domingo, 29 de julho de 2012

Quando as palavras nos abandonam

Embora na verdade tivesse uma certa aparência de ritual, não havia muito mistério nisso de escrever. Basicamente, eram apenas um ou dois pré-requisitos a serem respeitados, alguma inspiração e o trabalho de colocar-se à escuta, e o texto nascia fluente, como se eu apenas transcrevesse algo que já existia inteiro em sua forma final, mas em outra esfera. Tudo na verdade muito simples, pouca coisa para explicar e nada para entender. O leitor atento terá percebido que usei o verbo no passado: “havia”. Pois, de alguns meses para cá, escrever se tornou tudo, menos um processo simples, e não é verdade que não tenha me esforçado. Muito pelo contrário. Gastei semanas em tentativas inúteis de produzir algo que lembrasse a dignidade de textos anteriores, mas era como se nada do que brotasse de minhas mãos tivesse o direito de sobreviver para contar sua breve história de inexistência. E verifiquei por experiência própria o fato de que nos acostumamos a tudo, ou a quase tudo: eu já havia me habituado a esse processo contínuo de escrever para descartar, muitas vezes sem mesmo perder tempo em releituras vãs, que, por si, não trazem sopro algum ao que já nasce sem vida. Tudo em vão.
E, embora não pudesse ser assim considerado, como já disse, busquei as aparências de ritual para procurar vencer esse silêncio que, em lugar das antigas palavras querendo vir ao mundo, passou a me habitar de uma hora para outra, quando eu menos esperava, e que me fez mudo ante um mundo que, de um momento a outro, se tornara paradoxalmente de uma eloquência nunca antes experimentada, ao menos para mim. Conforme escreveu Susan Sontag em um ensaio, em literatura o tempo existe para que não aconteça tudo de uma vez, enquanto que o espaço serve para que não aconteça tudo com a mesma pessoa. O fato é que, por algum tempo, senti como se eu fosse a exceção viva dessa regra, sem tempo e sem fôlego para assimilações. Se eu mesmo disse há tempos atrás que as palavras nascem do silêncio, a minha dedicação em observar essa ausência de ruído conseguia produzir apenas ecos vazios e cópias idênticas em significado a essa mudez de que de me vi tomado.  E a escrivaninha, preparada como um altar para ofícios sagrados, continha livros, canetas-tinteiro, papel branco e o violino em estanho inclinado em seu suporte. Tudo ao som de “Clair de lune”. E tudo em vão, outra vez. Da experiência, só restou a comparação com outros altares, outras mesas, como aquelas que, relembrando tempos imemoriais, reúnem até hoje congregações em torno da repartição dos pães, do vinho. Seria essa comparação uma inveja guardada ou expressão de desejo por reunir-me a esses irmãos? Pode ser. Creio que talvez, a essas alturas e nas atuais circunstâncias, seria bom e consolador, já que as palavras me deixaram só, pertencer a alguma coisa que seja. Mas para isso é necessário antes de tudo fé, e pré-requisitos não podem ser fabricados de uma hora para outra, para nosso uso. Como seria fácil se assim fosse. E, por uma questão de princípios, mentir é coisa que não faz parte de meus hábitos.
Tendo me tornado uma criatura do silêncio, ou de sujeito momentaneamente privado de palavras, procurei ampliar meu conhecimento musical. Nenhum esforço é vão, e posso dizer mesmo que ganhei muito com isso. Novos intérpretes, novos instrumentos, novos gêneros... é incrível a habilidade que alguns musicólogos possuem – ou acreditam ter – para reunir todo um período – no caso, a Inglaterra elisabetana, em apenas dois ou três discos. Impossível deixar de questionar que critérios foram levados em consideração para tais compilações. Quantos instrumentistas e compositores terão dedicado suas vidas inteiras a compor e, no momento da seleção, por uma simples questão de opinião, foram deixados de fora? Outra coisa: nesse período em que permaneci ágrafo, ao contrário do que talvez se imagine, li muito. Na verdade, não tendo a me sussurrar no ouvido vozes dizendo sobre o que escrever, li como nunca antes na vida. Diga-se também de passagem que o meu trabalho também não ficou prejudicado com esse meu não tão repentino silenciar. Para usar de sinceridade, talvez a ausência de palavras já se anunciasse no instante exato em que, ainda menino, brotaram as primeiras palavras, décadas atrás, das quais tenho pouca recordação, e creio não ser errado supor que o fim de qualquer coisa que seja está já em seu início, em gestação. Algumas questões se tornam inevitáveis, não apenas a quem escreve, mas a todos nós: há quanto tempo se faz da escrita razão de viver? Quantos morreram no cumprimento desse ofício? Em que a humanidade melhorou com toda a dedicação dos homens que se sacrificaram para lhes legar um universo de palavras? O que as pessoas leem, hoje em dia? Com o que estarei contribuindo, se deixar de ler ou estudar partituras para dizer – suprema presunção – algo novo? No momento em que nos propusemos tais questões, mesmo que permaneçamos longe das respostas exatas, é natural que alguma verdade se atinja, mesmo contra nós mesmos – a realidade às vezes dói. (E se não perguntamos, o que, mais precisamente, estamos fazendo nesse mundo?). Mesmo que as grandes verdades já tenham sido todas ditas, e de maneiras muito mais inspiradas que esse meu escrevinhar sem o mínimo apuro. E que, malgrado deixarmos de fazer coisas mais produtivas, o fato é que a resposta é não, as pessoas não irão ler o que escrevemos especialmente para elas. E, mesmo que lesse, a humanidade, por uma questão de ignorância, permanece unida apenas no que ela tem de pior: a própria ignorância e a aversão a verdades duras. Pergunto-me se acaso não estarei sendo crítico demais para com meus semelhantes. Em caso afirmativo, aceito de bom grado a pena com que queiram me punir, feliz por estar equivocado. Mas não vejo necessidade de punição: pois o que seria pior que escrever para ninguém?
Isso posto, talvez agora eu possa voltar a selar a paz com as palavras e quebrar esse silêncio de tantos meses. Na verdade, para ser mais exato, não era silêncio o que havia em meu cérebro, mas algo ritmado, como um repicar de sinos. E, pensando nos músicos elisabetanos esquecidos, lembro de John Donne: “A morte de cada homem diminui-me, porque eu faço parte da humanidade; eis por que nunca pergunto por quem dobram os sinos: é por mim”.
(Da escrita deste texto, fica uma lição, se houver um próximo nessa coisa incerta de escrever: lembrar de ao menos tentar abrir mão das citações e frases de efeito. Que Donne me perdoe por hoje, pois não era uma questão de efeito, mas sim de conteúdo. Por hoje, era só, e muito obrigado).

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Algumas palavras sobre o legado de nossos antepassados

“Muitas pessoas olham para o mundo e se perguntam: por quê? Eu penso em coisas que nunca existiram e me pergunto: por que não?”
George Bernard Shaw
A expressão pode até parecer estranha ou pouco adequada ao contexto, mas talvez a melhor maneira de definir o continente europeu à época do início da imigração alemã seja sob a forma de um grande museu de paradoxos. Entre os diversos aspectos a serem considerados, estava o fato de muitos países se encontrarem numa situação de total devastação após as derrotas napoleônicas. A esse respeito, o filósofo Will Durant se interroga por que a primeira metade do século 19 “levantou, como vozes da época, um grupo de poetas pessimistas” na literatura. Na música, esse aspecto pouco afeito à vida e à sua continuidade encontrou vozes altamente expressivas em compositores como Schubert, Schumann, Chopin e o próprio Beethoven em seu período tardio, pós-Nona Sinfonia: a famosa Ode à Alegria, que encerra essa grande obra estreada em 1824, não poderia ter vindo à luz numa atmosfera menos condizente. Na filosofia, o espírito não era outro: Arthur Schopenhauer publicava, em 1818, sua “grande antologia do infortúnio”, intitulada O mundo como vontade e representação, que, poucas décadas após seus surgimento, se converteria em uma das mais importantes vigas de sustentação do pensamento ocidental. Segundo Durant, “por toda a parte, no Continente, a vida tinha que recomeçar do zero, para recuperar dolorosa e lentamente o civilizador excedente econômico que havia sido consumido na guerra”. Também entrou para a história uma frase de Goethe que ilustra e define o estado de ruína desse período: “Agradeço a Deus por não ser jovem em um mundo tão inteiramente liquidado”.  
Se por um lado a situação era consequência da guerra, por outro a miséria era trazida por outra revolução, essa de caráter industrial. De início verificados na Inglaterra, aos poucos os frutos inesperados do progresso e dos avanços tecnológicos se estendiam para o resto da Europa, substituindo a mão de obra humana por máquinas, levando dessa forma milhares de trabalhadores, como luveiros, ferreiros, carpinteiros e tecelões ao desemprego e, em consequência, à miséria. A esses fatores, pode-se acrescentar, a respeito do empobrecimento no campo, as sucessivas divisões hereditárias. Outro motivo causador de descontentamento era o serviço militar obrigatório, que, em tempos de guerra, estendia-se até que a paz fosse restaurada.
Havia também os interesses do Império brasileiro na vinda de imigrantes; não se pode esquecer que a esposa de Dom Pedro I, Leopoldina, era filha do Francisco I, da Áustria. Consciente da situação do país de origem da imperatriz e atendendo de início ao interesse de formar um exército, para depois voltar sua atenção aos camponeses, o governo imperial tratou de criar as condições necessárias para a vinda dos primeiros imigrantes. A primeira leva, como se sabe, aportou nas margens do Rio dos Sinos em 25 de julho de 1824. Inicialmente, eram concedidos a cada um 77 ha de terra, além de ferramentas, gado, sementes, entre outros auxílios. Contudo, sabe-se que tais promessas não foram cumpridas na totalidade dos casos. Bastante difundida é a seguinte frase, repetida a muitos dos alemães que aqui chegavam: “Aqui está a terra. De agora em diante, vire-se”.
Conhecidos por um grande sentimento de apego às raízes e à cultura de seu idioma, o chamado germanismo, a imigração em princípio pode ter parecido uma ideia absurda a muitos alemães da época. Contudo, diante de um quadro amplamente desfavorável, parece natural que recomeçar a vida em outro país, na chamada “Terra da liberdade”, tenha sido visto como o único ponto luminoso no horizonte. A frase do dramaturgo Bernard Shaw, na epígrafe, dependendo do contexto em que for observada, sugere que muitas vezes os grandes momentos da história nascem exatamente de seu aspecto de total absurdo, em meio a momentos da mais absoluta calamidade, para a qual não existe solução senão no impensável. Do contrário, como entender que tantos homens e mulheres de todas as idades tenham concordado em despedir-se para sempre de sua terra de origem, de seu passado, de seus familiares, para embarcar em uma aventura que não era o fim das dificuldades, mas o começo de uma outra grande saga?
Hoje, passados quase dois séculos, não falta quem afirme que tal visão heroica do ato desses desbravadores não é fiel, e sim exagerada, romântica, pois de fato não havia alternativa para o caso de desejar-se prosseguir e continuar a tarefa designada a todos, que é viver. Todavia, um fato é consensual entre os descendentes de imigrantes: todos que buscam no passado as origens da família e sua história encontrarão basicamente fome e miséria. Pouco numerosas são, entre os imigrantes, as partículas sinônimas de nobreza, tal como von ou, de uso ainda mais raro, van; caso houvesse, seu uso se perdeu, entre muitos outros costumes. Mas a verdade inegável é que quem buscar se inteirar do seu passado e de suas raízes encontrará, salvo raras exceções, uma outra espécie de nobreza, aquela que não vem de berço, mas que costuma nascer aos poucos e em silêncio, não apenas em momentos extremos, mas também na simples vivência do cotidiano; uma forma de nobreza que permanece quase sempre inadvertida para quem realmente a possui e que guarda grande parentesco com a simplicidade. Ela surge através da maneira como se encara a vida, na postura ante seus constantes desafios, fazendo e escrevendo, no exercício de responder diariamente aos ditames do destino, através do trabalho, da abnegação e da ousadia, a sua e a nossa história.



Tal modo de ver pode levar-nos a questionar o valor e a real efetividade de nossas atitudes em relação ao passado, mais exatamente no que fazemos para preservá-lo e honrá-lo. Trata-se de uma questão que leva a pensar mais uma vez em Goethe. De acordo com uma frase sua, “O legado de teus antepassados só se torna teu através dos teus próprios méritos”. Eis algo em que pensar, não apenas nesta data de 25 de julho, mas em todos os outros dias.
Pedro Weingärtner: Tempora Mutantur, 1898
Angelica Kauffman: retrato de Johann Wolfgang von Goethe, 1775

sábado, 30 de junho de 2012

Outra vez a humildade, as noites estreladas e Van Gogh


Uma das questões que me proponho com maior frequência é sobre a possibilidade – ou não – de escrever sem levar em consideração o momento exato em que alinhamos as palavras e as dispomos de maneira a que sirvam ao nosso propósito de dizer algo que tenhamos em mente e que, segundo nosso modo de pensar, acreditamos ter alguma utilidade ao público-alvo. Porque, ao menos no meu modo de vivenciar a escrita, qualquer coisa que resulta em um texto, na maior parte das vezes, nasce dos acontecimentos mais fortuitos, aqueles que, prosaicos, constituem os momentos mais triviais da minha rotina de cada dia. Escrever não é mais que uma maneira de assimilar melhor fatos que, não fosse o modo como os organizo em parágrafos, permaneceriam na categoria de “achados e perdidos”, aguardando uma assimilação lenta, que se dá por etapas, muitas vezes trabalhosas, até que acabem fazendo parte de um modo de ser e de pensar. É inevitável que, nesse processo, os assuntos se tornem recorrentes e reapareçam de tempos em tempos, e não creio na possibilidade de ser de outro modo; pois o que nos choca, o que nos chama atenção, ou o que nos parece belo, são coisas que pertencem a categorias já estabelecidas, que são acrescidas, com o passar do tempo, de novos elementos, de novos modos de ver, numa lenta elaboração daquilo a que normalmente se chama identidade. Sei que não é tão simples, mas é o que posso dizer por enquanto.
Não faz muito tempo que postei neste espaço um texto em que lembrava um antigo hábito de meus ancestrais, hábito que me esforço por manter e, ao menos dentro de minhas pequenas possibilidades, legar aos que deverão ficar: o ato de contemplar as estrelas. Não ignoro que eram outros tempos e que, de lá para cá, a moderna tecnologia colocou à disposição dos meus contemporâneos um número bastante elevado de novas maneiras de passar seu tempo à noite, e, dessa forma, os céus foram pouco a pouco perdendo o seu público para o capítulo da novela ou para o facebook. As novas gerações, privadas de tal espetáculo noturno, acabaram também perdendo um ganho secundário que seus antigos apreciadores levavam de brinde: o senso exato de sua dimensão e, consequentemente, da noção de humildade. Não quero dizer que, para ser humilde, é preciso postar-se com certa frequência à noite sob abóbadas estreladas e esperar que, sob sua luz, ela exerça magicamente seu efeito de choque de realidade. Basta apenas não perder a noção de si mesmo, levando em consideração mesmo os aspectos mais básicos, como a consciência da finitude e a noção de, seja qual for o número de pessoas que se tenha como contatos na já mencionada rede social, o que conta mesmo é o número, geralmente muito restrito, de pessoas que realmente logramos atingir, e mesmo assim, de uma maneira bastante limitada, como uma ou outra ideia, uma palavra no vocabulário, etc. Isso sem perder de vista que, seja qual for a nossa contribuição na paisagem em nosso redor, ela não sobreviverá a uma ou duas gerações, até a sua total extinção.  Por pensar desse modo, acontece de eu às vezes sou considerado amargo, talvez também em razão da forma como expresso minhas crenças, sempre recorrendo a palavras tais como finitude, limites, etc. Em minha defesa, repito o que anteriormente já escrevi: é exatamente no fato de sermos transitórios que reside nossa grandeza. Tenho plena consciência do lugar-comum que as linhas acima representam. Escolho, porém, correr o risco de ser pouco original, passando de um momento a outro, e sem pudor, a ser isso mesmo: antigo.
Não existe exceção que confirme a seguinte regra: sempre escrevo sob o efeito de um entre dois sentimentos distintos: o encantamento e a perplexidade. Embora possam muitas vezes ser confundidos, existe um contraste polar entre esses dois hemisférios. São, todavia, duas faces de uma mesma moeda. O que me mobiliza hoje e que me leva a pensar nos meus bisavós, suas enxadas e suas estrelas, é a percepção da incapacidade, ou da falta de vocação, não sei, de certas gerações para as noções mais rudimentares de humildade. A respeito dessa virtude, dizem-se muitas coisas, entre as quais, o fato de ser ela mãe de todos os demais dons; pelo pouco que me é dado conhecer, sou ignorante a respeito da veracidade dessa afirmação. Mas acredito que nela haja muita lógica: tenho grande dificuldade de entender como se poderia desenvolver dons, qualidades, enfim, virtudes, se as pessoas em questão revelam imensa dificuldade em ter um mínimo que seja de humildade. Não que eu reprove, em algumas pessoas, a alta conta em que se têm a si mesmos; difícil, isso sim, é concordar com um fato tido por elas como indubitável, indiscutível: o fato de sempre julgarem estar certos sobre tudo e a crença de que jamais cometem erros. A situação, que parece corriqueira, se agrava no momento em que esses próprios seres, do alto de seu pedestal, começam a olhar para baixo e buscam nos levar a imitar o seu exemplo e segui-los naquilo que creem possuir de mais genuíno: a própria humildade. E me questiono se está errado concluir que a arrogância, isto é, o extremo oposto da virtude em questão, conduz fatalmente à cegueira, impedindo não só que se enxergue as reais dimensões de si mesmo, como também levando a um vicioso círculo, que culmina, de maneira invariável, no desenvolvimento dos piores e mais lamentáveis defeitos. Talvez a origem disso tudo esteja na supressão do silêncio, sobre o qual já me detive anteriormente, e na privação de algo fundamental para o desenvolvimento da personalidade: o saber olhar-se a si mesmo em profundidade. Penso que a explicação para tal fenômeno esteja nas palavras de Lars Svendsen, em sua obra A filosofia do tédio: “Em vez da solidão, abraçamos o egocentrismo, e nele somos dependentes dos olhares de outros: tentamos preencher todo o seu campo de visão, procurando nos afirmar. O egocêntrico nunca tem tempo para si, somente para o reflexo de si que encontra nos outros. Ele nunca encontra paz em relação a seu pequeno e encolhido eu, no entanto é forçado a inflar um eu exterior de enormes proporções – mas trata-se de um eu gigantesco, e quem o inventou tem cada vez mais dificuldade de preenchê-lo”.
Isso posto, lembro uma vez mais de meus bisavós e suas noites luminosas, imortalizadas sobretudo por Van Gogh. E me vejo diante de dúvidas, tais como saber onde foram parar, por exemplo, o amor ao silêncio que nasce juntamente com o amor à música, bem como o amor à riqueza das palavras. Mas meus ancestrais, bem como seus hábitos, estão mortos e enterrados há anos, e o horizonte que vislumbro à minha frente não é dos mais animadores. Todavia, quando o nosso próprio tempo não nos traz alento, sempre é possível recordar o passado. Muitas vezes esse é o único consolo que nos resta.
(Peço a meus leitores que perdoem as repetições. E, uma vez mais, este texto não teria sido possível sem a referência ao filósofo norueguês. O caminho para me considerar escritor, junto com a capacidade de concisão, está muito além da linha do horizonte. Mas não penso em desistir, humildemente ou não. Aliás, não creio ser possuidor dessa virtude: é realmente humilde apenas aquele que se desconhece como tal).
Vincent Van Gogh: “Starry Night over Rhone”

terça-feira, 12 de junho de 2012

De esperas e de significados

Nas últimas semanas, escrever tem sido tarefa inglória. Por mais que, com a alma embebida em livros, música e imagens, me coloque diante da escrivaninha na tentativa de dizer qualquer coisa brotada dessas leituras, audições ou contemplações, o fruto de meu esforço se revela sempre por meio de palavras que, numa ânsia exagerada de comunicar algo, tiveram uma morte tímida e prematura, antes que pudessem dizer qualquer coisa no pouco tempo em que estiveram no mundo, ou na tela. E do desaparecimento imprevisto e indesejado dessas frases natimortas, carrego a culpa e a responsabilidade, não de lhes vingar em mim o fim triste, mas de procurar dizer, em outros dias e em melhores condições, que sim, elas existiram, e que, por falha minha, não cumpriram a função para a qual foram criadas. Guardo saudades sobretudo do espaço em branco, das muitas noites em que, sentado neste mesmo lugar, as frases se formavam praticamente sem a minha intervenção, procurando juntar-se as palavras umas às outras, como se já existissem em sua forma final em outro plano, bastando eu postar-me, como agora, à espreita para que elas venham, como nas antigas noites, completar um círculo no qual meu papel parecia ser o de mero coadjuvante. Pois é assim que me vejo nesse exercício de escrever: como alguém que sabe que seu lugar é a parte de baixo de uma hierarquia formada, em ordem decrescente, pelos vocábulos, pelas frases, em seguida pelos parágrafos e, num nível mais abaixo, eu, o escrivão. Sei que parece um tanto místico, mas, a partir de minhas pequenas experiências com a escrita, posso dizer com sinceridade: é assim que funciona. São sempre inúteis quaisquer tentativas de subverter a ordem. Como disse certa vez a um amigo, não somos nós que determinamos a hora de escrever; esse ofício exige que nos vejamos com humildade e que reconheçamos que é a escrita e as palavras que escolhem o momento em que desejam descer de suas alturas. Faz muito tempo que disse isso, mas pouca coisa mudou em relação ao conteúdo.
Pensei por um momento que a diferença entre a noite de hoje e as anteriores estaria no fato de saber previamente o assunto a ser abordado, mas não é verdade. Esse constitui mais um entre os tantos aspectos que não decidimos. Pois na maioria das vezes o tema era algo que eu apenas percebia por volta da terceira ou quarta linha, e depois bastava seguir o fio do raciocínio. Embora isso não seja uma regra, percebo agora que o assunto de hoje é esse mesmo: a ausência de tema, o vazio de significado. Possivelmente nas vezes anteriores também tenha sido essa a direção correta, mas que acabei ignorando. Humano que sou, esqueço às vezes o quanto é absurda essa nossa necessidade de que tudo, inclusive as palavras, faça sentido. Algumas vezes é possível corrigir os erros cometidos; porém, e infelizmente, na maior parte dos casos, é tarde, e lamentar pelos erros também é vão. E, à espera de um tema melhor que a ausência de significado, lembro-me de Vladimir e Estragon na peça de Samuel Beckett, esperando (inutilmente?) por Godot, e percebo através dos diálogos desses dois personagens o quanto é absurda a espera do que quer que seja. Absurda, sim. Não condeno os que pensam sempre que o melhor da vida ainda está por vir, ou os que buscam incessantemente pelo amor ideal; há ainda os que esperam pelo retorno do messias, vendo nos desastres naturais, provocados pela nossa própria espécie em séculos de abusos contra a natureza, sinais inequívocos de que ele está por chegar. Outros, menos precisos, esperam pela felicidade, sem saber dizer, quando interrogados a respeito, no que ela consistiria. Em todo caso, seja o que for, acreditam que a coisa esperada está sempre no futuro. Há dias atrás, numa livraria, vi uma frase num cartão, sem indicação de autor; transcrevo-a aqui: “Não existe caminho para a felicidade. A felicidade é um caminho”. Eis algo em que acredito, e se me fosse dado dizer algo aos que esperam, seja pelo que for, diria simplesmente isso, cuidando de acrescentar, de minha parte, que não esperem viver uma felicidade apenas no futuro, mas que buscassem vivê-la aqui mesmo, nesta vida. Porém, não são poucos os que creem numa espécie de obrigação de sentir-se aflitos, para serem consolados, e assim por diante.
                          
Apesar de absurda, não creio ser inútil a espera de Vladimir e Estragon. Afinal, é preciso viver. Por sua intensidade e por sua beleza, compartilho aqui um trecho da obra: “Será que dormi, enquanto os outros sofriam? Será que durmo agora? Amanhã, quando pensar que estou acordando, o que direi desta jornada? Que esperei Godot com Estragon, meu amigo, neste lugar, até o cair da noite? Que Pozzo passou por aqui, com seu guia, e falou conosco? Sem dúvida. Mas quanta verdade haverá nisto tudo? Ele não saberá de nada. Falará dos golpes que sofreu e lhe darei uma cenoura. (Pausa) Do útero para o túmulo e um parto difícil. Lá do fundo, na terra, o coveiro ajuda, lento, com o fórceps. Dá o tempo justo de envelhecer. O ar fica repleto de nossos gritos. (Escuta) Mas o hábito é uma grande surdina. (Olha para Estragon) Para mim também, alguém olha, dizendo: ele dorme, não sabe direito, está dormindo. (Pausa) Não posso continuar”.
(Uma das muitas razões de eu não me considerar escritor é a dificuldade, ou a quase impossibilidade, de escrever sem recorrer a citações. Não guardo ilusões quanto a conseguir ser coerente; sei de minha incapacidade nesse sentido. Busco apenas ser sincero. Mas sei que isso não basta).
Sei o quanto há de presunçoso em abordar temas como vida e morte, acaso e destino, existência ou não de sentido, e se falo deles é na condição de simples mortal, a quem tais assuntos inquietam, e é tudo que posso dizer. Creio que haja uma maior possibilidade de erros quando o assunto diz respeito a todos. E, a respeito da ausência de significado ou de sentido em calar, falar ou mesmo escrever, talvez um trecho de Lars Svendsen (de quem voltarei a falar em breve neste espaço) seja pertinente: “O significado que buscamos na ausência de significado, a experiência na ausência de experiência e o tempo na ausência de tempo – serão eles meramente ilusões? Uma sensação de perda não garante que qualquer coisa tenha sido realmente perdida, e, portanto, não garante também que haja algo – um tempo, um significado ou uma experiência – que tenha de ser recuperado”.
(Enquanto escrevia este texto – que não sei como classificar – esperava por um e-mail. Mesmo sendo pequena a esperança de recebê-lo, a espera inútil me decepcionou um pouco. Mas ficaria imensamente grato ao meu pequeno círculo de leitores pela licença de dizer apenas mais duas breves frases. São bastante simples, e se resumem a isso: não esperem. Vivam).
Fotografia: Samuel Beckett

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Algumas palavras sobre a ausência e o silêncio


Creio não terem passado despercebidos aos leitores deste blog o tom reticente dos últimos textos e, por fim, o abandono em que agora se encontra este espaço. Justamente por serem poucos, esses leitores não são menos que especiais, preciosos, e me pareceu incorreto deixá-los sem uma palavra de esclarecimento sobre tal silêncio. A eles, espero que as palavras a seguir sirvam ao mesmo tempo para explicar e para agradecer pela atenção.
No último mês, estive em viagem a terras estrangeiras, onde tive a rara oportunidade de visitar lugares históricos e museus, jardins e palácios. Nesse período, aquela característica que Balzac usava para definir a idade de um homem, o entusiasmo, algo que creio sempre ter tido de sobra, foi em mim reavivada, e eu, de volta à minha terra, busquei condições para satisfazer a necessidade quase física de conhecimento. Falo aqui de entusiasmo no sentido grego da palavra: “estar possuído por um deus”, e isso se refere ao interesse vital que nos mantém vinculados à realidade mais imediata, bem como à curiosidade, ou necessidade premente, como disse acima, de buscar sanar a própria ignorância, de uma ou de outra maneira. E então entreguei-me mais do que nunca à literatura, à música, e dos encantos e da felicidade que tais artes, além da filosofia, costumam proporcionar, apenas poucos, muito poucos podem compreender.
Das viagens, leituras e ensaios de música, as lições aprendidas se somaram a outro fator que só pude perceber aos poucos, observando a vida e os costumes ao alcance de meus olhos; algo cuja existência eu nunca ignorei, mas que, em razão de certos contrastes, as circunstâncias me revelaram ser na verdade um grande deserto. Lembrei de uma frase de Einstein que, até pouco tempo atrás, me parecia um tanto presunçosa: a sentença em que ele afirma existirem apenas duas coisas infinitas: o universo e a estupidez humana. Hoje percebo que a presunção estava em mim, por pensar que talvez o grande físico houvesse exagerado. (E hoje me questiono acerca da natureza da estupidez. Interrogo-me, por exemplo, se se trata de algo de nascença, de estado gerado por falta de oportunidades ou se simplesmente é opção de vida). E, ao mesmo tempo em que me admirava diante da magnitude de algumas das grandes criações do gênio humano, sob outro aspecto inquietava-me com o que alguém, muito apropriadamente, chamou de “deserto de almas”; um deserto que teve sobre mim um efeito muito maior do que as exceções, que, felizmente, não são poucas. Diante disso, optei pelo silêncio, mesmo porque não havia outra escolha.
Não é segredo para ninguém que a vida muitas vezes nos reserva circunstâncias que nos levam a calar. Para quem está habituado a fazer da escrita uma das razões de viver, o silêncio, em tais momentos, é duplo: ao mesmo tempo em que nós mesmos, por questões racionais, optamos por nada dizer, a voz que literalmente nos obriga a enfrentar quase todo dia o espaço em branco, outrora plena de ardor, parece por sua vez ausentar-se, como se nunca tivesse existido. Por experiência própria, sei que esses bloqueios são temporários e que acontecem de tempos em tempos. Talvez seja mera impressão, mas me parece que tais períodos sempre contribuem para um aprimoramento, mesmo que ínfimo ou imperceptível em seu resultado final: as palavras.
Não foram poucas as tentativas de romper esse silêncio. Todavia, tudo que busquei escrever trazia a marca da distração, da ausência, de quem não está realmente presente naquilo que redige. Tenho para mim que os meus poucos leitores merecem algo muito melhor. E quando o nível dos textos está aquém dos meus próprios níveis de exigência, o mais adequado mesmo é prolongar o silêncio. É necessário ressaltar que, ao menos na minha concepção, isso não significa inatividade. Antes pelo contrário: quer dizer estudo, leituras, aprofundamento, esforço. Isso sem falar na busca incessante pelo aperfeiçoamento, que possivelmente não passa de uma quimera. Porém, é sabido que todos precisamos de um pouco de ficção; e, por outro lado, ao menos o desejo de melhorar, se insatisfeito, não nos traz prejuízo algum.
Dado o caráter limitado de todas as nossas experiências, tudo, para o bem ou para o mal, tem um fim. E, como em certos antídotos produzidos a partir da própria substância que lhe é antagônica, creio ter encontrado as primeiras palavras deste texto na própria inexistência de qualquer sinal que prenunciasse algo parecido a um pensamento mais digno de ser partilhado, e que me levou a buscar alento na negação. É de Cioran a seguinte frase: “Tudo pode ser sufocado no homem, salvo a necessidade do Absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos, assim como ao desaparecimento da religião sobre a terra”. Qualquer que seja o nome desse Absoluto, muitas vezes ele é tudo que nos resta – o que não significa pouco. A aceitação desse fato pode se dar por diferentes vias, algumas dolorosas, outras extasiantes, e, algumas vezes, simplesmente banais, como as coisas mais triviais do cotidiano.
Ignoro se as linhas acima cumpriram o objetivo de explicar as razões do silêncio. Tampouco sei dizer se o presente texto é o fim de um bloqueio, se é um recomeço ou uma retomada do ponto onde parei. Talvez o mais adequado seja vê-lo como um novo ponto de partida; daqueles pontos dos quais saímos cientes da inexistência de linha de chegada mais específica, nos quais nos movemos sem saber se percorremos um espaço horizontal, vertical ou circular. Em todo caso, seja ele o que for – um ponto luminoso entre um silêncio e outro -, não esqueçamos do essencial: lembrar que, seja qual for a natureza de nosso pensamento, jamais conseguiremos nos distanciar muito  da dúvida, causa de tantos mistérios – os quais, por sua vez, talvez sejam a origem maior do fascínio de tanta coisa que está sempre ali, ao nosso redor. E que às vezes pedem apenas um simples olhar.
Por enquanto, era isso o que eu tinha a dizer. Peço aos que me leem perdão pelo tom confessional, mas em alguns momentos ele se torna necessário. Agradeço pela compreensão e, de resto, até breve.

Caspar David Friedrich: Viandante sobre mar de nevoeiro, 1818

sábado, 5 de maio de 2012

Das escolhas que fazemos - digressões

No momento de iniciar este texto, deparo-me com vários inícios possíveis. Sei porém que, entre essas possibilidades, apenas uma é a correta: como num jogo. Caso eu escolha a via errada, o futuro mais provável destas linhas é o esquecimento, destino frequente de muitos outros começos que, a despeito de terem parecido em princípio as palavras certas, não conduziram a coisa alguma além do vazio da obviedade. Desde muito tempo – talvez desde uma infância precocemente consciente de algumas coisas - convivo com essa necessidade incontornável, ou responsabilidade, de fazer as escolhas certas, na verdade desde muito antes que o escrever passou a fazer parte de minha rotina – ou seja, desde outros inícios, esses mais prementes e sem muitas possibilidades de escolha. Todavia, apenas hoje me ocorreu mencionar esse detalhe dos bastidores porque, casualmente ou não, ele vem ao encontro do meu tema de hoje: uma sensação estranha, muito difícil de definir, que algumas vezes acompanha a forma como atendemos aos chamados da vida, e a própria possibilidade de escolhermos entre atender ou não a esses chamados. A vida entre as palavras e as letras, com talento ou não, é uma existência à qual só podemos nos entregar por amor ao ofício, e, ao contrário do que muitos pensam, ela nos reserva, além de eventuais dificuldades, surpresas não raro fascinantes, que nos surgem das mais diversas formas, e que, além de serem momentos de uma enorme felicidade, nos dizem como que distraidamente, antes de voltarem ao mundo do esquecimento, de onde saíram por uma questão de poucos momentos, que sim, tomamos a decisão certa. Saber se o resultado é bom ou não torna-se questão secundária. Essas surpresas podem vir na forma de uma ideia à qual procuramos em vão, por dias sucessivos, uma maneira de revestir com as palavras mais adequadas, não encontrando, todavia, a despeito dos esforços nesse sentido, uma forma que satisfaça ao nosso senso de exigência; até que chega o momento, depois de já termos desistido tanto da busca como da ideia, em que ela nos surge por um desses dois caminhos: ou de uma consciência repentina, um lampejo de poucos segundos num dos momentos mais comuns do nosso cotidiano, ou ainda reproduzida da forma mais simples possível, através das palavras de um grande escritor. (A simplicidade, a ausência de esforço, a concisão, são essas as eternas marcas que revelam o abismo entre os grandes escritores e nós, simples e mortais, embora constantes, amontoadores de palavras. “Que ninguém se engane”, escreveu Clarice, a inesquecível, em A hora da estrela: “só se consegue a simplicidade através de muito trabalho”.
Um desses pensamentos a que busquei em vão dar forma, na verdade apenas uma noção vaga, não obstante revestida de certa perplexidade, surgiu, certo dia, em algumas linhas de Jens Peter Jacobsen (escritor dinamarquês que, assim como Ibsen e Strindberg, me parece sempre subestimado e, infelizmente, assim como estes, muito pouco lido). Com palavras na aparência quase banais, escreveu ele que existem pessoas que vivem como se viver fosse a coisa mais natural do mundo. Trata-se de uma afirmação simples, mas que ao mesmo tempo me enche de espanto, especialmente porque se trata de uma verdade que pode ser constatada facilmente dia após dia, observando e comparando a nossa vida com a de outros viventes. Para muitos, viver é coisa que se faz com uma destreza toda peculiar, uma naturalidade intrínseca, que me leva a concluir que tal leveza é coisa para poucos eleitos, além de nos incutir a semente da dúvida: o que precisamos fazer para atingir tal estado de intangibilidade, de despreocupação daqueles cujo lema parece ser aquele antigo clichê segundo o qual “a vida é muito simples; nós é que a complicamos”? Quanto mais me interrogo, parece-me, mais distante me encontro de uma resposta que, começo a desconfiar, simplesmente não existe, embora em nada me agrade a ideia de render-me ao simplismo de certas ideias (“as coisas são como são”, entre outras). E não posso deixar de comparar o modo como tais seres conduzem suas vidas com a sucessão de afazeres, entre lazer e trabalho, além de outras atividades, que compõem a minha rotina. Parte dessas tarefas são ditadas pelas leis mais imediatas da vida, como o trabalho e tudo a ele relacionado. Contudo, como se trabalha tendo em vista a qualidade das horas ociosas, outras atividades vão se somando, sobrepondo-se umas às outras, gradualmente, entre convites de que não se pode declinar, além de encargos que aceitamos sem hesitar, tendo em vista, entre outros fatores, nossos princípios éticos mais elementares. Isso sem esquecer que a vida tem também seu lado estético. E assim acabamos nos comprometendo com a música, em ensaios para apresentações, ou com a escrita de roteiros para espetáculos. Enquanto procuramos nos desincumbir desses compromissos, os livros encomendados, sempre em quantidade maior em comparação aos poucos a que realmente podemos nos dedicar, continuam chegando, em caixas que já vêm se avolumando, empoeiradas, há anos nas estantes, onde permanecem à espera dos momentos, a cada dia mais breves, em que podemos nos dedicar a eles com toda a atenção e o cuidado que seus autores merecem. Tão vital quanto a leitura, há a necessidade quase física de escrever. Soma-se a isso o pacote da viagem com que tanto sonhamos, que pagamos com certo sacrifício e que, quando se aproxima, a despeito de ter sido planejada com meses de antecedência, parece vir em momento impróprio: como poderemos nos ausentar por tantos dias, deixando todo o resto em suspenso? E é nesse estado de total imersão nas obrigações e dúvidas sem possibilidade de resposta que surgem lembranças que talvez não passem de uma impressão errônea que o transcorrer do tempo muitas vezes confere ao passado: uma aparência de tranquilidade de dias em que nada havia de urgência ou de pressa que fosse. Um tempo que talvez nem sequer tenha existido, mas cuja lembrança, talvez não mais que um equívoco, nos traz a ideia de um fluir constante, calmo e, mais do que tudo, em estado de paz absoluta.
Ignoro se existem amálgamas perfeitos; embora se produzam em um processo natural, ao menos na aparência, existem conjunções, encontros de circunstâncias e de elementos, que me remetem mais uma vez a conceitos em que me detive não faz muito, a saber, de identidade. Na verdade, este talvez integre o vasto espectro dos assuntos que, quanto mais pensamos a respeito, mais nos afastamos da verdade – que talvez seja algo muito mais simples do que inicialmente suspeitamos. Entretanto, há uma interrogação que, por mais difícil que seja encontrar as palavras, não posso deixar de ao menos tentar verbalizar. No caso, a dúvida vai um pouco além da definição segundo a qual somos o que fazemos. Pergunto-me se acaso não se confere importância exagerada ao resultado de nossos esforços, em detrimento das circunstâncias que nos permitiram a realização do que nos propusemos fazer, somadas a algo inescapável: que o tempo que levamos na consecução das tarefas, na defesa de ideais, na realização de sonhos, constitui um elemento, esse sim, vital de nossa personalidade, uma vez que a escolha de como vivê-lo foi, casual ou não, deliberação exclusivamente nossa. Talvez em vários aspectos, não passemos disso: um tempo determinado que, somado, é nossa existência e, ao mesmo tempo, parte essencial de nós mesmos. Trata-se de uma noção que, ao mesmo tempo em que parece estranha, sugere também obviedade, e até uma grande dose de ingenuidade, e que talvez não passe de uma intepretação equivocada dos dias e das palavras do já citado Jacobsen, que se refere à existência do indivíduo como “aquela contínua caça de si mesmo, espiando astutamente as próprias pegadas (...) num eterno andar em círculo; aquele aparente mergulho no rio da vida, mantendo-se no entanto sentado, lançando o anzol à espera de pescar a si mesmo sob sabe-se lá qual estranho disfarce”. Assim como o tempo é fugaz e a vida, intangível, a noção de si mesmo é incerta e fugidia.  E o Eu, além de tudo, uma ilusão. Uma ilusão a cuja construção e manutenção nos dedicamos cada dia de nossa vida. Tal como os amálgamas perfeitos, pergunto-me se existem interpretações errôneas: é Ricardo Piglia quem defende os maus leitores, e, nesse caso, sou fruto acidental da busca por sanar minha própria ignorância. Por falar nisso, o conjunto das linhas acima me leva a crer que, na escolha entre os começos possíveis, um erro conduziu ao outro. Para encerrar esse ciclo de vias tortas, concluo aqui estas palavras, com a plena consciência de um aumento considerável na minha já significativa quantidade de questões não respondidas. E esperar que o tempo traga alguma resposta seria confiar demais, não no tempo, que de nada tem culpa, mas sim em mim mesmo, em vez de crer, isso sim, na incapacidade nossa de viver com alguma certeza, uma ao menos que seja.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

À arte - uma tentativa de dedicatória


Diz um filósofo que “é no diálogo com a dor que muitas coisas belas adquirem seu valor”. Creio na verdade dessa afirmação: se a beleza tem a capacidade de nos comover, em grande parte é por sabermos que ela é a exceção, e não a regra. Todavia, isso não quer dizer que os apreciadores da beleza em suas manifestações artísticas sejam sofredores por vocação. Antes pelo contrário: saber apreciar o belo, acredito, tem sua origem antes de mais nada em saber viver, em fazer da busca do conhecimento e da melhoria – do que quer que seja - um ideal constante. A apreciação da beleza também possui a rara capacidade de despertar em nós algo que sabidamente é uma de nossas características mais essenciais como seres humanos: a consciência da transitoriedade de tudo que nos cerca, sem esquecer que esse estar de passagem diz respeito também a nós, além da noção de que a única certeza é a da impermanência. Talvez seja essa uma das razões que nos levam, quando diante de certas formas mais específicas de arte, além dos êxtases de intensidade variada, a sentir um certo grau de tristeza, podendo chegar, dependendo do grau de nossa entrega, a algo não muito longe de um breve, mas significativo desespero. Desespero, sim – não existe outra palavra para essa sensação inconsolável de que aquilo que em dado momento nos encanta em breve não passará de erva fenecida, seca, como perecíveis folhas de outono a sucederem-se no curso incessante das estações.

Existe um pensamento que expressa com perfeição a grandeza e ao mesmo tempo a miséria da humanidade: “O homem é um deus quando sonha e não passa de um mendigo quando pensa”. Não sei em que contexto Hölderlin pronunciou essa sentença, mas não creio que exista outra frase capaz de sintetizar tão bem a conclusão a que chegamos quando diante de uma espécie de arte mais tradicional: a pintura de paisagens. Não me refiro aqui a qualquer estilo, mas sim a um exemplo específico: o rigor formal das pinturas a óleo da artista plástica Kelva Lucia Gorgone Novaes – que, através da obra “Cores de Outono 6”, passa a partir de hoje a ilustrar este espaço. Um simples exame de seus trabalhos torna dispensável a necessidade de uma apresentação mais formal. Mesmo porque não é necessário um olhar muito detido sobre suas obras para descobrir as razões que levaram Kelva a figurar no panteão dos mais conceituados e premiados artistas plásticos brasileiros: através de tons ora sóbrios, ora em pulsações de cores mais vivas, essa artista, radicada em Paraíso, São Paulo, soube criar com êxito um estilo extremamente característico, que reproduz com precisão uma espécie de arte que julgávamos não apenas extinta, mas também quase esquecida, e que, através de uma habilidade peculiar das mãos da pintora, se revela não só atual, mas também mais necessária do que nunca. Necessária para nos lembrar de um fato na verdade bastante simples: que, embora hoje se privilegiem tanto os estilos mais modernos, o clássico, a despeito de tudo e de todos, é eterno. Creio que seja consensual o fato de que, de certa maneira, toda arte é uma forma de resistência, algumas mais, outras menos. A resistência de Kelva Novaes se dá em relação ao fugaz, ao transitório. Isso posto em primeira instância, embora por si já não seja pouco, podemos dizer que suas obras são também muito mais do que isso: por meio dessas paisagens e naturezas mortas, temos o privilégio de ver reproduzidas atmosferas de sonho, cuja maior característica percebemos de maneira inesperada - justamente no momento em que delas desviamos o olhar, instante em que, ao termos diante de nossos olhos uma realidade nem sempre condizente com o devaneio, percebemos a verdade tão bem expressa na frase de Hölderlin. Sim, é claro que a arte existe para nos despertar para as mais diversas realidades. Mas também é verdadeiro que o primado da imaginação tem o objetivo, não menos nobre, de nos conduzir a estados que fogem aos domínios do sono e da vigília: o encantamento, o cenário de nossos sonhos e doces promessas de felicidade em paraísos ainda possíveis, que, conforme quero crer, jamais serão perdidos. Concordo que talvez eu tenha uma visão romântica demais da arte. Contudo, se existem limites para as possibilidades de experiência com a literatura, a música ou a pintura, ainda não os encontrei. Sei que me arrisco, mas diria um pouco mais: acredito que seja justamente através dessas experiências que, a partir do contato com as mais variadas representações da beleza, ultrapassamos nossos próprios limites. Se com isso não nos tornamos pessoas melhores, ao menos é fato que, a partir de nossas vivências com as mais diversas formas de arte, passamos a conviver em maior harmonia com o mundo à nossa volta e, por que não dizer, com maior conhecimento a respeito de nós mesmos, importante passo para todo processo de aprendizado.
Entre as várias centenas de canções compostas por Franz Schubert em sua breve existência, é difícil saber, entre tantas, quais seriam as prediletas dos intérpretes, bem como as mais inspiradas. São numerosas as coletâneas contendo, às vezes de forma exaustiva, aquelas consideradas, acima de qualquer discussão, suas obras-primas para piano e voz. Contudo, a presença quase constante, nessas antologias, de um lied de tocante simplicidade parece conduzir silenciosamente a questão das preferências a uma espécie de consenso. Trata-se de An die Musik (Á Música), composta por Schubert em 1817, quando contava 20 anos. Tendo por base versos de uma simplicidade quase ingênua, que dificilmente teriam sobrevivido sem a partitura, a peça não entrou para a história da música apenas como a profissão de fé do compositor, mas de todos os  cantores que se dedicaram a ela nestes quase duzentos anos. Em seus breves dois minutos e meio, An die Musik, embora tenha vindo ao mundo como um despretensioso exercício musical de um dos maiores compositores de que se tem notícia, acabou se convertendo em um agradecimento à arte dos sons e, indo um pouco além, à Arte em si. Neste poema, escrito por Franz von Schober, o sujeito lírico se dirige à própria arte, dizendo das tantas horas penosas em que a vida se revela um universo hostil (eis o “diálogo com a dor” evocado pelo filósofo), sendo as circunstâncias mais difíceis convertidas pela arte em um mundo infinitamente mais rico. A segunda estrofe, de estrutura semelhante, contém, em palavras mais diretas, uma declaração simples, mas de cuja sinceridade ninguém ousaria duvidar, tendo-se em vista dois testemunhos eloquentes: a experiência própria de cada um e o apaixonado arroubo expresso na melodia do lied mencionado: “Um doce, sagrado acorde de tua harpa me abriu os céus e me possibilitou a felicidade de uma vida melhor. Por isso, a ti, nobre arte, faço agora meu agradecimento”.
Quem canta tem o privilégio de fazer suas essas palavras. Eu, porém, que não tenho voz, limito-me a transcrever o básico desses versos, e, privado dessa nobre melodia, ouso acrescentar, em um breve sussurro, à música, à pintura, à literatura, no meu português mais simples e em palavras por completo desprovidas de harmonia, meu improvisado agradecimento. Ontem, hoje e sempre.
 Pinturas: Kelva Lucia Gorgone Novaes
 Franz Schubert, desenho de Moritz von Schwind