formando, tornando-nos algo que foge à nossa mais acurada capacidade de definição e mesmo de percepção, fundindo-nos a esse eterno absoluto descrito acima. Sim, é verdade que somos mortais e que nossas horas estão contadas; neste mundo sim, é fato que somos clandestinos. Todavia, mesmo assim, não importa o que pertence a quem: a felicidade que alcançamos como leitores é genuinamente nossa, e de mais ninguém – embora, como toda grande felicidade, sempre se deseja compartilhá-la -, tão mais legítima quanto mais nos dedicamos nessa busca incessante de viver tanto experiências nossas como as alheias. Egoísmo, individualismo, opinam alguns. Contudo, como poderia haver egoísmo num desejo que, por ser fusão, transformação, evolução, revela mais amor ao próximo que a nós mesmos? Talvez seja oportuno retomar a frase de Proust, e concluir que as horas que vivemos mais intensamente foram justamente aquelas que vivemos sob outros nomes, em outras esferas, num esquecimento total – e absoluto.  Muitas vezes, precisamos ser outros para sermos mais fiéis a nós mesmos, no que temos de mais característico. E isso é algo que não sei definir, mas que tem relação com outro aspecto que nos distingue dos outros animais: a vocação que temos para jamais nos darmos por satisfeitos, buscando sempre além o que às vezes pode estar adormecido em nós mesmos, à simples espera de ser despertado para ser vivido em seu devido tempo.
Ilustração:
Pierre-Auguste Renoir: A leitora, óleo sobre tela, 1875