terça-feira, 12 de junho de 2012

De esperas e de significados

Nas últimas semanas, escrever tem sido tarefa inglória. Por mais que, com a alma embebida em livros, música e imagens, me coloque diante da escrivaninha na tentativa de dizer qualquer coisa brotada dessas leituras, audições ou contemplações, o fruto de meu esforço se revela sempre por meio de palavras que, numa ânsia exagerada de comunicar algo, tiveram uma morte tímida e prematura, antes que pudessem dizer qualquer coisa no pouco tempo em que estiveram no mundo, ou na tela. E do desaparecimento imprevisto e indesejado dessas frases natimortas, carrego a culpa e a responsabilidade, não de lhes vingar em mim o fim triste, mas de procurar dizer, em outros dias e em melhores condições, que sim, elas existiram, e que, por falha minha, não cumpriram a função para a qual foram criadas. Guardo saudades sobretudo do espaço em branco, das muitas noites em que, sentado neste mesmo lugar, as frases se formavam praticamente sem a minha intervenção, procurando juntar-se as palavras umas às outras, como se já existissem em sua forma final em outro plano, bastando eu postar-me, como agora, à espreita para que elas venham, como nas antigas noites, completar um círculo no qual meu papel parecia ser o de mero coadjuvante. Pois é assim que me vejo nesse exercício de escrever: como alguém que sabe que seu lugar é a parte de baixo de uma hierarquia formada, em ordem decrescente, pelos vocábulos, pelas frases, em seguida pelos parágrafos e, num nível mais abaixo, eu, o escrivão. Sei que parece um tanto místico, mas, a partir de minhas pequenas experiências com a escrita, posso dizer com sinceridade: é assim que funciona. São sempre inúteis quaisquer tentativas de subverter a ordem. Como disse certa vez a um amigo, não somos nós que determinamos a hora de escrever; esse ofício exige que nos vejamos com humildade e que reconheçamos que é a escrita e as palavras que escolhem o momento em que desejam descer de suas alturas. Faz muito tempo que disse isso, mas pouca coisa mudou em relação ao conteúdo.
Pensei por um momento que a diferença entre a noite de hoje e as anteriores estaria no fato de saber previamente o assunto a ser abordado, mas não é verdade. Esse constitui mais um entre os tantos aspectos que não decidimos. Pois na maioria das vezes o tema era algo que eu apenas percebia por volta da terceira ou quarta linha, e depois bastava seguir o fio do raciocínio. Embora isso não seja uma regra, percebo agora que o assunto de hoje é esse mesmo: a ausência de tema, o vazio de significado. Possivelmente nas vezes anteriores também tenha sido essa a direção correta, mas que acabei ignorando. Humano que sou, esqueço às vezes o quanto é absurda essa nossa necessidade de que tudo, inclusive as palavras, faça sentido. Algumas vezes é possível corrigir os erros cometidos; porém, e infelizmente, na maior parte dos casos, é tarde, e lamentar pelos erros também é vão. E, à espera de um tema melhor que a ausência de significado, lembro-me de Vladimir e Estragon na peça de Samuel Beckett, esperando (inutilmente?) por Godot, e percebo através dos diálogos desses dois personagens o quanto é absurda a espera do que quer que seja. Absurda, sim. Não condeno os que pensam sempre que o melhor da vida ainda está por vir, ou os que buscam incessantemente pelo amor ideal; há ainda os que esperam pelo retorno do messias, vendo nos desastres naturais, provocados pela nossa própria espécie em séculos de abusos contra a natureza, sinais inequívocos de que ele está por chegar. Outros, menos precisos, esperam pela felicidade, sem saber dizer, quando interrogados a respeito, no que ela consistiria. Em todo caso, seja o que for, acreditam que a coisa esperada está sempre no futuro. Há dias atrás, numa livraria, vi uma frase num cartão, sem indicação de autor; transcrevo-a aqui: “Não existe caminho para a felicidade. A felicidade é um caminho”. Eis algo em que acredito, e se me fosse dado dizer algo aos que esperam, seja pelo que for, diria simplesmente isso, cuidando de acrescentar, de minha parte, que não esperem viver uma felicidade apenas no futuro, mas que buscassem vivê-la aqui mesmo, nesta vida. Porém, não são poucos os que creem numa espécie de obrigação de sentir-se aflitos, para serem consolados, e assim por diante.
                          
Apesar de absurda, não creio ser inútil a espera de Vladimir e Estragon. Afinal, é preciso viver. Por sua intensidade e por sua beleza, compartilho aqui um trecho da obra: “Será que dormi, enquanto os outros sofriam? Será que durmo agora? Amanhã, quando pensar que estou acordando, o que direi desta jornada? Que esperei Godot com Estragon, meu amigo, neste lugar, até o cair da noite? Que Pozzo passou por aqui, com seu guia, e falou conosco? Sem dúvida. Mas quanta verdade haverá nisto tudo? Ele não saberá de nada. Falará dos golpes que sofreu e lhe darei uma cenoura. (Pausa) Do útero para o túmulo e um parto difícil. Lá do fundo, na terra, o coveiro ajuda, lento, com o fórceps. Dá o tempo justo de envelhecer. O ar fica repleto de nossos gritos. (Escuta) Mas o hábito é uma grande surdina. (Olha para Estragon) Para mim também, alguém olha, dizendo: ele dorme, não sabe direito, está dormindo. (Pausa) Não posso continuar”.
(Uma das muitas razões de eu não me considerar escritor é a dificuldade, ou a quase impossibilidade, de escrever sem recorrer a citações. Não guardo ilusões quanto a conseguir ser coerente; sei de minha incapacidade nesse sentido. Busco apenas ser sincero. Mas sei que isso não basta).
Sei o quanto há de presunçoso em abordar temas como vida e morte, acaso e destino, existência ou não de sentido, e se falo deles é na condição de simples mortal, a quem tais assuntos inquietam, e é tudo que posso dizer. Creio que haja uma maior possibilidade de erros quando o assunto diz respeito a todos. E, a respeito da ausência de significado ou de sentido em calar, falar ou mesmo escrever, talvez um trecho de Lars Svendsen (de quem voltarei a falar em breve neste espaço) seja pertinente: “O significado que buscamos na ausência de significado, a experiência na ausência de experiência e o tempo na ausência de tempo – serão eles meramente ilusões? Uma sensação de perda não garante que qualquer coisa tenha sido realmente perdida, e, portanto, não garante também que haja algo – um tempo, um significado ou uma experiência – que tenha de ser recuperado”.
(Enquanto escrevia este texto – que não sei como classificar – esperava por um e-mail. Mesmo sendo pequena a esperança de recebê-lo, a espera inútil me decepcionou um pouco. Mas ficaria imensamente grato ao meu pequeno círculo de leitores pela licença de dizer apenas mais duas breves frases. São bastante simples, e se resumem a isso: não esperem. Vivam).
Fotografia: Samuel Beckett

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Algumas palavras sobre a ausência e o silêncio


Creio não terem passado despercebidos aos leitores deste blog o tom reticente dos últimos textos e, por fim, o abandono em que agora se encontra este espaço. Justamente por serem poucos, esses leitores não são menos que especiais, preciosos, e me pareceu incorreto deixá-los sem uma palavra de esclarecimento sobre tal silêncio. A eles, espero que as palavras a seguir sirvam ao mesmo tempo para explicar e para agradecer pela atenção.
No último mês, estive em viagem a terras estrangeiras, onde tive a rara oportunidade de visitar lugares históricos e museus, jardins e palácios. Nesse período, aquela característica que Balzac usava para definir a idade de um homem, o entusiasmo, algo que creio sempre ter tido de sobra, foi em mim reavivada, e eu, de volta à minha terra, busquei condições para satisfazer a necessidade quase física de conhecimento. Falo aqui de entusiasmo no sentido grego da palavra: “estar possuído por um deus”, e isso se refere ao interesse vital que nos mantém vinculados à realidade mais imediata, bem como à curiosidade, ou necessidade premente, como disse acima, de buscar sanar a própria ignorância, de uma ou de outra maneira. E então entreguei-me mais do que nunca à literatura, à música, e dos encantos e da felicidade que tais artes, além da filosofia, costumam proporcionar, apenas poucos, muito poucos podem compreender.
Das viagens, leituras e ensaios de música, as lições aprendidas se somaram a outro fator que só pude perceber aos poucos, observando a vida e os costumes ao alcance de meus olhos; algo cuja existência eu nunca ignorei, mas que, em razão de certos contrastes, as circunstâncias me revelaram ser na verdade um grande deserto. Lembrei de uma frase de Einstein que, até pouco tempo atrás, me parecia um tanto presunçosa: a sentença em que ele afirma existirem apenas duas coisas infinitas: o universo e a estupidez humana. Hoje percebo que a presunção estava em mim, por pensar que talvez o grande físico houvesse exagerado. (E hoje me questiono acerca da natureza da estupidez. Interrogo-me, por exemplo, se se trata de algo de nascença, de estado gerado por falta de oportunidades ou se simplesmente é opção de vida). E, ao mesmo tempo em que me admirava diante da magnitude de algumas das grandes criações do gênio humano, sob outro aspecto inquietava-me com o que alguém, muito apropriadamente, chamou de “deserto de almas”; um deserto que teve sobre mim um efeito muito maior do que as exceções, que, felizmente, não são poucas. Diante disso, optei pelo silêncio, mesmo porque não havia outra escolha.
Não é segredo para ninguém que a vida muitas vezes nos reserva circunstâncias que nos levam a calar. Para quem está habituado a fazer da escrita uma das razões de viver, o silêncio, em tais momentos, é duplo: ao mesmo tempo em que nós mesmos, por questões racionais, optamos por nada dizer, a voz que literalmente nos obriga a enfrentar quase todo dia o espaço em branco, outrora plena de ardor, parece por sua vez ausentar-se, como se nunca tivesse existido. Por experiência própria, sei que esses bloqueios são temporários e que acontecem de tempos em tempos. Talvez seja mera impressão, mas me parece que tais períodos sempre contribuem para um aprimoramento, mesmo que ínfimo ou imperceptível em seu resultado final: as palavras.
Não foram poucas as tentativas de romper esse silêncio. Todavia, tudo que busquei escrever trazia a marca da distração, da ausência, de quem não está realmente presente naquilo que redige. Tenho para mim que os meus poucos leitores merecem algo muito melhor. E quando o nível dos textos está aquém dos meus próprios níveis de exigência, o mais adequado mesmo é prolongar o silêncio. É necessário ressaltar que, ao menos na minha concepção, isso não significa inatividade. Antes pelo contrário: quer dizer estudo, leituras, aprofundamento, esforço. Isso sem falar na busca incessante pelo aperfeiçoamento, que possivelmente não passa de uma quimera. Porém, é sabido que todos precisamos de um pouco de ficção; e, por outro lado, ao menos o desejo de melhorar, se insatisfeito, não nos traz prejuízo algum.
Dado o caráter limitado de todas as nossas experiências, tudo, para o bem ou para o mal, tem um fim. E, como em certos antídotos produzidos a partir da própria substância que lhe é antagônica, creio ter encontrado as primeiras palavras deste texto na própria inexistência de qualquer sinal que prenunciasse algo parecido a um pensamento mais digno de ser partilhado, e que me levou a buscar alento na negação. É de Cioran a seguinte frase: “Tudo pode ser sufocado no homem, salvo a necessidade do Absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos, assim como ao desaparecimento da religião sobre a terra”. Qualquer que seja o nome desse Absoluto, muitas vezes ele é tudo que nos resta – o que não significa pouco. A aceitação desse fato pode se dar por diferentes vias, algumas dolorosas, outras extasiantes, e, algumas vezes, simplesmente banais, como as coisas mais triviais do cotidiano.
Ignoro se as linhas acima cumpriram o objetivo de explicar as razões do silêncio. Tampouco sei dizer se o presente texto é o fim de um bloqueio, se é um recomeço ou uma retomada do ponto onde parei. Talvez o mais adequado seja vê-lo como um novo ponto de partida; daqueles pontos dos quais saímos cientes da inexistência de linha de chegada mais específica, nos quais nos movemos sem saber se percorremos um espaço horizontal, vertical ou circular. Em todo caso, seja ele o que for – um ponto luminoso entre um silêncio e outro -, não esqueçamos do essencial: lembrar que, seja qual for a natureza de nosso pensamento, jamais conseguiremos nos distanciar muito  da dúvida, causa de tantos mistérios – os quais, por sua vez, talvez sejam a origem maior do fascínio de tanta coisa que está sempre ali, ao nosso redor. E que às vezes pedem apenas um simples olhar.
Por enquanto, era isso o que eu tinha a dizer. Peço aos que me leem perdão pelo tom confessional, mas em alguns momentos ele se torna necessário. Agradeço pela compreensão e, de resto, até breve.

Caspar David Friedrich: Viandante sobre mar de nevoeiro, 1818

sábado, 5 de maio de 2012

Das escolhas que fazemos - digressões

No momento de iniciar este texto, deparo-me com vários inícios possíveis. Sei porém que, entre essas possibilidades, apenas uma é a correta: como num jogo. Caso eu escolha a via errada, o futuro mais provável destas linhas é o esquecimento, destino frequente de muitos outros começos que, a despeito de terem parecido em princípio as palavras certas, não conduziram a coisa alguma além do vazio da obviedade. Desde muito tempo – talvez desde uma infância precocemente consciente de algumas coisas - convivo com essa necessidade incontornável, ou responsabilidade, de fazer as escolhas certas, na verdade desde muito antes que o escrever passou a fazer parte de minha rotina – ou seja, desde outros inícios, esses mais prementes e sem muitas possibilidades de escolha. Todavia, apenas hoje me ocorreu mencionar esse detalhe dos bastidores porque, casualmente ou não, ele vem ao encontro do meu tema de hoje: uma sensação estranha, muito difícil de definir, que algumas vezes acompanha a forma como atendemos aos chamados da vida, e a própria possibilidade de escolhermos entre atender ou não a esses chamados. A vida entre as palavras e as letras, com talento ou não, é uma existência à qual só podemos nos entregar por amor ao ofício, e, ao contrário do que muitos pensam, ela nos reserva, além de eventuais dificuldades, surpresas não raro fascinantes, que nos surgem das mais diversas formas, e que, além de serem momentos de uma enorme felicidade, nos dizem como que distraidamente, antes de voltarem ao mundo do esquecimento, de onde saíram por uma questão de poucos momentos, que sim, tomamos a decisão certa. Saber se o resultado é bom ou não torna-se questão secundária. Essas surpresas podem vir na forma de uma ideia à qual procuramos em vão, por dias sucessivos, uma maneira de revestir com as palavras mais adequadas, não encontrando, todavia, a despeito dos esforços nesse sentido, uma forma que satisfaça ao nosso senso de exigência; até que chega o momento, depois de já termos desistido tanto da busca como da ideia, em que ela nos surge por um desses dois caminhos: ou de uma consciência repentina, um lampejo de poucos segundos num dos momentos mais comuns do nosso cotidiano, ou ainda reproduzida da forma mais simples possível, através das palavras de um grande escritor. (A simplicidade, a ausência de esforço, a concisão, são essas as eternas marcas que revelam o abismo entre os grandes escritores e nós, simples e mortais, embora constantes, amontoadores de palavras. “Que ninguém se engane”, escreveu Clarice, a inesquecível, em A hora da estrela: “só se consegue a simplicidade através de muito trabalho”.
Um desses pensamentos a que busquei em vão dar forma, na verdade apenas uma noção vaga, não obstante revestida de certa perplexidade, surgiu, certo dia, em algumas linhas de Jens Peter Jacobsen (escritor dinamarquês que, assim como Ibsen e Strindberg, me parece sempre subestimado e, infelizmente, assim como estes, muito pouco lido). Com palavras na aparência quase banais, escreveu ele que existem pessoas que vivem como se viver fosse a coisa mais natural do mundo. Trata-se de uma afirmação simples, mas que ao mesmo tempo me enche de espanto, especialmente porque se trata de uma verdade que pode ser constatada facilmente dia após dia, observando e comparando a nossa vida com a de outros viventes. Para muitos, viver é coisa que se faz com uma destreza toda peculiar, uma naturalidade intrínseca, que me leva a concluir que tal leveza é coisa para poucos eleitos, além de nos incutir a semente da dúvida: o que precisamos fazer para atingir tal estado de intangibilidade, de despreocupação daqueles cujo lema parece ser aquele antigo clichê segundo o qual “a vida é muito simples; nós é que a complicamos”? Quanto mais me interrogo, parece-me, mais distante me encontro de uma resposta que, começo a desconfiar, simplesmente não existe, embora em nada me agrade a ideia de render-me ao simplismo de certas ideias (“as coisas são como são”, entre outras). E não posso deixar de comparar o modo como tais seres conduzem suas vidas com a sucessão de afazeres, entre lazer e trabalho, além de outras atividades, que compõem a minha rotina. Parte dessas tarefas são ditadas pelas leis mais imediatas da vida, como o trabalho e tudo a ele relacionado. Contudo, como se trabalha tendo em vista a qualidade das horas ociosas, outras atividades vão se somando, sobrepondo-se umas às outras, gradualmente, entre convites de que não se pode declinar, além de encargos que aceitamos sem hesitar, tendo em vista, entre outros fatores, nossos princípios éticos mais elementares. Isso sem esquecer que a vida tem também seu lado estético. E assim acabamos nos comprometendo com a música, em ensaios para apresentações, ou com a escrita de roteiros para espetáculos. Enquanto procuramos nos desincumbir desses compromissos, os livros encomendados, sempre em quantidade maior em comparação aos poucos a que realmente podemos nos dedicar, continuam chegando, em caixas que já vêm se avolumando, empoeiradas, há anos nas estantes, onde permanecem à espera dos momentos, a cada dia mais breves, em que podemos nos dedicar a eles com toda a atenção e o cuidado que seus autores merecem. Tão vital quanto a leitura, há a necessidade quase física de escrever. Soma-se a isso o pacote da viagem com que tanto sonhamos, que pagamos com certo sacrifício e que, quando se aproxima, a despeito de ter sido planejada com meses de antecedência, parece vir em momento impróprio: como poderemos nos ausentar por tantos dias, deixando todo o resto em suspenso? E é nesse estado de total imersão nas obrigações e dúvidas sem possibilidade de resposta que surgem lembranças que talvez não passem de uma impressão errônea que o transcorrer do tempo muitas vezes confere ao passado: uma aparência de tranquilidade de dias em que nada havia de urgência ou de pressa que fosse. Um tempo que talvez nem sequer tenha existido, mas cuja lembrança, talvez não mais que um equívoco, nos traz a ideia de um fluir constante, calmo e, mais do que tudo, em estado de paz absoluta.
Ignoro se existem amálgamas perfeitos; embora se produzam em um processo natural, ao menos na aparência, existem conjunções, encontros de circunstâncias e de elementos, que me remetem mais uma vez a conceitos em que me detive não faz muito, a saber, de identidade. Na verdade, este talvez integre o vasto espectro dos assuntos que, quanto mais pensamos a respeito, mais nos afastamos da verdade – que talvez seja algo muito mais simples do que inicialmente suspeitamos. Entretanto, há uma interrogação que, por mais difícil que seja encontrar as palavras, não posso deixar de ao menos tentar verbalizar. No caso, a dúvida vai um pouco além da definição segundo a qual somos o que fazemos. Pergunto-me se acaso não se confere importância exagerada ao resultado de nossos esforços, em detrimento das circunstâncias que nos permitiram a realização do que nos propusemos fazer, somadas a algo inescapável: que o tempo que levamos na consecução das tarefas, na defesa de ideais, na realização de sonhos, constitui um elemento, esse sim, vital de nossa personalidade, uma vez que a escolha de como vivê-lo foi, casual ou não, deliberação exclusivamente nossa. Talvez em vários aspectos, não passemos disso: um tempo determinado que, somado, é nossa existência e, ao mesmo tempo, parte essencial de nós mesmos. Trata-se de uma noção que, ao mesmo tempo em que parece estranha, sugere também obviedade, e até uma grande dose de ingenuidade, e que talvez não passe de uma intepretação equivocada dos dias e das palavras do já citado Jacobsen, que se refere à existência do indivíduo como “aquela contínua caça de si mesmo, espiando astutamente as próprias pegadas (...) num eterno andar em círculo; aquele aparente mergulho no rio da vida, mantendo-se no entanto sentado, lançando o anzol à espera de pescar a si mesmo sob sabe-se lá qual estranho disfarce”. Assim como o tempo é fugaz e a vida, intangível, a noção de si mesmo é incerta e fugidia.  E o Eu, além de tudo, uma ilusão. Uma ilusão a cuja construção e manutenção nos dedicamos cada dia de nossa vida. Tal como os amálgamas perfeitos, pergunto-me se existem interpretações errôneas: é Ricardo Piglia quem defende os maus leitores, e, nesse caso, sou fruto acidental da busca por sanar minha própria ignorância. Por falar nisso, o conjunto das linhas acima me leva a crer que, na escolha entre os começos possíveis, um erro conduziu ao outro. Para encerrar esse ciclo de vias tortas, concluo aqui estas palavras, com a plena consciência de um aumento considerável na minha já significativa quantidade de questões não respondidas. E esperar que o tempo traga alguma resposta seria confiar demais, não no tempo, que de nada tem culpa, mas sim em mim mesmo, em vez de crer, isso sim, na incapacidade nossa de viver com alguma certeza, uma ao menos que seja.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

À arte - uma tentativa de dedicatória


Diz um filósofo que “é no diálogo com a dor que muitas coisas belas adquirem seu valor”. Creio na verdade dessa afirmação: se a beleza tem a capacidade de nos comover, em grande parte é por sabermos que ela é a exceção, e não a regra. Todavia, isso não quer dizer que os apreciadores da beleza em suas manifestações artísticas sejam sofredores por vocação. Antes pelo contrário: saber apreciar o belo, acredito, tem sua origem antes de mais nada em saber viver, em fazer da busca do conhecimento e da melhoria – do que quer que seja - um ideal constante. A apreciação da beleza também possui a rara capacidade de despertar em nós algo que sabidamente é uma de nossas características mais essenciais como seres humanos: a consciência da transitoriedade de tudo que nos cerca, sem esquecer que esse estar de passagem diz respeito também a nós, além da noção de que a única certeza é a da impermanência. Talvez seja essa uma das razões que nos levam, quando diante de certas formas mais específicas de arte, além dos êxtases de intensidade variada, a sentir um certo grau de tristeza, podendo chegar, dependendo do grau de nossa entrega, a algo não muito longe de um breve, mas significativo desespero. Desespero, sim – não existe outra palavra para essa sensação inconsolável de que aquilo que em dado momento nos encanta em breve não passará de erva fenecida, seca, como perecíveis folhas de outono a sucederem-se no curso incessante das estações.

Existe um pensamento que expressa com perfeição a grandeza e ao mesmo tempo a miséria da humanidade: “O homem é um deus quando sonha e não passa de um mendigo quando pensa”. Não sei em que contexto Hölderlin pronunciou essa sentença, mas não creio que exista outra frase capaz de sintetizar tão bem a conclusão a que chegamos quando diante de uma espécie de arte mais tradicional: a pintura de paisagens. Não me refiro aqui a qualquer estilo, mas sim a um exemplo específico: o rigor formal das pinturas a óleo da artista plástica Kelva Lucia Gorgone Novaes – que, através da obra “Cores de Outono 6”, passa a partir de hoje a ilustrar este espaço. Um simples exame de seus trabalhos torna dispensável a necessidade de uma apresentação mais formal. Mesmo porque não é necessário um olhar muito detido sobre suas obras para descobrir as razões que levaram Kelva a figurar no panteão dos mais conceituados e premiados artistas plásticos brasileiros: através de tons ora sóbrios, ora em pulsações de cores mais vivas, essa artista, radicada em Paraíso, São Paulo, soube criar com êxito um estilo extremamente característico, que reproduz com precisão uma espécie de arte que julgávamos não apenas extinta, mas também quase esquecida, e que, através de uma habilidade peculiar das mãos da pintora, se revela não só atual, mas também mais necessária do que nunca. Necessária para nos lembrar de um fato na verdade bastante simples: que, embora hoje se privilegiem tanto os estilos mais modernos, o clássico, a despeito de tudo e de todos, é eterno. Creio que seja consensual o fato de que, de certa maneira, toda arte é uma forma de resistência, algumas mais, outras menos. A resistência de Kelva Novaes se dá em relação ao fugaz, ao transitório. Isso posto em primeira instância, embora por si já não seja pouco, podemos dizer que suas obras são também muito mais do que isso: por meio dessas paisagens e naturezas mortas, temos o privilégio de ver reproduzidas atmosferas de sonho, cuja maior característica percebemos de maneira inesperada - justamente no momento em que delas desviamos o olhar, instante em que, ao termos diante de nossos olhos uma realidade nem sempre condizente com o devaneio, percebemos a verdade tão bem expressa na frase de Hölderlin. Sim, é claro que a arte existe para nos despertar para as mais diversas realidades. Mas também é verdadeiro que o primado da imaginação tem o objetivo, não menos nobre, de nos conduzir a estados que fogem aos domínios do sono e da vigília: o encantamento, o cenário de nossos sonhos e doces promessas de felicidade em paraísos ainda possíveis, que, conforme quero crer, jamais serão perdidos. Concordo que talvez eu tenha uma visão romântica demais da arte. Contudo, se existem limites para as possibilidades de experiência com a literatura, a música ou a pintura, ainda não os encontrei. Sei que me arrisco, mas diria um pouco mais: acredito que seja justamente através dessas experiências que, a partir do contato com as mais variadas representações da beleza, ultrapassamos nossos próprios limites. Se com isso não nos tornamos pessoas melhores, ao menos é fato que, a partir de nossas vivências com as mais diversas formas de arte, passamos a conviver em maior harmonia com o mundo à nossa volta e, por que não dizer, com maior conhecimento a respeito de nós mesmos, importante passo para todo processo de aprendizado.
Entre as várias centenas de canções compostas por Franz Schubert em sua breve existência, é difícil saber, entre tantas, quais seriam as prediletas dos intérpretes, bem como as mais inspiradas. São numerosas as coletâneas contendo, às vezes de forma exaustiva, aquelas consideradas, acima de qualquer discussão, suas obras-primas para piano e voz. Contudo, a presença quase constante, nessas antologias, de um lied de tocante simplicidade parece conduzir silenciosamente a questão das preferências a uma espécie de consenso. Trata-se de An die Musik (Á Música), composta por Schubert em 1817, quando contava 20 anos. Tendo por base versos de uma simplicidade quase ingênua, que dificilmente teriam sobrevivido sem a partitura, a peça não entrou para a história da música apenas como a profissão de fé do compositor, mas de todos os  cantores que se dedicaram a ela nestes quase duzentos anos. Em seus breves dois minutos e meio, An die Musik, embora tenha vindo ao mundo como um despretensioso exercício musical de um dos maiores compositores de que se tem notícia, acabou se convertendo em um agradecimento à arte dos sons e, indo um pouco além, à Arte em si. Neste poema, escrito por Franz von Schober, o sujeito lírico se dirige à própria arte, dizendo das tantas horas penosas em que a vida se revela um universo hostil (eis o “diálogo com a dor” evocado pelo filósofo), sendo as circunstâncias mais difíceis convertidas pela arte em um mundo infinitamente mais rico. A segunda estrofe, de estrutura semelhante, contém, em palavras mais diretas, uma declaração simples, mas de cuja sinceridade ninguém ousaria duvidar, tendo-se em vista dois testemunhos eloquentes: a experiência própria de cada um e o apaixonado arroubo expresso na melodia do lied mencionado: “Um doce, sagrado acorde de tua harpa me abriu os céus e me possibilitou a felicidade de uma vida melhor. Por isso, a ti, nobre arte, faço agora meu agradecimento”.
Quem canta tem o privilégio de fazer suas essas palavras. Eu, porém, que não tenho voz, limito-me a transcrever o básico desses versos, e, privado dessa nobre melodia, ouso acrescentar, em um breve sussurro, à música, à pintura, à literatura, no meu português mais simples e em palavras por completo desprovidas de harmonia, meu improvisado agradecimento. Ontem, hoje e sempre.
 Pinturas: Kelva Lucia Gorgone Novaes
 Franz Schubert, desenho de Moritz von Schwind


segunda-feira, 26 de março de 2012

Kathleen Ferrier e a pungente arte da transcendência

Ao iniciar um texto, acontece-me às vezes de ter apenas uma noção vaga do que virá após a primeira frase. Embora seja certo que o assunto já esteja escolhido, muitas vezes é difícil prever as vias que o tema irá trilhar. Longe de ser um problema, essa característica da escrita é o que a torna ainda mais fascinante aos meus olhos, mesmo que os resultados quase sempre deixem a desejar. Hoje, além dos pré-requisitos mais habituais, como o recolhimento e o silêncio, ocorre algo que também não constitui novidade, mas que traz um receio, ou, na verdade, um senso da justa medida das coisas: a consciência de que a minha capacidade de expressão está muito aquém do tema proposto, além de saber da quase inexistência de leitores que, por mais que eu me esforce na escolha de adjetivos e em descrições, compreenderão o que tenciono transmitir. Creio que não entenderão porque, apesar de existirem parâmetros fixos de qualidades que permitem a atribuição de juízos de valor, não é novidade que o sentimento que temos diante de qualquer coisa que seja, sendo algo relacionado à arte ou não, feitas as contas, não passa na realidade de mera subjetividade, ainda mais quando se trata da característica mais particular que uma pessoa pode ter, muito mais eloquente que impressões digitais: a voz, e, no caso em questão, uma certa voz.
É bastante conhecido o modo como Michelangelo definia seu ofício de escultor: tendo diante de si um bloco de mármore, sua arte consistiria em remover tudo que não fazia parte da forma desejada. Creio que com a voz humana, tida como o mais sensível entre os instrumentos musicais, o processo seja semelhante. Tem-se como ponto de partida uma matéria-prima em estado bruto e se dá início a um trabalho através do qual toda impureza é retirada, até que, depois de um longo processo de lapidação, reste somente a voz, límpida, pura e – o que a torna tão preciosa – única no mundo. É em razão do conhecimento, mesmo que vago, dos esforços e da dedicação necessários para esse processo que me encho de assombro e da mais completa perplexidade diante da voz da contralto inglesa Kathleen Ferrier.

Sempre quis escrever algo sobre essa intérprete única de Mahler – sobretudo de Mahler -, Brahms, Schubert, entre outros, mas a simples audição de suas gravações era um constante desestímulo. Por essa razão, deixei seus discos de lado por algum tempo. Mas não sei até que ponto o distanciamento de alguns dias, semanas ou mesmo meses ajuda quando nos sentimos tão intimamente ligados a personalidades que, a despeito de já não viverem no momento em que nascemos, em muitos casos são para nós tão conhecidos quanto alguns de nossos amigos. Por fazerem parte de nosso dia a dia, esse laço, como tantos outros vínculos, algumas vezes, dependendo da intensidade de nosso apego, é algo quase visceral. Esse é meu caso em relação a Kathleen Ferrier e a sua arte: muito mais do que simples admiração, é uma espécie de fervor. A perplexidade a que me referi acima pode ser explicada pelo fato de perceber que a característica que mais se evidencia em seu timbre é sua rara naturalidade, algo muito espontâneo. Em outras palavras, observa-se que seu registro grave não é o resultado de anos de dedicação em conservatório, mas algo muito particular, apenas seu. Os próprios professores a quem ela recorreu reconheceram que seu trabalho se resumiu a ensaiar seu repertório e a afinar sua voz, que, desde o primeiro dia, estava já toda ali. Some-se a isso a grande raridade do registro de contralto; na maior parte das vezes, o repertório para essa voz é cantado por mezzo-sopranos concentradas nos graves.
Toda a intensidade e a raríssima beleza da voz, além da extrema sinceridade das interpretações de Ferrier, podem ser verificadas numa discografia que muitas vezes lamentamos não ser maior: infelizmente, sua carreira não durou mais que dez anos, uma década verdadeiramente radiosa – o que, por outro lado, contribui em muito para tornar tais gravações ainda mais preciosas. Do seu catálogo, além de obras de Mahler, é digna de nota a gravação, feita em dezembro de 1947, da Rapsódia para Contralto, coro masculino e orquestra, op. 53, escrita por Brahms com base em texto de Goethe. Na interpretação dessa obra, a contralto inglesa imprimiu à peça o tom de resignada contenção que marcaria a maior parte dos registros posteriores dessa obra. Três anos depois, foi a vez das Quatro canções sérias, op. 121, também de Brahms, nas quais o estado de espírito, de grave austeridade, forma um verdadeiro teste de autenticidade para qualquer intérprete.
Autenticidade, aliada à mais completa entrega que se possa imaginar, talvez seja a palavra-chave para definir aquela que seria a gravação mais famosa de Kathleen Ferrier, realizada em 1952, e que entraria para a história da música como um dos clássicos do disco: A canção da terra, de Gustav Mahler, regida por seu discípulo Bruno Walter. O compositor começou a musicar partes desse ciclo de poemas chineses em 1907, pouco depois da morte de sua filha mais velha, de apenas quatro anos. Pouco depois desse acontecimento, outro golpe aguardava Mahler: o diagnóstico, por um especialista, das condições precárias de seu próprio coração. Pode-se imaginar, a partir dessas informações básicas, o significado e a força dessa obra. Dizer que se trata de um verdadeiro testamento musical é dizer pouco. Muito mais do que isso, o ciclo forma uma expressão da filosofia do compositor, baseada em um sentimento de amor à vida, à natureza e à terra, de cujos benefícios podemos desfrutar por um breve período para logo depois partir, enquanto esta se renova ano após ano, eternamente. A parte final, Der Abschied, isto é, O adeus, é uma síntese tocante e de rara intensidade dessa realidade. Segundo o crítico Michael Kennedy, “é praticamente impossível ouvir-se esta gravação sem levar em conta as circunstâncias pessoais dos artistas envolvidos – Walter, o amigo do compositor, e Ferrier, que soube, enquanto fazia a gravação, que o Abschied seria seu próprio adeus e que a terra bem-amada só voltaria a florir para ela mais uma vez. Como Mahler, ela respondeu ao desafio da sentença de morte (por câncer, em 1953) atingindo o pináculo de sua arte. Sim, é verdade que seu Sol agudo sente um pouco o esforço, mas o fulgor, a vibração e a compaixão transcendental de seu canto aqui o colocam acima de qualquer crítica mais negativa”.

Enquanto escrevia esse texto, soube que o próximo dia 22 será o centenário de nascimento de Kathleen Ferrier. Para ser sincero, devo confessar que soube da proximidade desse centenário apenas por acaso, ao procurar por fotografias para ilustrar este texto: ou seja, não passa de uma feliz coincidência. Talvez eu esteja equivocado, mas penso que essas datas têm sua importância, sim, mas apenas para nos lembrar que grandes personalidades das artes e da filosofia são, antes de tudo, pessoas como nós. De resto, não dou muita importância, isso por pensar que certos artistas, em virtude de sua grandeza, depois de deixarem este mundo, passam a habitar outra esfera. Não gostaria de chamá-la de eternidade; mas creio que, de certa forma, constitui uma espécie muito particular  de imortalidade, reservada a poucos. E reverenciar esses artistas, bem como sua arte, é, como já disse, uma questão de fervor, sentimento que independe por completo de datas.

Kathleen Ferrier, fotografia de Houston Rogers
Gustav Mahler, retrato de Michael Dudash

quinta-feira, 15 de março de 2012

Quantos somos, afinal, e o que enxergamos – Breve reflexão sobre Pirandello, Ofélia e Nietzsche

O ato de escrever, em alguns casos - e forçando um pouco a analogia -, pode ser comparado a uma tentativa de olhar-se no espelho com a finalidade de aproximar-nos um pouco do que somos e do que pensamos, diminuindo, através das respostas que surgem aos poucos, as vastas extensões de fatos que permanecem sempre no universo do desconhecido. É óbvio que a compreensão da maior parte das questões teima em ficar sempre muito além de nosso sempre limitado alcance, e se é por acaso o fato de que essas constituem para nós as dúvidas de mais premente necessidade de esclarecimento, é coisa que ignoro. Hoje o desafio do espaço em branco é duas vezes maior: além da obrigação moral de preenchê-lo com algo que valha um pouco mais que a alvura imaculada, há a tentativa de encontrar soluções possíveis para algo que pertence a esse campo mencionado acima: o do desconhecimento, sobre o qual me detenho mesmo sabendo da pouca possibilidade de encontrar algo além da incerteza - essa sim, constante. Contudo, ciente da pequena possibilidade de sucesso quanto aos resultados, ficarei muito satisfeito se encontrar, através dessa divagação, um pouco de paz em relação a algo indefinível, sem nome e que talvez exista em nós com o propósito único de nos levar à reflexão, como inimigo eterno da aparente quietude das respostas definitivamente esclarecedoras.
Quando o assunto em pauta é nossa identidade, o pensamento muitas vezes cede espaço ao senso comum. Sabemos que se trata de algo que vamos construindo ao longo dos dias que compõem nossa vida e que, em função de sucessivas experiências, diálogos, leituras, decisões, tomadas de postura etc., está sempre sofrendo alterações e acréscimos. É um processo que só encontra interrupção no final da jornada, e mesmo assim seremos surpreendidos entre uma posição e outra, como que em fuga, talvez no auge desse fenômeno que é a nossa formação. Fiz referência acima ao espelho, objeto cuja fidelidade em relação à realidade é tida como inquestionável. Contudo, creio que esquecemos com mais frequência do que deveríamos que, quando nos miramos na superfície aquosa, nós o fazemos com nossa visão subjetiva: a imagem que vemos refletida depende em tudo da nossa própria lucidez e lealdade em relação a nós mesmos. Lembrando Hume, talvez muito mais coisas, e não apenas a beleza, estejam na mente de quem contempla, e deformações ou aperfeiçoamentos surgem a partir desse fato. Em todo caso, não é diante do espelho, esse símbolo da vaidade humana, que nos deparamos com as maiores surpresas, ou mesmo alguns eventuais sustos. Eles podem vir tanto de um comentário banal a nosso respeito como da percepção básica de que a nossa visão de nós mesmos raramente coincide com a imagem que os outros têm de nós. Quando confrontadas, essas duas, três, quatro... (ad infinitum) identidades distintas atribuídas a nós mesmos nos lançam uma silenciosa interrogação: qual delas é a mais próxima da verdade? Quando vivemos rodeados de muitas pessoas, podemos perguntar, sem a mínima esperança de encontrar alguma resposta, de quantas identidades, afinal, somos constituídos.
Pela presteza em nos oferecer fórmulas prontas, a realidade à nossa volta, talvez pelo excesso de informações, mais confunde que esclarece, pois, a julgar pelo que ouvimos, somos o que fazemos – principalmente num mundo materialista -, somos o que pensamos, o que comemos, o que deixamos de fazer – as escolhas -, e assim por diante. Se não me engano, o slogan da Livraria Cultura nos indica um caminho de concisão no mínimo surpreendente: “Ler para ser”. Quanto a mim, sinceramente não sei, pois estou entre aqueles que, ao buscarem respostas, encontraram tantas vias, algumas delas tão discrepantes entre si, que tudo que encontrei não passa afinal de fragmentos dispersos. Como sempre em caso de dúvida, recorro à literatura. Ao pensar nessa via de elucidação, meu contentamento me diz que sou antes de tudo um leitor. Todo o resto – que, para todos os efeitos, não é muito – veio e vem depois. Tal como Borges, sinto orgulho mais pelos livros lidos do que satisfação pelos resultados duvidosos dessa constante tentativa de encontrar alguma clareza, que é o juntar palavras não para compor outra realidade, mas como forma de interpretar e compreender essa que me cerca.
Um dos aspectos que mais me fascinam na literatura é o fato de as maiores verdades muitas vezes surgirem da fala de personagens loucos – ou que se fazem passar por tais. Acima de todos, estão Hamlet, Dom Quixote e o Rei Lear. É em Hamlet que, através do desvario de Ofélia, entre murmúrios de uma pungência extrema e dos quais apenas a melancolia lembra a fala dos privados da razão, lemos a seguinte frase: “Sabemos o que somos, mas não o que possamos ser. Deus vos abençoe”. Um dos contos mais instigantes de Tchekhov é “Enfermaria número 6”, no qual os dois únicos personagens possuidores de algo semelhante à lucidez se encontram, ao final da narrativa, internados num manicômio. Mas é Luigi Pirandello, através do seu romance Um, nenhum e cem mil, que me oferece um exemplo mais próximo do tema da diversidade de visões da identidade de uma única pessoa. As situações descritas na obra, segundo Alfredo Bosi, em seu prefácio, “levam ao paroxismo a consciência de um desajuste entre a vida subjetiva da personagem e a fôrma social, a persona que a represa de todos os lados”.
O romance mais complexo de Pirandello, escrito entre os anos de 1916 e 1926, tem um início quase banal: ao descobrir, por um comentário de sua esposa, que seu nariz pende para a direita, Vitangelo Moscarda ingressa numa cadeia de especulações metafísicas a respeito de sua própria identidade: “Quem será esse homem que mal conhece suas feições? Como o veem as pessoas mais próximas? O que restará dele uma vez subtraída sua imagem pública?”. Essas indagações acabam se revelando uma teia em que o personagem se perde de maneira inelutável, até a desintegração, estado que, por sua vez, o aproxima de uma verdade que não pode ser suportada, seja por ele, seja por seus semelhantes. É no prefácio de Bosi que encontramos o contexto desses acontecimentos: “(...) a máquina social exige, para manter-se em pé e reproduzir-se, uma engrenagem constante, um sistema de normas de comportamento dotado de um mínimo e, às vezes, de um máximo de coerência de expectativas; numa palavra, a sociedade requer uma forma. A forma enfeixa tanto as aparências físicas de um ser humano quanto as suas marcas sociais: o nome, a nacionalidade, a classe, o estado civil”. Segundo o crítico, os grandes romancistas do século XX inverteram essa perspectiva, olhando para dentro daquele sujeito que o naturalismo preferia descrever como um objeto.
A partir da simples constatação a respeito de seu nariz, tem início a via-crúcis de Moscarda, cujas reflexões formam o cerne desta verdadeira saga de Pirandello em direção à desintegração e, ao mesmo tempo e de maneira paradoxal, à clareza. Faz parte dessa trajetória o seguinte pensamento: “Houvesse fora de nós, externa a vocês e a mim, uma senhora realidade minha e uma senhora realidade sua, digo, em si mesma, igual e imutável! Mas não há. Há em mim e para mim, uma realidade minha, aquela que me dou; e uma realidade sua e de vocês, para vocês, aquela que vocês se dão – as quais nunca serão as mesmas, nem para vocês, nem para mim”.
Existe em Proust uma passagem que talvez lance alguma luz na causa do dilema do personagem de Pirandello, ao mesmo tempo em que evidencia a inutilidade de qualquer reflexão nesse sentido, incluindo esta que esboço: “(...) nossa personalidade social é uma criação do pensamento alheio. Até o ato tão simples a que chamamos ‘ver uma pessoa conhecida’ é em parte um ato intelectual. Enchemos a aparência física do ser que estamos vendo com todas as noções que temos a seu respeito; e que, para o aspecto total que dele nos representamos, certamente contribuem essas noções com a maior parte. Acabam elas por arredondar tão perfeitamente as faces, por seguir com tão perfeita aderência a linha do nariz, vêm de tal modo nuançar a sonoridade da voz, como se esta não fosse mais que um transparente invólucro, que, a cada vez que vemos aquele rosto e ouvimos aquela voz, são essas noções que olhamos e escutamos”. Pergunto a mim mesmo se me equivoco ao concluir, através dos pensamentos do personagem de Pirandello, que é justamente no sanatório que ele atinge uma espécie de iluminação, e se seria correto inferir que todo calvário conduz a uma libertação. Essas possibilidades me são sugeridas pelo seguinte trecho, perto do final de Um, nenhum e cem mil: “O ar é novo. E tudo é o que é, segundo a segundo, iluminado de vida. Desvio de repente os olhos para não ver cada coisa se fixar na sua aparência e morrer. Só assim consigo me manter vivo, renascendo a cada segundo e impedindo que o pensamento se ponha de novo a trabalhar, reabrindo por dentro o vazio de suas vãs construções”.
Vem-me à mente mais uma vez a doce Ofélia, que passa por uma dupla purificação, a da loucura e a da água em que se afoga. E me interrogo o que teria essa personagem de Shakespeare a dizer caso fosse confrontada com a conhecida frase de Nietzsche, “Torna-te quem tu és”. Questiono-me também se seria correto concluir que tanto a filha de Polônio quanto o filósofo alemão levaram sua essência humana ao grau último de purificação, iluminação talvez, estado que (lembrando-me de um trecho da quarta cena do Ato III de Hamlet), ao mesmo tempo em que leva a nada enxergar, possibilita ver tudo o que existe para ser visto: o ar incorpóreo.

Em todo caso, e para todos os efeitos, é possível que não haja afinal desvario algum no mal que os acomete. E se houver, tanto faz. Ao menos a julgar por Pascal, para quem “Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria apenas outra forma de loucura”.
Fotografia: Luigi Pirandello
John Everett Millais: A morte de Ofélia, 1852



sexta-feira, 2 de março de 2012

A casa velha: um réquiem

Quando eu era criança, era hábito nas férias de verão passar ao menos uma semana ou duas na casa de meus avós. Numa paisagem bucólica, cercado de galinhas, de vacas e de plantações por todos os lados, em contato com a natureza, encontrava uma atmosfera perfeita para ler os livros que escolhia na biblioteca pública de minha cidade especialmente para aqueles períodos de intervalo entre um ano letivo e outro. Eram dias em que eu mergulhava numa realidade em tudo diversa à daquela dos outros meses do ano: um lugar que oferecia a oportunidade de observar uma rotina vivida quase da mesma maneira como cem anos antes, ouvindo as pessoas falarem uma língua trazida por imigrantes e conservada por seus descendentes, além de ter na mesa do almoço os pratos mais tradicionais de uma culinária também preservada e por vezes, digamos, miscigenada. Fora isso, o dia a dia dos moradores daquele lugar, como me foi informado, apenas em poucas coisas havia sido modificada. Embora na época eu não tivesse muita noção desses fatos, eu valorizava muito essa oportunidade de conviver um pouco naquele lugar desbravado por meus ancestrais, que repousavam não muito longe dali. Desses tempos, guardo algumas das melhores recordações que se pode ter em relação a questões que mais tarde se desenvolveriam em meu pensamento, a saber, temas como a terra, a natureza, os livros e a arte, além de inúmeras, para não dizer infindáveis, questões envolvendo os animais, sua domesticação e a sua criação para o abate. São questões que ainda ocupam muito o meu pensamento e, se algumas delas me instigam, em outras encontro paz e sentido. Porém, mais especificamente em relação às que dizem respeito aos animais, não vejo qualquer possibilidade de encontrar paz.
Por mais importantes que tenham sido essas férias em companhia de meus avós, pelo que lhes sou imensamente grato, em memória, foi contudo outro lugar que me forneceu uma ideia (ou uma visão, não sei) de algo que me daria substrato para uma vida inteira de pensamento e de interrogações. Foram semanas que aprofundaram em mim uma tendência à divagação, algo que eu já possuía, mas que, depois daquelas semanas, se tornaria, ao lado da inquietude de pensamento, o aspecto talvez mais característico da minha personalidade: o caráter contemplativo. Eu tinha onze anos, e em vez de ir, como todos os anos, para a casa de meus avós, quis variar e aceitei o convite de um tio para passar algumas semanas em sua propriedade. Isso possibilitou que às já familiares vacas e galinhas se somassem porcos, cachorros e gatos. Além da casa de moradia, havia na propriedade imensos galpões, grandes plantações, um pomar, mata virgem e, para além dos limites de terra daquele irmão mais velho de meu pai, estradas para todos os lados e que me faziam pensar, não sei por qual razão, em uma frase que havia aprendido no colégio no ano anterior: que todos os caminhos levam a Roma. Com certeza, na época esse pensamento estava de todo ausente de minha consciência, mas percebo agora, em retrospecto, por mais aleatório que possa parecer, um sentido para essa frase: a possibilidade de que, para o desenvolvimento de nossa personalidade, a aparência da atmosfera em nossa volta, os fatos que vivenciamos ou os assuntos com os quais temos contato na mais tenra idade talvez não tenham toda essa importância que se costuma apregoar. E que muito mais importantes que tudo isso são as inclinações que já trazemos em estado de latência em nós mesmos e que despertarão de uma forma ou de outra, em qualquer cenário, em qualquer companhia e em qualquer circunstância. Se afirmar isso significa que não temos como fugir a nós mesmos, creio que seja realmente essa minha crença.
Havia, não muito distante dos galpões de meu tio, uma grande construção que era chamada simplesmente de casa velha e que era usada como depósito de milho e onde dormiam os cachorros. Já a tinha visto muitas vezes anteriormente, em visitas, mas foi apenas naqueles dias que a examinei com maior atenção. De seu histórico, sabia apenas que datava de 1897 - data afixada com muita dignidade no frontão - e que, nas primeiras décadas do século seguinte, havia sido a casa mais luxuosa das cercanias. A veracidade desse fato era atestada pelos inúmeros ornamentos que a cercavam por todos os lados, nos peitoris das janelas, na pequena escada que conduzia à rica porta de entrada, em cujo cimo e laterais, bem como no interior, havia detalhes trabalhados em estuque. Em minhas longas caminhadas pelas estradas do lugar, era comum encontrar muitas casas de imigrantes, caracterizadas todas elas pela simplicidade, e algumas datavam de épocas muito anteriores à década de 1890. Nenhuma, contudo, se parecia com a casa velha, o que me levava a concluir que não se tratava de mais uma moradia de imigrantes ou descendentes, mas da residência de uma família de grandes posses. Não obstante seu passado, havia rachaduras e em muitas partes o reboco já havia caído, deixando à vista os tijolos; muitos dos caixilhos das janelas já não tinham vidro, tudo isso sem que ninguém sequer cogitasse providenciar os devidos reparos. Talvez porque não a vissem como uma casa, muito menos como o palacete que era, mas apenas como as ruínas de um tempo há muito passado. Esses efeitos do tempo, contudo, só a tornavam ainda mais bela e preciosa aos meus olhos. Eu tinha onze anos, repito, e nunca antes me sentira tão fortemente ligado a uma construção. Para mim, portanto, tratava-se de um sentimento novo, o que me pareceu estranho, pois nenhuma das casas em que até então havia vivido me tinha despertado tal apego. Se na época me perguntassem o que via de tão comovedor naquela construção, dificilmente saberia dizer algo que não fosse relacionado a tudo que acontecera em termos de fatos históricos pretéritos e que, enquanto ocorriam, a casa, durante todas aquelas décadas, estivera sempre ali, imperturbável, por mais que sua aparência, nos dias de minha estada, pouco guardava dessa impassibilidade. Mas talvez não fosse apenas isso; todos aqueles ornatos, aquelas cores ressaltando belos detalhes ou toda a pompa maltratada pelo tempo, tudo isso lhe conferia uma leve e comovente semelhança com uma flor murcha, talvez o símbolo máximo da brevidade da vida: uma flor que, não obstante seu estado, poderia muito bem voltar a reluzir e ocupar a posição que já lhe fora própria, se naquela época houvesse uma maior consciência de preservação.
Perdi a conta de quantas horas, de quantas tardes passei em volta e no interior daquela casa imensa, imerso nos mais variados pensamentos: buscava imaginar desde respostas a questões mais triviais, como quantas gerações haviam vivido ali, até detalhes mais precisos, como, por exemplo, como era a rotina dos moradores, em que consistia seu cardápio e ainda como se vestiam. Interrogava-me também se liam, e, no caso, quais autores. Outras indagações me eram inspiradas por vestígios ainda visíveis da vida na construção, como uma marca retangular na parede, em que se percebia, pela diferença nas cores, ter sido o lugar de um quadro; em outra parede, a existência de um nicho, como os que se encontram nos templos góticos, me dizia da religiosidade dos moradores. Em outra aposento, ao lado da porta, restara um suporte em madeira e metal para roupas e chapéus. Por mais que minha imaginação funcionasse, tais detalhes apenas vinham se somar à riqueza de algo que para mim, por si só, já constituía objeto da maior admiração. E as marcas do tempo, que se tornavam mais cruéis considerando a dignidade dos ornamentos e o fato de ter sido a residência de algumas das pessoas mais influentes das redondezas, a meu ver intensificavam um sentimento de injustiça que perdura até hoje: a rápida e implacável substituição do belo e do profundo pelo novo. Mesmo que o novo muitas vezes signifique algo infinitamente pior, promove-se o desterro do conteúdo e da profundidade, mesmo que a novidade muitas vezes substitua o bom por algo vazio, não raro completamente destituído de qualquer traço de beleza e, mais ainda, de significado.
Naquele meu culto precoce ao antigo e ao caráter belo e profundo das coisas atemporais, a despeito da minha pouca idade, não esperava de modo algum ser compreendido por meus tios e primos. Pelo contrário: era-lhes muito grato pelo simples fato de aceitarem minha admiração por aquela antiga casa, por mais que considerassem tal sentimento como algo que podia ter origem apenas no fato de eu viver na cidade.
Somente a passagem de exatas três décadas me trouxe uma compreensão mais clara de minha ligação com a aparência e a antiguidade daquela casa. Foi um entendimento que me veio através da leitura de A arquitetura da felicidade, de Alain de Botton: “Se as construções podem atuar como receptáculos de nossos ideais, é porque podem ser purgadas de todas as infelicidades que corroem as vidas normais. Uma grande obra de arquitetura nos falará de um grau de serenidade, força, equilíbrio e graça a que nós, como criadores ou como espectadores, normalmente não podemos fazer justiça – e por essa mesma razão ela irá nos divertir e comover. A arquitetura provoca o nosso respeito na medida em que nos supera”.
Alguns anos atrás, soube que a casa velha não existe mais: foi demolida. Por essa razão, tenho evitado visitar meus tios e meus primos. O que não significa que não sinta saudades deles; porém, voltar àquela propriedade seria como retornar no tempo e não encontrar o passado no lugar onde ele deveria estar, para muito além da esfera de minhas recordações. É de Jorge Luis Borges a seguinte interrogação: “Quem, ao andar pelo crepúsculo ou ao descrever uma época do seu passado, não sentiu em algum momento que alguma coisa infinita se perdera?”. Talvez seja próprio aos amantes da arte esse estado de vaga confusão, esse constante interrogar-se, tendo diante de si a realidade e, na memória, algo como um vestígio, uma impressão mesmo que remota de todos os paraísos perdidos. E talvez os vislumbres que nos são dados um pouco a cada dia, por mais dadivosos que sejam, não passem de sombras pálidas de imagens que vimos em outros tempos e cujo reencontro está além de nossa capacidade imaginativa. E talvez também seja próprio do passado, como tudo que é esvaído, parecer mesmo algo único e para sempre perdido, tal como todas as coisas, enfim, marcadas pelo passar do tempo. Saudosismo em excesso? Sim, é possível, e gostaria imensamente que fosse apenas isso.
Porém, aos poucos, sei que devo me habituar aos fatos: em se tratando de respeito à memória, à beleza e à riqueza de significado, o mundo está longe de ser justo. E, entre inúmeros outros fatores, a rápida extinção dos poucos rastros de um passado vivido - e de tudo que lhe é característico -, porém aos poucos varrido completamente do alcance do tempo, do espaço e da recordação, é prova mais que suficiente dessa verdade.