domingo, 16 de setembro de 2012

Coisas que perdemos no caminho

Existem vezes em que o espaço em branco representa um desafio maior do que realmente o é nas outras vezes, e a tarefa de escrever, na maior parte das vezes uma atividade tranquila, apesar dos percalços e dos eventuais silêncios, se torna um verdadeiro desafio. Isto acontece, entre outros fatores, pelo fato de alguns assuntos representarem uma verdadeira prova à nossa capacidade de exposição e de síntese. E quando nos propomos escrever sobre os rumos incertos do mundo atual e seus descaminhos, há que se ter cuidado com as palavras. Em sua obra A resistência, o escritor argentino Ernesto Sabato traça um preocupante painel de nossa realidade; ao concluir a leitura desses textos, verifica-se que o adjetivo “sombrio”, usado para descrevê-los no texto da contracapa, nada tem de inadequado, tendo em vista que o qualificativo define muito bem os dias atuais, que estão longe de constituir um cenário pacífico. Talvez uma das melhores maneiras de descrever um determinado período seja através da enumeração de coisas que perdemos ao longo do tempo. Ao iniciar esse inventário, a nossa primeira descoberta é que, ao mesmo tempo em que nos cercamos de toda espécie de artefatos de utilidade duvidosa, por outro lado nos privamos de coisas essenciais. Podemos citar um trecho em que Sabato afirma que um mundo sem espírito não passa de uma terra devastada, ou, resumindo as suas palavras em outros termos, trata-se de uma paisagem de grande desordem, estado estabelecido sem que algo de maior gravidade tenha necessariamente acontecido de uma hora para outra. Se minha leitura foi correta, a ameaça se encontra justamente nessa forma sutil como o caos se instaura. De modo mais específico, segundo o escritor, “o momento de maior empobrecimento de uma cultura é esse em que o mito começa popularmente a ser definido como uma falsidade”. Se concordarmos com Luc Ferry, para quem a mitologia ocupa o elevado grau de pré-história da filosofia, percebemos a real gravidade da situação: com efeito, que tipo de pensamento pode surgir de uma sociedade desprovida de todo o arsenal do imaginário, lembrando uma realidade da qual até mesmo os relatos mais essenciais desapareceram? Pensando no papel exercido tanto pelo imaginário como pela mitologia, podemos nos interrogar, juntamente com Sabato: “E acaso são explicáveis os grandes valores inerentes à condição humana, como a beleza, a verdade, a solidariedade ou a coragem? O mito, assim como a arte, exprime um tipo de realidade da única forma como ela pode ser expressa”, escreve, salientando a inutilidade de toda tentativa de racionalização da mitologia: “Defronte a questões inefáveis, é infrutífero tentar aproximar-se por meio de definições”.
Deparei-me com essas palavras do autor de Sobre heróis e tumbas de uma daquelas maneiras que nunca sei se posso considerar casuais ou aleatórias. De qualquer maneira, casualmente ou não, estava há poucos dias lendo um documento que me permitiu ter uma ideia das reais proporções de nossas perdas, não apenas em termos de mitologia, mas em relação a um contato mais vívido com o mundo natural e à convivência pacífica com a natureza. Da maior parte das coisas que perdemos só nos damos conta muito tempo depois, quando lançamos um olhar em retrospecto. Em 1852, o governo dos Estados Unidos fez um inquérito sobre a aquisição de terras tribais para destiná-las a imigrantes que chegavam ao país. Em resposta, o chefe Seattle escreveu uma carta – hoje bastante conhecida, embora não respeitada como merece - que tenho na conta de uma declaração de princípios e de ética poucas vezes superada. A seguir, transcrevo alguns trechos: “O presidente, em Washington, informa que deseja comprar nossa terra. Mas como é possível comprar ou vender o céu, ou a terra? A ideia nos é estranha. Se não possuímos o frescor do ar e a vivacidade da água, como vocês poderão comprá-los? Cada parte da terra é sagrada para meu povo. Cada arbusto brilhante do pinheiro, cada porção de praia, cada bruma na floresta escura, cada campina, cada inseto que zune. Todos são sagrados na memória e na experiência do meu povo. Conhecemos a seiva que circula nas árvores, como conhecemos o sangue que circula em nossas veias. Somos parte da terra, e ela é parte de nós. (...) Se lhes vendermos nossa terra, vocês deverão lembrar-se de que ela é sagrada. Cada reflexo espectral nas claras águas dos lagos fala de eventos e memórias do meu povo. O murmúrio das águas é a voz do meu pai. (...) Se lhes vendermos nossa terra, lembrem-se de que o ar é precioso para nós, o ar partilha seu espírito com toda a vida que ampara. O vento, que deu ao nosso avô seu primeiro alento, também recebe seu último suspiro. O vento também dá às nossas crianças o espírito da vida. Assim, se lhes vendermos a terra, vocês deverão mantê-la à parte e sagrada, como um lugar onde o homem possa ir apreciar o vento, adocicado pelas flores da campina. (...) O que sabemos é isto: a terra não pertence ao homem, o homem pertence à terra. Todas as coisas estão ligadas, assim como o sangue nos une a todos. O homem não teceu a rede da vida, é apenas um dos fios dela. (...) Amamos esta terra como o recém-nascido ama as batidas do coração da mãe. Assim, se lhes vendermos nossa terra, amem-na como a temos amado. Cuidem dela como temos cuidado. Gravem em suas mentes a memória da terra tal como estiver quando a receberam. Preservem a terra para todas as crianças e amem-na, como Deus nos ama a todos”.


Como se percebe, a carta não trata de apenas um assunto, mas de uma infinidade de valores de que hoje, em razão de nossa memória de curto alcance, entre tantos outros fatores, nos vemos privados, de uma maneira que me recuso a considerar irreversível. Em termos descritivos, talvez não seja tão difícil definir a sociedade atual. Vejo a história da pintura como uma coleção de imagens cuja eloquência não se perdeu com o passar dos séculos. Antes pelo contrário: nela estão refletidas várias etapas pelas quais passamos, estejam elas no passado ou no presente, com alcance para além do futuro. Nesse sentido, creio que uma das imagens mais condizentes com nosso tempo é o “Narciso”, em que Michelangelo Merisi da Caravaggio retrata o jovem que, segundo a lenda grega, apaixona-se pelo próprio reflexo na água, paixão que o leva a afogar-se. (Este é apenas um entre tantos exemplos de como os mitos podem iluminar fenômenos humanos). A alusão não podia ser mais clara nem mais atual: tão entretidas em contemplar a própria face, as pessoas perderam a capacidade de se relacionar com o mundo. Não se enxerga o outro porque, além de os olhares terem se desviado em direção ao espelho, perdeu-se a empatia. E o mais irônico disso, e também o mais grave, é que os olhos estão voltados apenas para a superfície, incapazes de olhar para dentro de si, ou melhor, para seu interior. Em parte, talvez isso aconteça porque o interior não contém coisa alguma. Ignoro se é possível a alguém aperceber-se do próprio vazio sem uma interferência externa. Em todo caso, é sempre bom lembrar que muitas coisas brotaram de uma consciência do vazio – desde que essa consciência seja sincera. Em sua obra O poder do mito, Joseph Campbell fala do modo como o nosso relacionamento com o mundo exterior pode variar de acordo com as palavras que usamos: “Os índios se dirigiam a todo ser vivente como ‘vós’ – as árvores, as pedras, tudo. Você também pode se dirigir a qualquer coisa como ‘vós’, e se o fizer sentirá a mudança na própria psicologia. O ego que vê um ‘vós’ não é o mesmo que vê uma ‘coisa’. E quando se entra em guerra com outro povo, o objetivo da imprensa é transformar esse povo em ‘coisas’”. Creio que seja assim mesmo. A respeito disso, se passássemos a dedicar aos assuntos alheios um décimo do empenho e da atenção que costumamos dedicar aos nossos próprios interesses, não teríamos uma sociedade tão individualizada. Utopia? Talvez. Mas prefiro pensar que, ao menos em alguns lugares, longe ou perto, compreensão e lealdade ainda não sejam coisas de um passado mítico e que a ética ainda respira, não obstante seu estado de fragilidade.
Depois de falar da lucidez de Ernesto Sabato, da terra vista pelos olhos dos índios, de Narciso e de uma nova maneira de ver a natureza e a sociedade, gostaria de evocar uma outra imagem como complemento à anterior. Uma imagem que não signifique resignação, mas aceitação do fato de que o mundo está passando por dificuldades e que precisamos colocar-nos em atividade para recuperar o que foi perdido. Existe uma fotografia que retrata a biblioteca da Holland House, em Kensington, atingida por um bombardeio em 22 de outubro de 1940. O que se vê, tendo como fundo uma realidade destroçada, são as estantes de livros em meio à destruição, examinados por três homens. Quem os descreve é Alberto Manguel, em sua obra Uma história da leitura: “Eles não estão dando as costas para a guerra, nem ignorando a destruição. Não estão escolhendo os livros em vez da vida lá fora. Estão tentando persistir contra as adversidades óbvias; estão afirmando um direito comum de perguntar; estão tentando encontrar, uma vez mais - entre as ruínas, no reconhecimento surpreendente que a leitura às vezes concede – uma compreensão”. Não gosto da expressão “indigência cultural”, pois sempre me pareceu elitista e um tanto exagerada. Mas, ao ver tal imagem, em contraposição ao mundo de hoje, é impossível deixar de me perguntar se haveria, atualmente, numa atmosfera constituída por destroços, alguém que, depois de um bombardeio e em meio ao caos, se pusesse a ler os títulos nas lombadas. É difícil responder. Gosto de pensar nas futuras gerações com certa dose de esperança e na possibilidade de um tempo melhor após algumas décadas. Em todo caso, não creio poder viver para ver esse momento em que uma nova escala de valores será inaugurada. Mas talvez eu esteja enganado. Queria imensamente que assim fosse: um engano, nada mais que isso, e que sim, deve-se dar um voto de confiança à humanidade. Até prova em contrário.
(Tendo em vista o assunto, não sei se respondi à altura à prova do espaço em branco. Isso é algo que apenas o leitor saberá dizer. Em todo caso, o som da chuva, lá fora, é sussurro que me diz, ao pé do ouvido, que, antes de pensar em responder, devo esperar a madrugada passar).
Caravaggio: “Narciso”
Holland House Library, Kensington, outubro de 1940








sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Maneiras de escrever: lições de Rilke e Montaigne

Entre tantas páginas que a literatura nos legou a respeito de como escrever, algumas das mais preciosas nos foram deixadas por Rainer Maria Rilke, não exatamente na sua obra literária, mas em suas cartas, que acabaram por constituir um gênero à parte entre tantos outros. O ano era 1903, e o destinatário era o jovem Franz Xaver Kappus. “Procure entrar em si mesmo”, escreve o poeta; “Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: ‘Sou mesmo forçado a escrever?’ Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte ‘sou’, então construa sua vida de acordo com essa necessidade”. Mais de cem anos se passaram, e é possível que muitos outros séculos se passem; se essas palavras persistiram, é porque elas tiveram entre os seus leitores uma infinidade de jovens aspirantes a poeta, ou mesmo leitores comuns, para quem elas foram de uma utilidade que não foi possível encontrar em outras fontes. Se era de maneira consciente que Rilke escrevia suas cartas para a posteridade, é questão que já perdeu a importância. A verdade é que, de uma forma ou de outra, suas cartas entraram para esse reduzido número de epístolas cujo destinatário maior é a humanidade de todas as épocas, independente do fato de quererem ser escritores ou não.
Muito mais do que outras questões de maior alcance, tais como “como viver, ou ainda “o que podemos esperar da humanidade”, as interrogações sobre como e por que escrever receberam e continuam a receber por parte de escritores, independente de sua nacionalidade, um tratamento especial. É de se acreditar que muitos se detiveram nesta questão pelo fato de elas pertencerem ao reduzido campo em que as respostas ainda fazem sentido. Sobre tudo o mais, ou sobre os aspectos em que a vida se revela mais misteriosa e cheia de interrogações, a melhor alternativa é simplesmente calar-se. E quando há tentativas nesse sentido, dificilmente se trata de palavras possíveis de serem resumidas. Clarice Lispector, também por sua vez procurada por um jovem escritor que lhe havia enviado alguns contos, resumiu seu ensinamento através de um conselho que vale para todos nós, literatos ou não: antes de começar, antes mesmo da primeira palavra, é necessário perder o medo. Não tenho meios para saber que resultado essas palavras tiveram no destino do jovem a quem foram destinadas. Quanto a mim, porém, posso dizer que ao menos creio não ter mais medo nem de viver, nem de escrever. Como diz o título de uma famosa canção, “o medo de amar é o medo de ser livre”, e creio que esse temor sirva também para outras áreas. E quanto à liberdade, mantenho certa reserva, essa justificada por outra canção, segundo a qual “liberdade não é mais que outra palavra para nada a perder”.
Escrita e liberdade foram palavras-chave para o criador do ensaio como gênero, Michel de Montaigne. Interrogação e dúvida talvez fossem dois elos a mais. Segundo Virginia Woolf, o filósofo francês é o exemplo único de escritor que soube, com as palavras, escrever a si mesmo como em um retrato. De acordo com a escritora, é apenas a ele que pertence a capacidade de proceder “este relato de si mesmo, seguindo suas fantasias, dando o mapa completo, o peso, a cor, e o diâmetro da alma em sua desordem, sua poliformia, sua imperfeição”. E, como assinala Virginia, os séculos passam e mais e mais leitores são levados a reconhecer-se nas páginas dos Ensaios, sempre intrigados com o fato de terem sido tão bem descritos tantos séculos antes de nascer. Mas, de forma mais detida, vejamos as palavras do próprio Montaigne, na sua carta ao leitor, a quem apresenta e dedica seu livro: “(...) possam nele encontrar alguns traços do meu caráter e de minhas ideias e assim conservem mais inteiro e vivo o conhecimento que de mim tiveram. Se houvesse almejado os favores do mundo, ter-me-ia enfeitado e me apresentaria sob uma forma mais cuidada, de modo a produzir melhor efeito. Prefiro, porém, que me vejam na minha simplicidade natural, sem artifício de nenhuma espécie, porquanto é a mim mesmo que pinto. (...) Se tivesse nascido entre essa gente de quem se diz viver ainda na doce liberdade das primitivas leis da natureza, asseguro-te que de bom grado me pintaria por inteiro e nu”. Recordo-me de minha reação quando li pela primeira vez alguns de seus ensaios, e, pelo que pude mais tarde comprovar, não foi uma impressão exclusivamente minha, essa de perguntar-me como podia esse homem do século XVI conhecer tão bem a alma dos leitores de todos os tempos. Encontrei uma explicação posterior, em algumas palavras de Ralph Waldo Emerson sobre a arte de escrever. Trata-se de uma escrita que não se produz meramente com tinta sobre papel, mas “escrever como se deposita o orvalho sobre a folha e as estalactites sobre as paredes da gruta, como a carne decorre do sangue e como a fibra lenhosa da árvore se forma a partir da seiva”. Creio que estas palavras colocam fim àquele clichê segundo o qual escrevemos por nos sabermos mortais; salvo os grandes predestinados, escrevemos todos para o olvido.
Sim: escrevemos para o esquecimento, e mesmo assim o fazemos, teimosamente, pois, sendo real a assertiva de Rilke sobre a impossibilidade de viver sem escrever, não temos alternativa. A esperança talvez esteja nas entrelinhas. É nesse ponto que a escrita nos desafia, nos amedronta, nos coloca diante de nós mesmos, tal como acontecia de modo natural com Montaigne. É essencial perder o medo, como aconselhou Clarice; se assim não fosse, as entrelinhas acabariam por dizer, malgrado nós mesmos, tudo o que gostaríamos de calar. É válido recordar aqui o subtítulo de uma obra de Alberto Manguel, A cidade das palavras: “As histórias que contamos para saber quem somos”; um dos tantos modos de ver a literatura é como um inestimável espelho do que somos e também um guia para saber onde estamos e para onde nos dirigimos. Ao menos é com essa curiosidade que sou levado a escrever, independente do fato de ser lido ou não. Ao menos para mim, sem palavras, não haveria cidade, nem casa, tampouco natureza, mas um grande caos. Nossa ordem está mesmo nos livros, nas linhas que se amontoam, independente do crepitar de fogos sagrados e da música do cosmos. Pelo que me é dado observar, este conteúdo está presente também sobretudo no que calamos; sobre essas linhas subliminares, que também encontramos apenas em grandes obras, é interessante o que diz A.D. Sertillanges: “A palavra pesa quando se sente por baixo dela o silêncio, quando ela oculta e deixa adivinhar, por detrás das palavras, um tesouro que ela libera progressivamente como convém, sem precipitação e sem agitação gratuita. O silêncio é o conteúdo secreto das palavras que contam. O que faz o valor de uma alma é a riqueza do que ela não diz”.
Se a mim por minha vez alguém indagasse sobre as razões e desrazões de escrever, não sei o que responderia. Em todo caso, não teria por que não dizer meu próprio pensamento e postura ante meus escritos, postura que me foi legada por Clarice. Interrogada sobre em que sentido ou grau suas obras poderiam alterar a realidade imediata, ela respondeu não ter ilusão alguma: “Não altera em nada”. E, mesmo assim, seríamos imensamente menos ricos se não tivéssemos, entre tantas outras obras, A hora da estrela. Isso, contudo, quanto a Clarice. No meu caso, basta a primeira parte da resposta: não guardo ilusões. Contudo, longe estou de querer desistir; quanto a isso, a lição de Rilke vale por toda a vida, independente do que se faça. E há ainda uma coisa de que não podemos nos esquecer: que, destituída por completo de sua porção de mistério, escrita alguma tem valor.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Baudelaire e a infância; sobre a vida própria de certas frases


“A infância é nossa pátria”, dizia Baudelaire. Durante muitos anos conhecia a frase, mas ignorava seu autor, e também não sabia dizer quando a teria ouvido pela primeira vez. De certo modo, acabei associando-a indevidamente com o anonimato. Com o tempo, também de forma equivocada, por desconhecer a origem, além do fato de dizer respeito a um tema universal, passei a considerá-la como um desses provérbios que, não sendo de ninguém especificamente, acabam pertencendo a todo mundo. Enganei-me. Resta saber se a frase diz respeito apenas ao autor ou se é válida para todos. Mas antes disso, uma consideração: já tinha reparado que algumas das frases que memorizamos parecem criar vida própria em nossas mentes. Sei que se trata de falta de uma memória mais exata, mas é como se essas sentenças resolvessem modificar-se por conta própria, alterando-se, adaptando-se a nossas ideias – mesmo quando as contrariam -, misturando-se a outras, criando nuances, até o momento em que resolvemos buscar sua origem e acabar não com as incorreções – seria errôneo considerar desse modo nossas próprias reflexões sobre os temas -, mas com os desvios. E é então que descobrimos que elas guardaram pouca relação com o que eram de início, e, em alguns casos mais raros, tornaram-se seu oposto. Mas voltando à frase de Baudelaire: se a infância é realmente nossa pátria (e creio que o autor de As flores do mal sabia o que dizia), não é difícil imaginar-nos como uma legião de expatriados sonhando com o momento de voltar a uma terra da qual, embora sempre tenha sido nossa, fomos desapossados. A ideia, se de início nos soa estranha, depois parece muito natural e até um pouco óbvia. E, pensando assim, não é preciso muito esforço para ver em cada rosto maduro a fisionomia de um exilado e para interpretar quase todos os livros que lemos como canções de um desterro não apenas forçado, mas mal e mal suportado. Poucos são os exílios voluntários, em que a própria pessoa, depois de ponderar, admite que o melhor seria partir - e mesmo nesses casos, o expatriado passou a viver tristemente com dois corações.
Também não deixa de ser verdade, sob esse ponto de vista, que a partir do momento em que nascemos não cessamos mais de partir. E viajar, nesse caso, seria exilar-se duas vezes. Eis talvez um novo modo de nos definir: somos seres que partem o tempo todo, e que, exageros à parte, já nascem indo-se embora. De pouco adianta que, em pensamento, em projetos ou em sonhos não cessemos de planejar um retorno impossível e de sonhar com a pátria a cada minuto mais distante. É como se a expulsão do paraíso deixasse de ser exceção para tornar-se regra: da perfeição do mundo em que nascemos nos percebemos arrebatados quando menos esperamos, e de pouco valeria interrogar se estamos preparados para isso: no mais das vezes, a vida não nos faz perguntas – ao menos não a esse respeito - e também não nos pede licença. Pergunto-me se existe algo de espontâneo em buscar recriar a pátria no mundo que aos poucos passamos a habitar e a chamar de nosso, tarefa a que nos dedicamos incessantemente em cada dia de nossas vidas; não raras vezes, a tendência é fazer da nossa casa uma versão à nossa maneira das salas de nossos pais ou avós, ancestralidade sempre presente mesmo quando se trata de transgredir e de romper barreiras. E as semelhanças vão um pouco além disso: já se disse anteriormente que ser velho é voltar a ser criança. Poderia-se perguntar se seria isso o paraíso reconquistado; o mais provável é que esse repovoamento não passe de uma tosca compilação de arquétipos imperfeitos, repleto de incapacidades e ao mesmo tempo prenhe de outras mais e que, à medida que o tempo passa, não deixam de se agravar, até o momento em que realmente não faz mais diferença alguma. O que nos salva então é o embarque clandestino na infância de outros seres. Além disso, o que nos resta, então, se do lugar de nossa infância estamos para sempre privados e se toda referência a esse tempo, como é talvez erroneamente considerado, não deixamos jamais de perder? A resposta talvez não seja tão difícil; de todas as lições da infância, talvez a maior seja justamente a que esquecemos com maior presteza: as técnicas do sonho. Talvez seja apenas através dele que podemos vislumbrar, mesmo que com uma verossimilhança mínima, o que está para sempre perdido e o que mesmo na nossa memória cada dia parece servir apenas para ofuscar, tornar obscuro. Dito isso, seria melhor recolhermo-nos na esperança de sonhar, desses sonhos que, raros, situam-nos no nosso verdadeiro lugar. Pouco importa se deles despertamos um tanto desorientados: é próprio da perfeição o deixar-nos por vezes transtornados. E, depois disso, com esse pouco de paz que colhemos quase ao acaso, devidamente armados para um ou dois minutos, o mais acertado talvez seja mesmo tornar a dormir.
Claude Monet: “Un coin d’appartement”, 1875

domingo, 29 de julho de 2012

Quando as palavras nos abandonam

Embora na verdade tivesse uma certa aparência de ritual, não havia muito mistério nisso de escrever. Basicamente, eram apenas um ou dois pré-requisitos a serem respeitados, alguma inspiração e o trabalho de colocar-se à escuta, e o texto nascia fluente, como se eu apenas transcrevesse algo que já existia inteiro em sua forma final, mas em outra esfera. Tudo na verdade muito simples, pouca coisa para explicar e nada para entender. O leitor atento terá percebido que usei o verbo no passado: “havia”. Pois, de alguns meses para cá, escrever se tornou tudo, menos um processo simples, e não é verdade que não tenha me esforçado. Muito pelo contrário. Gastei semanas em tentativas inúteis de produzir algo que lembrasse a dignidade de textos anteriores, mas era como se nada do que brotasse de minhas mãos tivesse o direito de sobreviver para contar sua breve história de inexistência. E verifiquei por experiência própria o fato de que nos acostumamos a tudo, ou a quase tudo: eu já havia me habituado a esse processo contínuo de escrever para descartar, muitas vezes sem mesmo perder tempo em releituras vãs, que, por si, não trazem sopro algum ao que já nasce sem vida. Tudo em vão.
E, embora não pudesse ser assim considerado, como já disse, busquei as aparências de ritual para procurar vencer esse silêncio que, em lugar das antigas palavras querendo vir ao mundo, passou a me habitar de uma hora para outra, quando eu menos esperava, e que me fez mudo ante um mundo que, de um momento a outro, se tornara paradoxalmente de uma eloquência nunca antes experimentada, ao menos para mim. Conforme escreveu Susan Sontag em um ensaio, em literatura o tempo existe para que não aconteça tudo de uma vez, enquanto que o espaço serve para que não aconteça tudo com a mesma pessoa. O fato é que, por algum tempo, senti como se eu fosse a exceção viva dessa regra, sem tempo e sem fôlego para assimilações. Se eu mesmo disse há tempos atrás que as palavras nascem do silêncio, a minha dedicação em observar essa ausência de ruído conseguia produzir apenas ecos vazios e cópias idênticas em significado a essa mudez de que de me vi tomado.  E a escrivaninha, preparada como um altar para ofícios sagrados, continha livros, canetas-tinteiro, papel branco e o violino em estanho inclinado em seu suporte. Tudo ao som de “Clair de lune”. E tudo em vão, outra vez. Da experiência, só restou a comparação com outros altares, outras mesas, como aquelas que, relembrando tempos imemoriais, reúnem até hoje congregações em torno da repartição dos pães, do vinho. Seria essa comparação uma inveja guardada ou expressão de desejo por reunir-me a esses irmãos? Pode ser. Creio que talvez, a essas alturas e nas atuais circunstâncias, seria bom e consolador, já que as palavras me deixaram só, pertencer a alguma coisa que seja. Mas para isso é necessário antes de tudo fé, e pré-requisitos não podem ser fabricados de uma hora para outra, para nosso uso. Como seria fácil se assim fosse. E, por uma questão de princípios, mentir é coisa que não faz parte de meus hábitos.
Tendo me tornado uma criatura do silêncio, ou de sujeito momentaneamente privado de palavras, procurei ampliar meu conhecimento musical. Nenhum esforço é vão, e posso dizer mesmo que ganhei muito com isso. Novos intérpretes, novos instrumentos, novos gêneros... é incrível a habilidade que alguns musicólogos possuem – ou acreditam ter – para reunir todo um período – no caso, a Inglaterra elisabetana, em apenas dois ou três discos. Impossível deixar de questionar que critérios foram levados em consideração para tais compilações. Quantos instrumentistas e compositores terão dedicado suas vidas inteiras a compor e, no momento da seleção, por uma simples questão de opinião, foram deixados de fora? Outra coisa: nesse período em que permaneci ágrafo, ao contrário do que talvez se imagine, li muito. Na verdade, não tendo a me sussurrar no ouvido vozes dizendo sobre o que escrever, li como nunca antes na vida. Diga-se também de passagem que o meu trabalho também não ficou prejudicado com esse meu não tão repentino silenciar. Para usar de sinceridade, talvez a ausência de palavras já se anunciasse no instante exato em que, ainda menino, brotaram as primeiras palavras, décadas atrás, das quais tenho pouca recordação, e creio não ser errado supor que o fim de qualquer coisa que seja está já em seu início, em gestação. Algumas questões se tornam inevitáveis, não apenas a quem escreve, mas a todos nós: há quanto tempo se faz da escrita razão de viver? Quantos morreram no cumprimento desse ofício? Em que a humanidade melhorou com toda a dedicação dos homens que se sacrificaram para lhes legar um universo de palavras? O que as pessoas leem, hoje em dia? Com o que estarei contribuindo, se deixar de ler ou estudar partituras para dizer – suprema presunção – algo novo? No momento em que nos propusemos tais questões, mesmo que permaneçamos longe das respostas exatas, é natural que alguma verdade se atinja, mesmo contra nós mesmos – a realidade às vezes dói. (E se não perguntamos, o que, mais precisamente, estamos fazendo nesse mundo?). Mesmo que as grandes verdades já tenham sido todas ditas, e de maneiras muito mais inspiradas que esse meu escrevinhar sem o mínimo apuro. E que, malgrado deixarmos de fazer coisas mais produtivas, o fato é que a resposta é não, as pessoas não irão ler o que escrevemos especialmente para elas. E, mesmo que lesse, a humanidade, por uma questão de ignorância, permanece unida apenas no que ela tem de pior: a própria ignorância e a aversão a verdades duras. Pergunto-me se acaso não estarei sendo crítico demais para com meus semelhantes. Em caso afirmativo, aceito de bom grado a pena com que queiram me punir, feliz por estar equivocado. Mas não vejo necessidade de punição: pois o que seria pior que escrever para ninguém?
Isso posto, talvez agora eu possa voltar a selar a paz com as palavras e quebrar esse silêncio de tantos meses. Na verdade, para ser mais exato, não era silêncio o que havia em meu cérebro, mas algo ritmado, como um repicar de sinos. E, pensando nos músicos elisabetanos esquecidos, lembro de John Donne: “A morte de cada homem diminui-me, porque eu faço parte da humanidade; eis por que nunca pergunto por quem dobram os sinos: é por mim”.
(Da escrita deste texto, fica uma lição, se houver um próximo nessa coisa incerta de escrever: lembrar de ao menos tentar abrir mão das citações e frases de efeito. Que Donne me perdoe por hoje, pois não era uma questão de efeito, mas sim de conteúdo. Por hoje, era só, e muito obrigado).

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Algumas palavras sobre o legado de nossos antepassados

“Muitas pessoas olham para o mundo e se perguntam: por quê? Eu penso em coisas que nunca existiram e me pergunto: por que não?”
George Bernard Shaw
A expressão pode até parecer estranha ou pouco adequada ao contexto, mas talvez a melhor maneira de definir o continente europeu à época do início da imigração alemã seja sob a forma de um grande museu de paradoxos. Entre os diversos aspectos a serem considerados, estava o fato de muitos países se encontrarem numa situação de total devastação após as derrotas napoleônicas. A esse respeito, o filósofo Will Durant se interroga por que a primeira metade do século 19 “levantou, como vozes da época, um grupo de poetas pessimistas” na literatura. Na música, esse aspecto pouco afeito à vida e à sua continuidade encontrou vozes altamente expressivas em compositores como Schubert, Schumann, Chopin e o próprio Beethoven em seu período tardio, pós-Nona Sinfonia: a famosa Ode à Alegria, que encerra essa grande obra estreada em 1824, não poderia ter vindo à luz numa atmosfera menos condizente. Na filosofia, o espírito não era outro: Arthur Schopenhauer publicava, em 1818, sua “grande antologia do infortúnio”, intitulada O mundo como vontade e representação, que, poucas décadas após seus surgimento, se converteria em uma das mais importantes vigas de sustentação do pensamento ocidental. Segundo Durant, “por toda a parte, no Continente, a vida tinha que recomeçar do zero, para recuperar dolorosa e lentamente o civilizador excedente econômico que havia sido consumido na guerra”. Também entrou para a história uma frase de Goethe que ilustra e define o estado de ruína desse período: “Agradeço a Deus por não ser jovem em um mundo tão inteiramente liquidado”.  
Se por um lado a situação era consequência da guerra, por outro a miséria era trazida por outra revolução, essa de caráter industrial. De início verificados na Inglaterra, aos poucos os frutos inesperados do progresso e dos avanços tecnológicos se estendiam para o resto da Europa, substituindo a mão de obra humana por máquinas, levando dessa forma milhares de trabalhadores, como luveiros, ferreiros, carpinteiros e tecelões ao desemprego e, em consequência, à miséria. A esses fatores, pode-se acrescentar, a respeito do empobrecimento no campo, as sucessivas divisões hereditárias. Outro motivo causador de descontentamento era o serviço militar obrigatório, que, em tempos de guerra, estendia-se até que a paz fosse restaurada.
Havia também os interesses do Império brasileiro na vinda de imigrantes; não se pode esquecer que a esposa de Dom Pedro I, Leopoldina, era filha do Francisco I, da Áustria. Consciente da situação do país de origem da imperatriz e atendendo de início ao interesse de formar um exército, para depois voltar sua atenção aos camponeses, o governo imperial tratou de criar as condições necessárias para a vinda dos primeiros imigrantes. A primeira leva, como se sabe, aportou nas margens do Rio dos Sinos em 25 de julho de 1824. Inicialmente, eram concedidos a cada um 77 ha de terra, além de ferramentas, gado, sementes, entre outros auxílios. Contudo, sabe-se que tais promessas não foram cumpridas na totalidade dos casos. Bastante difundida é a seguinte frase, repetida a muitos dos alemães que aqui chegavam: “Aqui está a terra. De agora em diante, vire-se”.
Conhecidos por um grande sentimento de apego às raízes e à cultura de seu idioma, o chamado germanismo, a imigração em princípio pode ter parecido uma ideia absurda a muitos alemães da época. Contudo, diante de um quadro amplamente desfavorável, parece natural que recomeçar a vida em outro país, na chamada “Terra da liberdade”, tenha sido visto como o único ponto luminoso no horizonte. A frase do dramaturgo Bernard Shaw, na epígrafe, dependendo do contexto em que for observada, sugere que muitas vezes os grandes momentos da história nascem exatamente de seu aspecto de total absurdo, em meio a momentos da mais absoluta calamidade, para a qual não existe solução senão no impensável. Do contrário, como entender que tantos homens e mulheres de todas as idades tenham concordado em despedir-se para sempre de sua terra de origem, de seu passado, de seus familiares, para embarcar em uma aventura que não era o fim das dificuldades, mas o começo de uma outra grande saga?
Hoje, passados quase dois séculos, não falta quem afirme que tal visão heroica do ato desses desbravadores não é fiel, e sim exagerada, romântica, pois de fato não havia alternativa para o caso de desejar-se prosseguir e continuar a tarefa designada a todos, que é viver. Todavia, um fato é consensual entre os descendentes de imigrantes: todos que buscam no passado as origens da família e sua história encontrarão basicamente fome e miséria. Pouco numerosas são, entre os imigrantes, as partículas sinônimas de nobreza, tal como von ou, de uso ainda mais raro, van; caso houvesse, seu uso se perdeu, entre muitos outros costumes. Mas a verdade inegável é que quem buscar se inteirar do seu passado e de suas raízes encontrará, salvo raras exceções, uma outra espécie de nobreza, aquela que não vem de berço, mas que costuma nascer aos poucos e em silêncio, não apenas em momentos extremos, mas também na simples vivência do cotidiano; uma forma de nobreza que permanece quase sempre inadvertida para quem realmente a possui e que guarda grande parentesco com a simplicidade. Ela surge através da maneira como se encara a vida, na postura ante seus constantes desafios, fazendo e escrevendo, no exercício de responder diariamente aos ditames do destino, através do trabalho, da abnegação e da ousadia, a sua e a nossa história.



Tal modo de ver pode levar-nos a questionar o valor e a real efetividade de nossas atitudes em relação ao passado, mais exatamente no que fazemos para preservá-lo e honrá-lo. Trata-se de uma questão que leva a pensar mais uma vez em Goethe. De acordo com uma frase sua, “O legado de teus antepassados só se torna teu através dos teus próprios méritos”. Eis algo em que pensar, não apenas nesta data de 25 de julho, mas em todos os outros dias.
Pedro Weingärtner: Tempora Mutantur, 1898
Angelica Kauffman: retrato de Johann Wolfgang von Goethe, 1775

sábado, 30 de junho de 2012

Outra vez a humildade, as noites estreladas e Van Gogh


Uma das questões que me proponho com maior frequência é sobre a possibilidade – ou não – de escrever sem levar em consideração o momento exato em que alinhamos as palavras e as dispomos de maneira a que sirvam ao nosso propósito de dizer algo que tenhamos em mente e que, segundo nosso modo de pensar, acreditamos ter alguma utilidade ao público-alvo. Porque, ao menos no meu modo de vivenciar a escrita, qualquer coisa que resulta em um texto, na maior parte das vezes, nasce dos acontecimentos mais fortuitos, aqueles que, prosaicos, constituem os momentos mais triviais da minha rotina de cada dia. Escrever não é mais que uma maneira de assimilar melhor fatos que, não fosse o modo como os organizo em parágrafos, permaneceriam na categoria de “achados e perdidos”, aguardando uma assimilação lenta, que se dá por etapas, muitas vezes trabalhosas, até que acabem fazendo parte de um modo de ser e de pensar. É inevitável que, nesse processo, os assuntos se tornem recorrentes e reapareçam de tempos em tempos, e não creio na possibilidade de ser de outro modo; pois o que nos choca, o que nos chama atenção, ou o que nos parece belo, são coisas que pertencem a categorias já estabelecidas, que são acrescidas, com o passar do tempo, de novos elementos, de novos modos de ver, numa lenta elaboração daquilo a que normalmente se chama identidade. Sei que não é tão simples, mas é o que posso dizer por enquanto.
Não faz muito tempo que postei neste espaço um texto em que lembrava um antigo hábito de meus ancestrais, hábito que me esforço por manter e, ao menos dentro de minhas pequenas possibilidades, legar aos que deverão ficar: o ato de contemplar as estrelas. Não ignoro que eram outros tempos e que, de lá para cá, a moderna tecnologia colocou à disposição dos meus contemporâneos um número bastante elevado de novas maneiras de passar seu tempo à noite, e, dessa forma, os céus foram pouco a pouco perdendo o seu público para o capítulo da novela ou para o facebook. As novas gerações, privadas de tal espetáculo noturno, acabaram também perdendo um ganho secundário que seus antigos apreciadores levavam de brinde: o senso exato de sua dimensão e, consequentemente, da noção de humildade. Não quero dizer que, para ser humilde, é preciso postar-se com certa frequência à noite sob abóbadas estreladas e esperar que, sob sua luz, ela exerça magicamente seu efeito de choque de realidade. Basta apenas não perder a noção de si mesmo, levando em consideração mesmo os aspectos mais básicos, como a consciência da finitude e a noção de, seja qual for o número de pessoas que se tenha como contatos na já mencionada rede social, o que conta mesmo é o número, geralmente muito restrito, de pessoas que realmente logramos atingir, e mesmo assim, de uma maneira bastante limitada, como uma ou outra ideia, uma palavra no vocabulário, etc. Isso sem perder de vista que, seja qual for a nossa contribuição na paisagem em nosso redor, ela não sobreviverá a uma ou duas gerações, até a sua total extinção.  Por pensar desse modo, acontece de eu às vezes sou considerado amargo, talvez também em razão da forma como expresso minhas crenças, sempre recorrendo a palavras tais como finitude, limites, etc. Em minha defesa, repito o que anteriormente já escrevi: é exatamente no fato de sermos transitórios que reside nossa grandeza. Tenho plena consciência do lugar-comum que as linhas acima representam. Escolho, porém, correr o risco de ser pouco original, passando de um momento a outro, e sem pudor, a ser isso mesmo: antigo.
Não existe exceção que confirme a seguinte regra: sempre escrevo sob o efeito de um entre dois sentimentos distintos: o encantamento e a perplexidade. Embora possam muitas vezes ser confundidos, existe um contraste polar entre esses dois hemisférios. São, todavia, duas faces de uma mesma moeda. O que me mobiliza hoje e que me leva a pensar nos meus bisavós, suas enxadas e suas estrelas, é a percepção da incapacidade, ou da falta de vocação, não sei, de certas gerações para as noções mais rudimentares de humildade. A respeito dessa virtude, dizem-se muitas coisas, entre as quais, o fato de ser ela mãe de todos os demais dons; pelo pouco que me é dado conhecer, sou ignorante a respeito da veracidade dessa afirmação. Mas acredito que nela haja muita lógica: tenho grande dificuldade de entender como se poderia desenvolver dons, qualidades, enfim, virtudes, se as pessoas em questão revelam imensa dificuldade em ter um mínimo que seja de humildade. Não que eu reprove, em algumas pessoas, a alta conta em que se têm a si mesmos; difícil, isso sim, é concordar com um fato tido por elas como indubitável, indiscutível: o fato de sempre julgarem estar certos sobre tudo e a crença de que jamais cometem erros. A situação, que parece corriqueira, se agrava no momento em que esses próprios seres, do alto de seu pedestal, começam a olhar para baixo e buscam nos levar a imitar o seu exemplo e segui-los naquilo que creem possuir de mais genuíno: a própria humildade. E me questiono se está errado concluir que a arrogância, isto é, o extremo oposto da virtude em questão, conduz fatalmente à cegueira, impedindo não só que se enxergue as reais dimensões de si mesmo, como também levando a um vicioso círculo, que culmina, de maneira invariável, no desenvolvimento dos piores e mais lamentáveis defeitos. Talvez a origem disso tudo esteja na supressão do silêncio, sobre o qual já me detive anteriormente, e na privação de algo fundamental para o desenvolvimento da personalidade: o saber olhar-se a si mesmo em profundidade. Penso que a explicação para tal fenômeno esteja nas palavras de Lars Svendsen, em sua obra A filosofia do tédio: “Em vez da solidão, abraçamos o egocentrismo, e nele somos dependentes dos olhares de outros: tentamos preencher todo o seu campo de visão, procurando nos afirmar. O egocêntrico nunca tem tempo para si, somente para o reflexo de si que encontra nos outros. Ele nunca encontra paz em relação a seu pequeno e encolhido eu, no entanto é forçado a inflar um eu exterior de enormes proporções – mas trata-se de um eu gigantesco, e quem o inventou tem cada vez mais dificuldade de preenchê-lo”.
Isso posto, lembro uma vez mais de meus bisavós e suas noites luminosas, imortalizadas sobretudo por Van Gogh. E me vejo diante de dúvidas, tais como saber onde foram parar, por exemplo, o amor ao silêncio que nasce juntamente com o amor à música, bem como o amor à riqueza das palavras. Mas meus ancestrais, bem como seus hábitos, estão mortos e enterrados há anos, e o horizonte que vislumbro à minha frente não é dos mais animadores. Todavia, quando o nosso próprio tempo não nos traz alento, sempre é possível recordar o passado. Muitas vezes esse é o único consolo que nos resta.
(Peço a meus leitores que perdoem as repetições. E, uma vez mais, este texto não teria sido possível sem a referência ao filósofo norueguês. O caminho para me considerar escritor, junto com a capacidade de concisão, está muito além da linha do horizonte. Mas não penso em desistir, humildemente ou não. Aliás, não creio ser possuidor dessa virtude: é realmente humilde apenas aquele que se desconhece como tal).
Vincent Van Gogh: “Starry Night over Rhone”

terça-feira, 12 de junho de 2012

De esperas e de significados

Nas últimas semanas, escrever tem sido tarefa inglória. Por mais que, com a alma embebida em livros, música e imagens, me coloque diante da escrivaninha na tentativa de dizer qualquer coisa brotada dessas leituras, audições ou contemplações, o fruto de meu esforço se revela sempre por meio de palavras que, numa ânsia exagerada de comunicar algo, tiveram uma morte tímida e prematura, antes que pudessem dizer qualquer coisa no pouco tempo em que estiveram no mundo, ou na tela. E do desaparecimento imprevisto e indesejado dessas frases natimortas, carrego a culpa e a responsabilidade, não de lhes vingar em mim o fim triste, mas de procurar dizer, em outros dias e em melhores condições, que sim, elas existiram, e que, por falha minha, não cumpriram a função para a qual foram criadas. Guardo saudades sobretudo do espaço em branco, das muitas noites em que, sentado neste mesmo lugar, as frases se formavam praticamente sem a minha intervenção, procurando juntar-se as palavras umas às outras, como se já existissem em sua forma final em outro plano, bastando eu postar-me, como agora, à espreita para que elas venham, como nas antigas noites, completar um círculo no qual meu papel parecia ser o de mero coadjuvante. Pois é assim que me vejo nesse exercício de escrever: como alguém que sabe que seu lugar é a parte de baixo de uma hierarquia formada, em ordem decrescente, pelos vocábulos, pelas frases, em seguida pelos parágrafos e, num nível mais abaixo, eu, o escrivão. Sei que parece um tanto místico, mas, a partir de minhas pequenas experiências com a escrita, posso dizer com sinceridade: é assim que funciona. São sempre inúteis quaisquer tentativas de subverter a ordem. Como disse certa vez a um amigo, não somos nós que determinamos a hora de escrever; esse ofício exige que nos vejamos com humildade e que reconheçamos que é a escrita e as palavras que escolhem o momento em que desejam descer de suas alturas. Faz muito tempo que disse isso, mas pouca coisa mudou em relação ao conteúdo.
Pensei por um momento que a diferença entre a noite de hoje e as anteriores estaria no fato de saber previamente o assunto a ser abordado, mas não é verdade. Esse constitui mais um entre os tantos aspectos que não decidimos. Pois na maioria das vezes o tema era algo que eu apenas percebia por volta da terceira ou quarta linha, e depois bastava seguir o fio do raciocínio. Embora isso não seja uma regra, percebo agora que o assunto de hoje é esse mesmo: a ausência de tema, o vazio de significado. Possivelmente nas vezes anteriores também tenha sido essa a direção correta, mas que acabei ignorando. Humano que sou, esqueço às vezes o quanto é absurda essa nossa necessidade de que tudo, inclusive as palavras, faça sentido. Algumas vezes é possível corrigir os erros cometidos; porém, e infelizmente, na maior parte dos casos, é tarde, e lamentar pelos erros também é vão. E, à espera de um tema melhor que a ausência de significado, lembro-me de Vladimir e Estragon na peça de Samuel Beckett, esperando (inutilmente?) por Godot, e percebo através dos diálogos desses dois personagens o quanto é absurda a espera do que quer que seja. Absurda, sim. Não condeno os que pensam sempre que o melhor da vida ainda está por vir, ou os que buscam incessantemente pelo amor ideal; há ainda os que esperam pelo retorno do messias, vendo nos desastres naturais, provocados pela nossa própria espécie em séculos de abusos contra a natureza, sinais inequívocos de que ele está por chegar. Outros, menos precisos, esperam pela felicidade, sem saber dizer, quando interrogados a respeito, no que ela consistiria. Em todo caso, seja o que for, acreditam que a coisa esperada está sempre no futuro. Há dias atrás, numa livraria, vi uma frase num cartão, sem indicação de autor; transcrevo-a aqui: “Não existe caminho para a felicidade. A felicidade é um caminho”. Eis algo em que acredito, e se me fosse dado dizer algo aos que esperam, seja pelo que for, diria simplesmente isso, cuidando de acrescentar, de minha parte, que não esperem viver uma felicidade apenas no futuro, mas que buscassem vivê-la aqui mesmo, nesta vida. Porém, não são poucos os que creem numa espécie de obrigação de sentir-se aflitos, para serem consolados, e assim por diante.
                          
Apesar de absurda, não creio ser inútil a espera de Vladimir e Estragon. Afinal, é preciso viver. Por sua intensidade e por sua beleza, compartilho aqui um trecho da obra: “Será que dormi, enquanto os outros sofriam? Será que durmo agora? Amanhã, quando pensar que estou acordando, o que direi desta jornada? Que esperei Godot com Estragon, meu amigo, neste lugar, até o cair da noite? Que Pozzo passou por aqui, com seu guia, e falou conosco? Sem dúvida. Mas quanta verdade haverá nisto tudo? Ele não saberá de nada. Falará dos golpes que sofreu e lhe darei uma cenoura. (Pausa) Do útero para o túmulo e um parto difícil. Lá do fundo, na terra, o coveiro ajuda, lento, com o fórceps. Dá o tempo justo de envelhecer. O ar fica repleto de nossos gritos. (Escuta) Mas o hábito é uma grande surdina. (Olha para Estragon) Para mim também, alguém olha, dizendo: ele dorme, não sabe direito, está dormindo. (Pausa) Não posso continuar”.
(Uma das muitas razões de eu não me considerar escritor é a dificuldade, ou a quase impossibilidade, de escrever sem recorrer a citações. Não guardo ilusões quanto a conseguir ser coerente; sei de minha incapacidade nesse sentido. Busco apenas ser sincero. Mas sei que isso não basta).
Sei o quanto há de presunçoso em abordar temas como vida e morte, acaso e destino, existência ou não de sentido, e se falo deles é na condição de simples mortal, a quem tais assuntos inquietam, e é tudo que posso dizer. Creio que haja uma maior possibilidade de erros quando o assunto diz respeito a todos. E, a respeito da ausência de significado ou de sentido em calar, falar ou mesmo escrever, talvez um trecho de Lars Svendsen (de quem voltarei a falar em breve neste espaço) seja pertinente: “O significado que buscamos na ausência de significado, a experiência na ausência de experiência e o tempo na ausência de tempo – serão eles meramente ilusões? Uma sensação de perda não garante que qualquer coisa tenha sido realmente perdida, e, portanto, não garante também que haja algo – um tempo, um significado ou uma experiência – que tenha de ser recuperado”.
(Enquanto escrevia este texto – que não sei como classificar – esperava por um e-mail. Mesmo sendo pequena a esperança de recebê-lo, a espera inútil me decepcionou um pouco. Mas ficaria imensamente grato ao meu pequeno círculo de leitores pela licença de dizer apenas mais duas breves frases. São bastante simples, e se resumem a isso: não esperem. Vivam).
Fotografia: Samuel Beckett