segunda-feira, 26 de março de 2012

Kathleen Ferrier e a pungente arte da transcendência

Ao iniciar um texto, acontece-me às vezes de ter apenas uma noção vaga do que virá após a primeira frase. Embora seja certo que o assunto já esteja escolhido, muitas vezes é difícil prever as vias que o tema irá trilhar. Longe de ser um problema, essa característica da escrita é o que a torna ainda mais fascinante aos meus olhos, mesmo que os resultados quase sempre deixem a desejar. Hoje, além dos pré-requisitos mais habituais, como o recolhimento e o silêncio, ocorre algo que também não constitui novidade, mas que traz um receio, ou, na verdade, um senso da justa medida das coisas: a consciência de que a minha capacidade de expressão está muito aquém do tema proposto, além de saber da quase inexistência de leitores que, por mais que eu me esforce na escolha de adjetivos e em descrições, compreenderão o que tenciono transmitir. Creio que não entenderão porque, apesar de existirem parâmetros fixos de qualidades que permitem a atribuição de juízos de valor, não é novidade que o sentimento que temos diante de qualquer coisa que seja, sendo algo relacionado à arte ou não, feitas as contas, não passa na realidade de mera subjetividade, ainda mais quando se trata da característica mais particular que uma pessoa pode ter, muito mais eloquente que impressões digitais: a voz, e, no caso em questão, uma certa voz.
É bastante conhecido o modo como Michelangelo definia seu ofício de escultor: tendo diante de si um bloco de mármore, sua arte consistiria em remover tudo que não fazia parte da forma desejada. Creio que com a voz humana, tida como o mais sensível entre os instrumentos musicais, o processo seja semelhante. Tem-se como ponto de partida uma matéria-prima em estado bruto e se dá início a um trabalho através do qual toda impureza é retirada, até que, depois de um longo processo de lapidação, reste somente a voz, límpida, pura e – o que a torna tão preciosa – única no mundo. É em razão do conhecimento, mesmo que vago, dos esforços e da dedicação necessários para esse processo que me encho de assombro e da mais completa perplexidade diante da voz da contralto inglesa Kathleen Ferrier.

Sempre quis escrever algo sobre essa intérprete única de Mahler – sobretudo de Mahler -, Brahms, Schubert, entre outros, mas a simples audição de suas gravações era um constante desestímulo. Por essa razão, deixei seus discos de lado por algum tempo. Mas não sei até que ponto o distanciamento de alguns dias, semanas ou mesmo meses ajuda quando nos sentimos tão intimamente ligados a personalidades que, a despeito de já não viverem no momento em que nascemos, em muitos casos são para nós tão conhecidos quanto alguns de nossos amigos. Por fazerem parte de nosso dia a dia, esse laço, como tantos outros vínculos, algumas vezes, dependendo da intensidade de nosso apego, é algo quase visceral. Esse é meu caso em relação a Kathleen Ferrier e a sua arte: muito mais do que simples admiração, é uma espécie de fervor. A perplexidade a que me referi acima pode ser explicada pelo fato de perceber que a característica que mais se evidencia em seu timbre é sua rara naturalidade, algo muito espontâneo. Em outras palavras, observa-se que seu registro grave não é o resultado de anos de dedicação em conservatório, mas algo muito particular, apenas seu. Os próprios professores a quem ela recorreu reconheceram que seu trabalho se resumiu a ensaiar seu repertório e a afinar sua voz, que, desde o primeiro dia, estava já toda ali. Some-se a isso a grande raridade do registro de contralto; na maior parte das vezes, o repertório para essa voz é cantado por mezzo-sopranos concentradas nos graves.
Toda a intensidade e a raríssima beleza da voz, além da extrema sinceridade das interpretações de Ferrier, podem ser verificadas numa discografia que muitas vezes lamentamos não ser maior: infelizmente, sua carreira não durou mais que dez anos, uma década verdadeiramente radiosa – o que, por outro lado, contribui em muito para tornar tais gravações ainda mais preciosas. Do seu catálogo, além de obras de Mahler, é digna de nota a gravação, feita em dezembro de 1947, da Rapsódia para Contralto, coro masculino e orquestra, op. 53, escrita por Brahms com base em texto de Goethe. Na interpretação dessa obra, a contralto inglesa imprimiu à peça o tom de resignada contenção que marcaria a maior parte dos registros posteriores dessa obra. Três anos depois, foi a vez das Quatro canções sérias, op. 121, também de Brahms, nas quais o estado de espírito, de grave austeridade, forma um verdadeiro teste de autenticidade para qualquer intérprete.
Autenticidade, aliada à mais completa entrega que se possa imaginar, talvez seja a palavra-chave para definir aquela que seria a gravação mais famosa de Kathleen Ferrier, realizada em 1952, e que entraria para a história da música como um dos clássicos do disco: A canção da terra, de Gustav Mahler, regida por seu discípulo Bruno Walter. O compositor começou a musicar partes desse ciclo de poemas chineses em 1907, pouco depois da morte de sua filha mais velha, de apenas quatro anos. Pouco depois desse acontecimento, outro golpe aguardava Mahler: o diagnóstico, por um especialista, das condições precárias de seu próprio coração. Pode-se imaginar, a partir dessas informações básicas, o significado e a força dessa obra. Dizer que se trata de um verdadeiro testamento musical é dizer pouco. Muito mais do que isso, o ciclo forma uma expressão da filosofia do compositor, baseada em um sentimento de amor à vida, à natureza e à terra, de cujos benefícios podemos desfrutar por um breve período para logo depois partir, enquanto esta se renova ano após ano, eternamente. A parte final, Der Abschied, isto é, O adeus, é uma síntese tocante e de rara intensidade dessa realidade. Segundo o crítico Michael Kennedy, “é praticamente impossível ouvir-se esta gravação sem levar em conta as circunstâncias pessoais dos artistas envolvidos – Walter, o amigo do compositor, e Ferrier, que soube, enquanto fazia a gravação, que o Abschied seria seu próprio adeus e que a terra bem-amada só voltaria a florir para ela mais uma vez. Como Mahler, ela respondeu ao desafio da sentença de morte (por câncer, em 1953) atingindo o pináculo de sua arte. Sim, é verdade que seu Sol agudo sente um pouco o esforço, mas o fulgor, a vibração e a compaixão transcendental de seu canto aqui o colocam acima de qualquer crítica mais negativa”.

Enquanto escrevia esse texto, soube que o próximo dia 22 será o centenário de nascimento de Kathleen Ferrier. Para ser sincero, devo confessar que soube da proximidade desse centenário apenas por acaso, ao procurar por fotografias para ilustrar este texto: ou seja, não passa de uma feliz coincidência. Talvez eu esteja equivocado, mas penso que essas datas têm sua importância, sim, mas apenas para nos lembrar que grandes personalidades das artes e da filosofia são, antes de tudo, pessoas como nós. De resto, não dou muita importância, isso por pensar que certos artistas, em virtude de sua grandeza, depois de deixarem este mundo, passam a habitar outra esfera. Não gostaria de chamá-la de eternidade; mas creio que, de certa forma, constitui uma espécie muito particular  de imortalidade, reservada a poucos. E reverenciar esses artistas, bem como sua arte, é, como já disse, uma questão de fervor, sentimento que independe por completo de datas.

Kathleen Ferrier, fotografia de Houston Rogers
Gustav Mahler, retrato de Michael Dudash

quinta-feira, 15 de março de 2012

Quantos somos, afinal, e o que enxergamos – Breve reflexão sobre Pirandello, Ofélia e Nietzsche

O ato de escrever, em alguns casos - e forçando um pouco a analogia -, pode ser comparado a uma tentativa de olhar-se no espelho com a finalidade de aproximar-nos um pouco do que somos e do que pensamos, diminuindo, através das respostas que surgem aos poucos, as vastas extensões de fatos que permanecem sempre no universo do desconhecido. É óbvio que a compreensão da maior parte das questões teima em ficar sempre muito além de nosso sempre limitado alcance, e se é por acaso o fato de que essas constituem para nós as dúvidas de mais premente necessidade de esclarecimento, é coisa que ignoro. Hoje o desafio do espaço em branco é duas vezes maior: além da obrigação moral de preenchê-lo com algo que valha um pouco mais que a alvura imaculada, há a tentativa de encontrar soluções possíveis para algo que pertence a esse campo mencionado acima: o do desconhecimento, sobre o qual me detenho mesmo sabendo da pouca possibilidade de encontrar algo além da incerteza - essa sim, constante. Contudo, ciente da pequena possibilidade de sucesso quanto aos resultados, ficarei muito satisfeito se encontrar, através dessa divagação, um pouco de paz em relação a algo indefinível, sem nome e que talvez exista em nós com o propósito único de nos levar à reflexão, como inimigo eterno da aparente quietude das respostas definitivamente esclarecedoras.
Quando o assunto em pauta é nossa identidade, o pensamento muitas vezes cede espaço ao senso comum. Sabemos que se trata de algo que vamos construindo ao longo dos dias que compõem nossa vida e que, em função de sucessivas experiências, diálogos, leituras, decisões, tomadas de postura etc., está sempre sofrendo alterações e acréscimos. É um processo que só encontra interrupção no final da jornada, e mesmo assim seremos surpreendidos entre uma posição e outra, como que em fuga, talvez no auge desse fenômeno que é a nossa formação. Fiz referência acima ao espelho, objeto cuja fidelidade em relação à realidade é tida como inquestionável. Contudo, creio que esquecemos com mais frequência do que deveríamos que, quando nos miramos na superfície aquosa, nós o fazemos com nossa visão subjetiva: a imagem que vemos refletida depende em tudo da nossa própria lucidez e lealdade em relação a nós mesmos. Lembrando Hume, talvez muito mais coisas, e não apenas a beleza, estejam na mente de quem contempla, e deformações ou aperfeiçoamentos surgem a partir desse fato. Em todo caso, não é diante do espelho, esse símbolo da vaidade humana, que nos deparamos com as maiores surpresas, ou mesmo alguns eventuais sustos. Eles podem vir tanto de um comentário banal a nosso respeito como da percepção básica de que a nossa visão de nós mesmos raramente coincide com a imagem que os outros têm de nós. Quando confrontadas, essas duas, três, quatro... (ad infinitum) identidades distintas atribuídas a nós mesmos nos lançam uma silenciosa interrogação: qual delas é a mais próxima da verdade? Quando vivemos rodeados de muitas pessoas, podemos perguntar, sem a mínima esperança de encontrar alguma resposta, de quantas identidades, afinal, somos constituídos.
Pela presteza em nos oferecer fórmulas prontas, a realidade à nossa volta, talvez pelo excesso de informações, mais confunde que esclarece, pois, a julgar pelo que ouvimos, somos o que fazemos – principalmente num mundo materialista -, somos o que pensamos, o que comemos, o que deixamos de fazer – as escolhas -, e assim por diante. Se não me engano, o slogan da Livraria Cultura nos indica um caminho de concisão no mínimo surpreendente: “Ler para ser”. Quanto a mim, sinceramente não sei, pois estou entre aqueles que, ao buscarem respostas, encontraram tantas vias, algumas delas tão discrepantes entre si, que tudo que encontrei não passa afinal de fragmentos dispersos. Como sempre em caso de dúvida, recorro à literatura. Ao pensar nessa via de elucidação, meu contentamento me diz que sou antes de tudo um leitor. Todo o resto – que, para todos os efeitos, não é muito – veio e vem depois. Tal como Borges, sinto orgulho mais pelos livros lidos do que satisfação pelos resultados duvidosos dessa constante tentativa de encontrar alguma clareza, que é o juntar palavras não para compor outra realidade, mas como forma de interpretar e compreender essa que me cerca.
Um dos aspectos que mais me fascinam na literatura é o fato de as maiores verdades muitas vezes surgirem da fala de personagens loucos – ou que se fazem passar por tais. Acima de todos, estão Hamlet, Dom Quixote e o Rei Lear. É em Hamlet que, através do desvario de Ofélia, entre murmúrios de uma pungência extrema e dos quais apenas a melancolia lembra a fala dos privados da razão, lemos a seguinte frase: “Sabemos o que somos, mas não o que possamos ser. Deus vos abençoe”. Um dos contos mais instigantes de Tchekhov é “Enfermaria número 6”, no qual os dois únicos personagens possuidores de algo semelhante à lucidez se encontram, ao final da narrativa, internados num manicômio. Mas é Luigi Pirandello, através do seu romance Um, nenhum e cem mil, que me oferece um exemplo mais próximo do tema da diversidade de visões da identidade de uma única pessoa. As situações descritas na obra, segundo Alfredo Bosi, em seu prefácio, “levam ao paroxismo a consciência de um desajuste entre a vida subjetiva da personagem e a fôrma social, a persona que a represa de todos os lados”.
O romance mais complexo de Pirandello, escrito entre os anos de 1916 e 1926, tem um início quase banal: ao descobrir, por um comentário de sua esposa, que seu nariz pende para a direita, Vitangelo Moscarda ingressa numa cadeia de especulações metafísicas a respeito de sua própria identidade: “Quem será esse homem que mal conhece suas feições? Como o veem as pessoas mais próximas? O que restará dele uma vez subtraída sua imagem pública?”. Essas indagações acabam se revelando uma teia em que o personagem se perde de maneira inelutável, até a desintegração, estado que, por sua vez, o aproxima de uma verdade que não pode ser suportada, seja por ele, seja por seus semelhantes. É no prefácio de Bosi que encontramos o contexto desses acontecimentos: “(...) a máquina social exige, para manter-se em pé e reproduzir-se, uma engrenagem constante, um sistema de normas de comportamento dotado de um mínimo e, às vezes, de um máximo de coerência de expectativas; numa palavra, a sociedade requer uma forma. A forma enfeixa tanto as aparências físicas de um ser humano quanto as suas marcas sociais: o nome, a nacionalidade, a classe, o estado civil”. Segundo o crítico, os grandes romancistas do século XX inverteram essa perspectiva, olhando para dentro daquele sujeito que o naturalismo preferia descrever como um objeto.
A partir da simples constatação a respeito de seu nariz, tem início a via-crúcis de Moscarda, cujas reflexões formam o cerne desta verdadeira saga de Pirandello em direção à desintegração e, ao mesmo tempo e de maneira paradoxal, à clareza. Faz parte dessa trajetória o seguinte pensamento: “Houvesse fora de nós, externa a vocês e a mim, uma senhora realidade minha e uma senhora realidade sua, digo, em si mesma, igual e imutável! Mas não há. Há em mim e para mim, uma realidade minha, aquela que me dou; e uma realidade sua e de vocês, para vocês, aquela que vocês se dão – as quais nunca serão as mesmas, nem para vocês, nem para mim”.
Existe em Proust uma passagem que talvez lance alguma luz na causa do dilema do personagem de Pirandello, ao mesmo tempo em que evidencia a inutilidade de qualquer reflexão nesse sentido, incluindo esta que esboço: “(...) nossa personalidade social é uma criação do pensamento alheio. Até o ato tão simples a que chamamos ‘ver uma pessoa conhecida’ é em parte um ato intelectual. Enchemos a aparência física do ser que estamos vendo com todas as noções que temos a seu respeito; e que, para o aspecto total que dele nos representamos, certamente contribuem essas noções com a maior parte. Acabam elas por arredondar tão perfeitamente as faces, por seguir com tão perfeita aderência a linha do nariz, vêm de tal modo nuançar a sonoridade da voz, como se esta não fosse mais que um transparente invólucro, que, a cada vez que vemos aquele rosto e ouvimos aquela voz, são essas noções que olhamos e escutamos”. Pergunto a mim mesmo se me equivoco ao concluir, através dos pensamentos do personagem de Pirandello, que é justamente no sanatório que ele atinge uma espécie de iluminação, e se seria correto inferir que todo calvário conduz a uma libertação. Essas possibilidades me são sugeridas pelo seguinte trecho, perto do final de Um, nenhum e cem mil: “O ar é novo. E tudo é o que é, segundo a segundo, iluminado de vida. Desvio de repente os olhos para não ver cada coisa se fixar na sua aparência e morrer. Só assim consigo me manter vivo, renascendo a cada segundo e impedindo que o pensamento se ponha de novo a trabalhar, reabrindo por dentro o vazio de suas vãs construções”.
Vem-me à mente mais uma vez a doce Ofélia, que passa por uma dupla purificação, a da loucura e a da água em que se afoga. E me interrogo o que teria essa personagem de Shakespeare a dizer caso fosse confrontada com a conhecida frase de Nietzsche, “Torna-te quem tu és”. Questiono-me também se seria correto concluir que tanto a filha de Polônio quanto o filósofo alemão levaram sua essência humana ao grau último de purificação, iluminação talvez, estado que (lembrando-me de um trecho da quarta cena do Ato III de Hamlet), ao mesmo tempo em que leva a nada enxergar, possibilita ver tudo o que existe para ser visto: o ar incorpóreo.

Em todo caso, e para todos os efeitos, é possível que não haja afinal desvario algum no mal que os acomete. E se houver, tanto faz. Ao menos a julgar por Pascal, para quem “Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria apenas outra forma de loucura”.
Fotografia: Luigi Pirandello
John Everett Millais: A morte de Ofélia, 1852



sexta-feira, 2 de março de 2012

A casa velha: um réquiem

Quando eu era criança, era hábito nas férias de verão passar ao menos uma semana ou duas na casa de meus avós. Numa paisagem bucólica, cercado de galinhas, de vacas e de plantações por todos os lados, em contato com a natureza, encontrava uma atmosfera perfeita para ler os livros que escolhia na biblioteca pública de minha cidade especialmente para aqueles períodos de intervalo entre um ano letivo e outro. Eram dias em que eu mergulhava numa realidade em tudo diversa à daquela dos outros meses do ano: um lugar que oferecia a oportunidade de observar uma rotina vivida quase da mesma maneira como cem anos antes, ouvindo as pessoas falarem uma língua trazida por imigrantes e conservada por seus descendentes, além de ter na mesa do almoço os pratos mais tradicionais de uma culinária também preservada e por vezes, digamos, miscigenada. Fora isso, o dia a dia dos moradores daquele lugar, como me foi informado, apenas em poucas coisas havia sido modificada. Embora na época eu não tivesse muita noção desses fatos, eu valorizava muito essa oportunidade de conviver um pouco naquele lugar desbravado por meus ancestrais, que repousavam não muito longe dali. Desses tempos, guardo algumas das melhores recordações que se pode ter em relação a questões que mais tarde se desenvolveriam em meu pensamento, a saber, temas como a terra, a natureza, os livros e a arte, além de inúmeras, para não dizer infindáveis, questões envolvendo os animais, sua domesticação e a sua criação para o abate. São questões que ainda ocupam muito o meu pensamento e, se algumas delas me instigam, em outras encontro paz e sentido. Porém, mais especificamente em relação às que dizem respeito aos animais, não vejo qualquer possibilidade de encontrar paz.
Por mais importantes que tenham sido essas férias em companhia de meus avós, pelo que lhes sou imensamente grato, em memória, foi contudo outro lugar que me forneceu uma ideia (ou uma visão, não sei) de algo que me daria substrato para uma vida inteira de pensamento e de interrogações. Foram semanas que aprofundaram em mim uma tendência à divagação, algo que eu já possuía, mas que, depois daquelas semanas, se tornaria, ao lado da inquietude de pensamento, o aspecto talvez mais característico da minha personalidade: o caráter contemplativo. Eu tinha onze anos, e em vez de ir, como todos os anos, para a casa de meus avós, quis variar e aceitei o convite de um tio para passar algumas semanas em sua propriedade. Isso possibilitou que às já familiares vacas e galinhas se somassem porcos, cachorros e gatos. Além da casa de moradia, havia na propriedade imensos galpões, grandes plantações, um pomar, mata virgem e, para além dos limites de terra daquele irmão mais velho de meu pai, estradas para todos os lados e que me faziam pensar, não sei por qual razão, em uma frase que havia aprendido no colégio no ano anterior: que todos os caminhos levam a Roma. Com certeza, na época esse pensamento estava de todo ausente de minha consciência, mas percebo agora, em retrospecto, por mais aleatório que possa parecer, um sentido para essa frase: a possibilidade de que, para o desenvolvimento de nossa personalidade, a aparência da atmosfera em nossa volta, os fatos que vivenciamos ou os assuntos com os quais temos contato na mais tenra idade talvez não tenham toda essa importância que se costuma apregoar. E que muito mais importantes que tudo isso são as inclinações que já trazemos em estado de latência em nós mesmos e que despertarão de uma forma ou de outra, em qualquer cenário, em qualquer companhia e em qualquer circunstância. Se afirmar isso significa que não temos como fugir a nós mesmos, creio que seja realmente essa minha crença.
Havia, não muito distante dos galpões de meu tio, uma grande construção que era chamada simplesmente de casa velha e que era usada como depósito de milho e onde dormiam os cachorros. Já a tinha visto muitas vezes anteriormente, em visitas, mas foi apenas naqueles dias que a examinei com maior atenção. De seu histórico, sabia apenas que datava de 1897 - data afixada com muita dignidade no frontão - e que, nas primeiras décadas do século seguinte, havia sido a casa mais luxuosa das cercanias. A veracidade desse fato era atestada pelos inúmeros ornamentos que a cercavam por todos os lados, nos peitoris das janelas, na pequena escada que conduzia à rica porta de entrada, em cujo cimo e laterais, bem como no interior, havia detalhes trabalhados em estuque. Em minhas longas caminhadas pelas estradas do lugar, era comum encontrar muitas casas de imigrantes, caracterizadas todas elas pela simplicidade, e algumas datavam de épocas muito anteriores à década de 1890. Nenhuma, contudo, se parecia com a casa velha, o que me levava a concluir que não se tratava de mais uma moradia de imigrantes ou descendentes, mas da residência de uma família de grandes posses. Não obstante seu passado, havia rachaduras e em muitas partes o reboco já havia caído, deixando à vista os tijolos; muitos dos caixilhos das janelas já não tinham vidro, tudo isso sem que ninguém sequer cogitasse providenciar os devidos reparos. Talvez porque não a vissem como uma casa, muito menos como o palacete que era, mas apenas como as ruínas de um tempo há muito passado. Esses efeitos do tempo, contudo, só a tornavam ainda mais bela e preciosa aos meus olhos. Eu tinha onze anos, repito, e nunca antes me sentira tão fortemente ligado a uma construção. Para mim, portanto, tratava-se de um sentimento novo, o que me pareceu estranho, pois nenhuma das casas em que até então havia vivido me tinha despertado tal apego. Se na época me perguntassem o que via de tão comovedor naquela construção, dificilmente saberia dizer algo que não fosse relacionado a tudo que acontecera em termos de fatos históricos pretéritos e que, enquanto ocorriam, a casa, durante todas aquelas décadas, estivera sempre ali, imperturbável, por mais que sua aparência, nos dias de minha estada, pouco guardava dessa impassibilidade. Mas talvez não fosse apenas isso; todos aqueles ornatos, aquelas cores ressaltando belos detalhes ou toda a pompa maltratada pelo tempo, tudo isso lhe conferia uma leve e comovente semelhança com uma flor murcha, talvez o símbolo máximo da brevidade da vida: uma flor que, não obstante seu estado, poderia muito bem voltar a reluzir e ocupar a posição que já lhe fora própria, se naquela época houvesse uma maior consciência de preservação.
Perdi a conta de quantas horas, de quantas tardes passei em volta e no interior daquela casa imensa, imerso nos mais variados pensamentos: buscava imaginar desde respostas a questões mais triviais, como quantas gerações haviam vivido ali, até detalhes mais precisos, como, por exemplo, como era a rotina dos moradores, em que consistia seu cardápio e ainda como se vestiam. Interrogava-me também se liam, e, no caso, quais autores. Outras indagações me eram inspiradas por vestígios ainda visíveis da vida na construção, como uma marca retangular na parede, em que se percebia, pela diferença nas cores, ter sido o lugar de um quadro; em outra parede, a existência de um nicho, como os que se encontram nos templos góticos, me dizia da religiosidade dos moradores. Em outra aposento, ao lado da porta, restara um suporte em madeira e metal para roupas e chapéus. Por mais que minha imaginação funcionasse, tais detalhes apenas vinham se somar à riqueza de algo que para mim, por si só, já constituía objeto da maior admiração. E as marcas do tempo, que se tornavam mais cruéis considerando a dignidade dos ornamentos e o fato de ter sido a residência de algumas das pessoas mais influentes das redondezas, a meu ver intensificavam um sentimento de injustiça que perdura até hoje: a rápida e implacável substituição do belo e do profundo pelo novo. Mesmo que o novo muitas vezes signifique algo infinitamente pior, promove-se o desterro do conteúdo e da profundidade, mesmo que a novidade muitas vezes substitua o bom por algo vazio, não raro completamente destituído de qualquer traço de beleza e, mais ainda, de significado.
Naquele meu culto precoce ao antigo e ao caráter belo e profundo das coisas atemporais, a despeito da minha pouca idade, não esperava de modo algum ser compreendido por meus tios e primos. Pelo contrário: era-lhes muito grato pelo simples fato de aceitarem minha admiração por aquela antiga casa, por mais que considerassem tal sentimento como algo que podia ter origem apenas no fato de eu viver na cidade.
Somente a passagem de exatas três décadas me trouxe uma compreensão mais clara de minha ligação com a aparência e a antiguidade daquela casa. Foi um entendimento que me veio através da leitura de A arquitetura da felicidade, de Alain de Botton: “Se as construções podem atuar como receptáculos de nossos ideais, é porque podem ser purgadas de todas as infelicidades que corroem as vidas normais. Uma grande obra de arquitetura nos falará de um grau de serenidade, força, equilíbrio e graça a que nós, como criadores ou como espectadores, normalmente não podemos fazer justiça – e por essa mesma razão ela irá nos divertir e comover. A arquitetura provoca o nosso respeito na medida em que nos supera”.
Alguns anos atrás, soube que a casa velha não existe mais: foi demolida. Por essa razão, tenho evitado visitar meus tios e meus primos. O que não significa que não sinta saudades deles; porém, voltar àquela propriedade seria como retornar no tempo e não encontrar o passado no lugar onde ele deveria estar, para muito além da esfera de minhas recordações. É de Jorge Luis Borges a seguinte interrogação: “Quem, ao andar pelo crepúsculo ou ao descrever uma época do seu passado, não sentiu em algum momento que alguma coisa infinita se perdera?”. Talvez seja próprio aos amantes da arte esse estado de vaga confusão, esse constante interrogar-se, tendo diante de si a realidade e, na memória, algo como um vestígio, uma impressão mesmo que remota de todos os paraísos perdidos. E talvez os vislumbres que nos são dados um pouco a cada dia, por mais dadivosos que sejam, não passem de sombras pálidas de imagens que vimos em outros tempos e cujo reencontro está além de nossa capacidade imaginativa. E talvez também seja próprio do passado, como tudo que é esvaído, parecer mesmo algo único e para sempre perdido, tal como todas as coisas, enfim, marcadas pelo passar do tempo. Saudosismo em excesso? Sim, é possível, e gostaria imensamente que fosse apenas isso.
Porém, aos poucos, sei que devo me habituar aos fatos: em se tratando de respeito à memória, à beleza e à riqueza de significado, o mundo está longe de ser justo. E, entre inúmeros outros fatores, a rápida extinção dos poucos rastros de um passado vivido - e de tudo que lhe é característico -, porém aos poucos varrido completamente do alcance do tempo, do espaço e da recordação, é prova mais que suficiente dessa verdade.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Lição ancestral de humildade

Não importa o que se diga nem quem o diga, mas o fato é que existem pessoas, e elas talvez sejam a grande maioria, que são superiores e distinguem-se em especial pela dupla notabilidade de estarem acima de tudo e de terem sempre razão. E eu, que não passo de um reles amontoador de linhas que não almeja ser outra coisa além disso, admiro-as muito e fico-lhes imensamente grato por dispensarem-me de estar certo sobre alguma coisa na vida, mesmo que seja pela mais insignificante das questiúnculas. Não que deseje de algum modo comparar-me a elas; apenas pensava cá com os meus botõezinhos o quanto tais criaturas são bondosas e mesmo gentis por deixarem a nós, os insignificantes, habitarem o mesmo mundo que elas, o qual, bem o sabemos, pertence-lhes em cada centímetro, assim como os planetas em redor, bem como o sol. É esforço inútil querer um pouco de sua atenção; toda ela está comprometida com suas próprias e urgentes necessidades, às suas causas que são realmente primeiras em todos os sentidos. No máximo, o que conseguiremos é um olhar de condescendência, não de quem se apieda, mas de quem se digna, embora não mais que por um instante, a olhar para baixo e ver-nos em nossa pequenez para, logo em seguida, observarem uma vez mais o quanto são fabulosas, coisa de que não se cansam de admirar. Quando sofrem, quando se preocupam, tais pessoas, temos que estar de acordo com elas quanto ao fato de que suas dores e misérias são as maiores de que se tem notícia desde Édipo e persignar-nos com sua triste sorte. “Se nenhum deus quer se manifestar na terra, sejamos nós próprios deuses”, diz um antigo poema alemão, como que profetizando que um dia o mundo se povoaria de deuses, cada um mais magnífico que o outro em potência e ato. E a nós, mortais, não resta muito mais que concordar com as palavras de Emil Cioran: “Cada um é para si mesmo um dogma supremo; nenhuma teologia protege seu deus como nós protegemos nosso eu; e este eu, se o assediamos com dúvidas e o colocamos em questão, é apenas por uma falsa elegância de nosso orgulho: a causa está ganha de antemão”. Que Deus me proteja do grau tão absoluto de tais seres: quero continuar a exercer meu trabalho e, nas horas livres, dedicar-me ao ofício, a eles indiferente, de juntar palavras e a dedicar-me a meus livros, pelo simples fato de não desejar felicidade maior nem mais completa nesse mundo.
E, enquanto me distraio pensando nestas palavras, lembro-me do que dizem as gerações mais antigas. Nem preciso ir muito longe para colher exemplos: basta ouvir minha mãe, que, pelo próprio hábito de ficar calada, a observar, sempre teve muito a dizer, embora prefira sempre a quietude. Conta ela que, na sua infância e adolescência, como não havia televisão, o passatempo de todas as noites, após o jantar, era sentar-se à frente da casa em que morava com os meus avós e, com olhos fixos, atentos e encantados, contemplar as estrelas. Diz ela que é como se naquele tempo houvesse mais dessas formas nebulosas e brilhantes, pois o céu de sua infância, costuma dizer-me, sabendo de minhas intenções de escrevinhador, era tal que palavra alguma lhe faria jus. E me ocorre que os astros, entristecidos pelo descaso hodierno dos homens-deuses, refugiaram-se em outras galáxias, onde talvez ainda haja quem lhes dê atenção. Mas naqueles tempos, fosse inverno ou verão, era hábito passar horas com os olhos no firmamento. Meus bisavós, filhos de imigrantes e que viviam também da agricultura, quando em visita também se juntavam aos observadores do infinito. Sentados em cadeiras de palha, formavam uma plateia silenciosa e reverente, que se sabia testemunha de um espetáculo de beleza sem rival em termos de grandiosidade e que, se fosse instada a descrever o que via, preferiria silenciar a recorrer à inutilidade das palavras, por mais que os vocábulos correspondentes sempre me tenham soado de modo particularmente belo: die schoenen Sterne, as belas estrelas. Recordar os dias de trabalho e as noites de descanso e encantamento de meus antepassados me trouxe à lembrança um fragmento imortal que poderia dar testemunho daqueles dias: “A terra respira fundo em repouso e sono. Todos os desejos transformaram-se agora em sonhos. Os homens, fatigados, retornam às casas para encontrar no sono a felicidade perdida e para aprender novamente a juventude”. Ao tomar nota dessas palavras, recordo-me de um poeta que, num conto de Jorge Luis Borges, diz que “o jornalista escreve para o esquecimento e que o desejo dele era escrever para a memória e o tempo”. A ilusão, enquanto dura, parece sempre doce. Amargos são os despertares: saber que não importa se somos poetas, jornalistas ou simples amontoadores de palavras; o fato é que escrevemos todos para o olvido.

Lavravam a terra, meus avós, bisavós e várias gerações que os precederam, e, como que seguindo intuitivamente uma receita de humildade prescrita por filósofos, dedicavam as horas da noite à contemplação de um céu que lhes aliviava o cansaço do dia e também da existência, um céu que, a julgar pelo que se diz, não é mais o mesmo. E hoje, ao escrever sobre eles e suas noites, sinto como se ainda há pouco tivesse deixado o cabo da enxada. E, como que temporariamente privado de memória e de passado, componho estas notas desconexas em outro idioma, tão diverso daquele de origem. Munido apenas de palavras, a única coisa de que disponho, manifesto o desejo inútil de que os meus contemporâneos se despojem da sua fantasia de deuses para revestir-se novamente de sua condição original de mortais, e, assim como em um passado não tão remoto, passemos todos a observar o firmamento estrelado. Todos calados e, acima de tudo, pacificados. Porque os astros nos dizem, em seu silencioso fulgor, de nossas limitações, apontando-nos um caminho de humildade e talvez até de virtude. E que, através da simples contemplação por alguns poucos minutos, não nos esqueçamos de quem somos, do que somos e não percamos de vista nossas origens, em algum ponto sempre modestas. Não fosse assim, ninguém teria imigrado. Ao domínio das noites estreladas pertence o poder de mostrar a cada um o que é e não deixar que nenhum ser humano se julgue mais do que isso, um ser que, na eterna noite dos tempos, feitas as contas, sequer terá existido e que, se pensar um pouco no que vê ao erguer os olhos acima da linha do horizonte, verá que todas as dores, assim como as glórias, são passageiras. “O homem é a medida de todas as coisas”, dizia o bom Protágoras. Tudo é uma questão de ponto de vista. Entre todas as questões, importa não esquecer jamais que, entre o céu e a terra, depois de algumas noites, na verdade não muitas, não restarão muitas coisas, e a filosofia será mais vã do que jamais foi algum dia. Para o bem ou para o mal, “para todo o sempre, eternamente... eternamente...”.
Vincent Van Gogh: Estrada com ciprestes e estrela, 1890




sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Dostoiévski na Alemanha

Existem interrogações que, pelas mais diversas razões, parece-me, ficam relegadas a um segundo plano em nosso pensamento. Entre os motivos pelos quais não nos dedicamos muito a estes assuntos está a impressão enganadora de que as respostas estão entre as mais acessíveis ao nosso conhecimento: um grande engano. Na verdade, em termos de teoria, tais perguntas consistem um mistério diante do qual não canso de me assombrar, por seu caráter esquivo. A rigor, é fato que tais questões estão ao nosso alcance, nos livros de teoria da literatura; contudo, as respostas constituem uma soma de fenômenos que apenas em parte são explicáveis: o que é a literatura? Em que consiste o poder que ela exerce sobre nós a ponto de nos mobilizar de forma tão intensa? Em que consiste o conceito de literariedade? Como pode ser definida nossa relação com os escritores e com um determinado autor em especial? Qual a origem do fascínio dos leitores judeus por um escritor sabidamente antissemita, como Dostoiévski? Essas são algumas das questões suscitadas pela leitura deVerão em Baden-Baden, romance de Leonid Tsípkin, escritor russo morto em 1982. As palavras finais do inspirado ensaio de introdução, assinado por Susan Sontag, são no mínimo instigantes: elas nos informam queo leitor emerge do livro “purgado, fortalecido, respirando um pouco mais fundo, agradecido à literatura por aquilo que ela pode abrigar e exemplificar”. Por experiências anteriores relativas a romances com base em vidas de escritores, tendemos a desconfiar. Contudo, o testemunho de Sontag, crítica sempre tão lúcida quanto sincera, tem tudo para parecer acima de qualquer suspeita. E assim, tendo apenas uma vaga ideiasobre o que esperar, mergulhamos na leitura.

Leitor apaixonado de Dostoiévski, Tsípkin constrói seu romance em torno do grande autor russo e de sua jovem esposa Anna Grigorievna, mais especificamente a partir do ano de 1867, no verão que passam na cidade balnear de Baden-Baden, acompanhando o casal até o ano da morte de Dostoiévski, em 1881. Tornamo-nos testemunhas do drama vivido pelo autor de Crime e castigo diante de uma força que ele próprio reconhece superior a si mesmo: a roleta; do amor intenso entre o escritor e Anna, além das constantes ameaças da epilepsia. Em um tempo paralelo, um século depois dos episódios envolvendo os Dostoiévski, Tsípkin, em primeira pessoa, nos faz um relato fragmentado, mas extremamente eloquente de sua própria viagem na tentativa de refazer a trajetória de seus dois personagens, numa peregrinação no tempo e no espaço, passando pelas casas em que eles viveram e, por último, à casa onde o grande escritor russo viveu seus últimos anos. É comum, no romance, o narrador privilegiar o ponto de vista de Anna Grigorievna, e é através do seu olhar que observamos os pungentes momentos finais da vida deste que foi, ao lado de Tolstoi e Tchékhov, um dos maiores escritores russos do século XIX e, sem o menor exagero, de toda a literatura.
Longe de nos fornecer respostas prontas ou fórmulas para as interrogações sugeridas por sua obra, Tsípkin oferece-nos algo melhor do que isso: amplia os limites de nossa visão através de um dos melhores exemplos do que conhecemos por literatura, mostrando, a partir de seu próprio modo de agir, a maneira como somos movidos a buscar respostas de forma ininterrupta, de obra em obra, círculo em que de repente nos deparamos com uma obra que parece ter como base nossa própria ânsia de conhecimento, de sentido e de beleza através de uma das formas mais elevadas de arte. Ao colocar Verão em Baden-Baden “entre as realizações mais belas, arrebatadoras e originais de um século de ficção e paraficção”, Sontag, em seu entusiasmo, está sendo fiel à sua própria impressão, que, terminada a leitura, se torna também a nossa. É realmente difícil ficar impassível em relação aos fatos narrados, à fragilidade dos personagens, que, por sua vez, refletem nossas próprias limitações, por mais que estas pareçam às vezes enganadoramente contornáveis. Eis aí uma obra para todos os públicos, não apenas amantes de Dostoiévski ou de literatura russa.
 Dostoiévski: retrato a óleo de 1872

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Anacronismos: a noção de casa em tempos líquido-modernos

É frequente, em nossas leituras, depararmo-nos com filósofos que nos exortam a sermos tão simples quanto possível, contentando-nos com pouco e tendo hábitos com base em virtudes como a modéstia e a humildade. Tais pensadores defendem a ideia de que para viver não precisamos mais do que do mínimo – ou, ao contrário do que normalmente acreditamos, que temos necessidade mesmo de muito menos do que estamos habituados a crer. A ordem do dia, segundo suas palavras, baseia-se no desapego a bens e objetos materiais, bem como a pessoas: seria uma maneira de sofrer menos com as perdas, dizem-nos, no que não estão errados. Difícil é colocar esses ensinamentos em prática. Mesmo que essas assertivas se percam nos milênios, ainda há quem as defenda hoje. Quanto a mim, até pouco tempo sempre tive a impressão de realmente precisar de muito pouco no cotidiano. Porém, um exame rápido, porém sincero, foi suficiente para me mostrar o quanto estava enganado, evidenciando que essa minha suposta independência em relação ao material não passava mesmo disso: uma impressão.
Há dias atrás, folheando as páginas de Vida líquida, de Zygmunt Bauman, deparei-me com inúmeras passagens sublinhadas a lápis. Como muitos livros já se passaram depois da leitura dessa obra, a maior parte dos trechos me soou com um ar de novidade – lembrando-me mais uma vez que o aprendizado se dá mesmo através da releitura atenta, o que por si só justifica o viver cercado de livros e de partituras, algo que, por sua vez, já de início coloca em xeque a ideia de tanta simplicidade. Em certo ponto, o sociólogo polonês define as características das pessoas possuidoras das “chances mais amplas de vitória” nisso que ele chama de mundo líquido-moderno: “Pessoas que se consideram em casa em muitos lugares, mas em nenhum deles em particular. Tão leves, lépidas e voláteis quanto o comércio e as finanças cada vez mais globais e extraterritoriais que as assistiram no parto e que sustentam sua existência de nômades”. Não posso deixar de me espantar com o que para mim se assemelha a um paradoxo: pergunto-me, a propósito, que noção de vitória é essa que exige o preço de considerar-se em casa em tantos lugares e ao mesmo tempo em nenhum, o que a meus ouvidos soa antes de tudo como desconforto. E, entre desavisado e despreocupado , mas nem um pouco surpreso, descubro o quanto estou alheio ao que se considera válido nesse tempo em que se deve aprender a “andar sobre areia movediça”, tema do sexto capítulo da referida obra. A essa descoberta acrescenta-se a constatação de algo que eu já sabia, mas que a vida nunca cansa de me recordar: excetuadas certas vantagens da modernidade, sinto-me em casa mesmo é no anacronismo, ou, mais especificamente, na conservação de hábitos hoje tidos como ultrapassados. E eu, que me considerava até certo ponto um sujeito simples, percebo-me agora, para meu próprio espanto, cheio de manias – não sei como considerar de outra maneira o culto a certos usos e valores em vários aspectos extintos para muitos de meus concidadãos.
Muitos desses apegos têm origem na valorização da cultura de todas as épocas e nos hábitos da leitura, da escrita e da prática da música. Creio não se tratar de culto à matéria propriamente dita, uma vez que o que me mobiliza é mais o conteúdo do que o seu suporte, embora um não seja nada sem o outro. Em grande parte, esse apreço pode ser definido como uma reverência à herança de meus antepassados. Por mais que a nossa noção de casa como lar vá sofrendo alterações mais que naturais com o passar do tempo, a ideia, no cerne, permanece inalterada. Como descendente de alemães, o amor à família e à história dos ancestrais, bem como ao seu legado, é mais que essencial, diria quase visceral. Creio que foi Nathaniel Hawthorne, na introdução ao seu romance A letra escarlate, quem melhor definiu o sentimento de pertencimento que nos liga a algum lugar específico: “Essa longa ligação de uma família com o lugar de seu nascimento e sepultamento cria um parentesco entre o ser humano e a localidade que independe, em grande medida, de algum atrativo do cenário ou das circunstâncias morais que cercam o homem. Não se trata de amor, mas de instinto”. Pouco importa o fato de meus antepassados estarem sepultados a muitos quilômetros da cidade onde vivo e, retrocedendo alguns séculos no tempo, no distante povoado de Halsenbach, Alemanha. Desse modo, nossa casa acaba se tornando indissociável àquilo a que costumamos chamar, cientes de nossa pequenez, nossa história, e a concepção de casa, mesmo não perdendo seu aspecto tão centrado no caráter espacial, mostra-nos algo em que antes não acreditávamos: que nosso lar, apesar de tudo, pode sim mudar de endereço. Quanto à saudade, ou nostalgia, creio tratar-se de um sentimento que, de uma forma ou de outra, ocupa um lugar à parte e constante na trajetória de cada um. Se ele está sempre presente, talvez seja a confirmação de que lar é antes de tudo lealdade à nossa trajetória. E se a rigor nossas raízes estão a muitos quilômetros do local onde agora vivemos, descobrimos que, nessa analogia com o reino vegetal, acabamos por desenvolver novos laços que, em termos de desapego, se não ocupam o lugar dos anteriores no espaço, esses novos laços afetivos nos mostram, todavia, que é muito mais fácil do que em princípio acreditávamos desenvolver um sentimento de vínculo com o que há anos atrás não passava de um território estranho. E através desse novo sentimento percebemos que, de certa forma, as inclinações de nossos afetos não deixam de ser, até certo ponto, independentes. De uma maneira distinta do que antes supúnhamos, mas, em todo caso, desapegados – por mais que me doa escrever isso.
À medida que avançamos nos anos, aprendemos também que sentir-se em casa diz respeito, em grande medida, à memória, esta tida aqui como a soma de uma vivência feita de trabalho, estudo, relações de amizade e vínculos que apenas a morte se revela capaz de romper. Em uma escala que em momento algum podemos ignorar, somos constituídos também de momentos difíceis e de perdas. Se há alguma verdade na afirmação de que é o ontem que faz de nós o que hoje somos, não há motivo melhor para reservar, em nossa vida, um lugar de grande honra para a memória, diga ela respeito a nós mesmos, seja ela referente ao nome de quem já nos deixou ou mesmo à cultura. E, por esse motivo, mesmo com os pés no presente e pensamento no futuro, nossa nova casa se torna também lugar de devoção. Nesse sentido, convém lembrar uma frase da romancista Marguerite Yourcenar, em Memórias de Adriano: “O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que pela primeira vez lançamos um olhar inteligente sobre nós mesmos: minhas primeiras pátrias foram os livros. Em menor escala, as escolas”. São palavras que, por virem ao encontro de algo que já vivenciamos, trazem um certo conforto, daquela espécie de confirmação por escrito de uma verdade que já intuíamos, mas para cuja expressão não encontramos as palavras. Essa frase corrobora também o que já foi dito acima, mas de uma maneira diferente: os lugares de nascimento não se restringem a um só, e eles constituem algo impossível de quantificar. Isso depende acima de tudo das vivências que vamos acumulando ao longo do tempo e, principalmente, do referido olhar sobre nós mesmos. E, se observarmos com um pouco mais de atenção, veremos que a identificação de casa com memória é mais profunda do que inicialmente suspeitamos, e transcende em muito a contingência da matéria. Não se trata de um lugar, tampouco de um momento, mas de um estado de alma, através do qual percebemos algo semelhante a uma completude, diria mesmo plenitude: é quando percebemos que nossa história, somada aos conteúdos que assimilamos ao longo da vida, seja através dos livros ou de experiências vivenciadas e de convivência com amigos e familiares, se torna uma coisa só, sem lugar definido que não seja em nós mesmos, em nossa história, pensamentos, crenças e, mais do que tudo, em nossas recordações. Algo como uma fusão, diria, da qual poucas vezes temos uma noção mais exata. Esse aspecto me traz à mente diversas imagens; como exemplos, menciono a torre da casa em Tübingen onde Hölderlin viveu seus últimos 36 anos de vida, privado da razão, e a lírica contemplação da natureza nas pinturas de Caspar David Friedrich.
Mas voltemos por um instante à lição filosófica do início deste texto. Por mais que, prestando ouvidos aos filósofos, façamos do desapego uma religião ou uma questão de honra, chegará um momento em que nos veremos na impossibilidade de abrir mão de uma coisa em especial. Ignoro se isso consiste em uma nova fusão, transubstanciação ou transcendência que seja, da qual não estaremos conscientes, e que, quando ocorrer, mesmo que seja a confirmação dos conteúdos já assimilados, já não fará mesmo diferença alguma. Desse momento em diante, não restarão mais que palavras e terra, elementos que sempre me pareceram irmãos, ou terra e silêncio, o que, em última análise, revela-se a mesma coisa. Existe um poema de Friedrich Leopold Graf zu Stolberg, escrito no auge daquele romantismo lírico e contemplativo dos alemães, cujo final gostaria de relembrar aqui: “A Mãe Terra”: “Ela nos acolhe, pequenos e grandes, a Mãe Terra, em seu regaço; se a olhássemos em sua face, não temeríamos jamais o seu abraço”.

Caspar David Friedrich: A walk at dusk, 1835 
Casa da torre de Hölderlin, Tübingen





quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A virgem e o menino: afastamentos e aproximações

Entre tantos grandes momentos do filme Elizabeth, de Shekhar Kapur, de 1998, existe uma cena em particular cuja riqueza nunca deixou de me causar admiração. É perto do final, e, ao lado do seu conselheiro e chefe de espionagem Francis Walsingham, depois de intensas lutas contra o catolicismo, objetivando tornar o protestantismo a religião oficial da Inglaterra, a rainha tem diante de si uma imagem de Maria. Sua dificuldade consiste em entender o que tantos devotos viram nessa figura, que os mobilizou a ponto de não se importarem em perder a vida, desde que seu direito à fé católica fosse preservado. A direção da resposta é apontada por Walsingham: certamente os que morreram experimentaram nas madonas uma espécie de consolo que não encontraram em outra parte. Na cena seguinte, a última do filme, a corte está reunida e entra Elizabeth. Transfigurada, entre desumanizada e deificada, ela caminha por entre os presentes, que se ajoelham em profunda reverência. Antes de ocupar o trono, ela se dirige a um dos conselheiros e diz: “Veja; agora eu sou uma virgem”. Percebe-se nessa veneração e também na rainha algo próprio das monarquias absolutistas: a visão do soberano como uma criatura próxima à divindade, sentimento comum no final da Idade Média; uma espécie de sentimento de segurança que a Igreja, em crise depois da Reforma, começava a ter dificuldades em oferecer.
Interessante é observar que, passados tantos anos, a Virgem, como é normalmente chamada pelos católicos, depois de ser por séculos uma das principais fontes de inspiração para pintores de várias nacionalidades, volta a ser tema de discussões que, como seria de se esperar, não conduzem a lugar algum e que não oferecem qualquer possibilidade de conciliação, mesmo porque não há a mínima boa vontade entre os contendores. De um lado, os evangélicos, que veem na adoração a essas imagens uma transgressão aos mandamentos cristãos: a idolatria, ou seja, o culto a falsos ídolos. Se no século XVI, nos anos que se seguiram à Reforma, os iconoclastas literalmente destruíam imagens, hoje os seus herdeiros não perdem oportunidade de macular de todas as formas possíveis aquela que para os católicos não é menos que a mãe do próprio Deus, na sua forma humana. Não é exagero algum – na verdade, é dizer o mínimo - afirmar que na visão dos evangélicos Maria ocupa um lugar inferior ao de Maria Madalena, fazendo parte das hostes inimigas a serem combatidas e vencidas, ao custo de muita difamação e oração. Talvez não tivessem em relação a ela tantas reservas se não vissem eles próprios o poder de apelo de uma madona de Leonardo da Vinci ou de Giotto. Para os católicos, ela continua sendo o que sempre foi em sua tradição: a mulher escolhida por Deus para dar à luz o Salvador, por meio de uma concepção sem pecado, e que acompanhou o filho até o seu trágico final.
A mim não interessa saber quem está com a razão, se é que alguém a possui. Meu objetivo é observar, mesmo que rapidamente, o que essas imagens possuem de tão eloquente a ponto de causarem reações tão antagônicas como a adoração por parte de uns e, do ponto de vista dos evangélicos, promessas de fogo eterno a quem as cultua. O que sei é que as artes visuais, como a pintura e a escultura, seriam hoje indizivelmente mais pobres se não fosse essa forma de evangelização, ou propaganda, para falar mais honestamente. Em seu livro Religião para ateus (Rio de Janeiro: Intrínseca, 2011), o filósofo e escritor Alain de Botton examina diversos aspectos que considera válidos nas principais religiões, elementos que, fora de seu âmbito de origem, são inexistentes, no que, por vários motivos, os ateus saem empobrecidos. Entre as proposições de De Botton, está a valorização da arte. Nesse sentido, e como prova material, contundente, de que as religiões mais afastam as pessoas do que propriamente as aproximam, o que era seu objetivo inicial, estão as estátuas em relevo da catedral de São Martinho, em Utrecht, destruídas por iconoclastas no século XVI. Somos levados a crer que, caso fossem inofensivas ou mesmo pouco expressivas, não teriam sido destruídas. Para ilustrar o poder de tais imagens, o autor evoca uma tradição que vigorou em Roma entre os séculos XVI e XIX, acerca de uma irmandade que se informava a respeito dos condenados a caminho da forca para, momentos antes de sua execução, colocar-lhes diante dos olhos pequenas tábuas ilustrando geralmente a crucificação de Jesus ou a Virgem com o menino, na tentativa de proporcionar-lhes algum alívio em suas horas derradeiras. Segundo De Botton, “é difícil conceber um exemplo mais extremo de crença na capacidade redentora das imagens, e, contudo, a irmandade estava apenas realizando uma missão com a qual a arte cristã sempre teve um compromisso: colocar diante de nós exemplos das mais importantes ideias nas ocasiões difíceis, a fim de nos ajudar a viver e a morrer”.
(Há tempos atrás, refletindo a respeito do fanatismo religioso, cheguei à conclusão de que o tamanho da fé é proporcional à extensão do desespero, mas sei que, sobre esse assunto, qualquer certeza será sempre tão suspeita quanto as incertezas, dependendo do lado em que se está. Sei apenas que é difícil permanecer neutro em relação ao tema quando se observa o quanto a crença se apodera e estabelece sua hegemonia na mente daqueles que creem, de forma a torná-los muitas vezes cegos mesmo para os aspectos mais básicos da vida e não deixando espaço para mais nada. É curioso observar também outro aspecto: se para os cristãos o temor a Deus é o princípio da sabedoria, para os filósofos dos primórdios do cristianismo a sapiência estaria justamente em abrir mão das ilusões de imortalidade e fazer as pazes com o que, segundo sua crença, temos de mais irreversível: a finitude  [justamente o que, em minha pequena opinião, faz de nós e de nossas vidas algo glorioso]. Nisso residiria, segundo os cristãos, o “orgulho” próprio dos pensadores. Mas já começo a fugir ao assunto inicialmente proposto).
Em seu livro, Alain de Botton defende a ideia de que, acima do conteúdo veiculado pela arte religiosa, mais importante é saber o que ela diz de nossas necessidades humanamente mais básicas, valores geralmente ignorados como indignos pela filosofia, mas de cuja expressão, de uma forma ou de outra, depende nosso bem-estar e nossa paz de espírito, mesmo que não sejamos seguidores de nenhuma religião. Pode-se perguntar, a respeito disso, o que obras como La pietà ou A virgem, o menino e Santa Ana nos dizem para além de qualquer crença, e descobrimos que nelas há uma expressividade que as torna únicas e de valor inestimável não para a arte em si, mas no que elas são capazes de nos dizer, independentemente de seu significado religioso. Basta para isso saber admirá-las. Conforme o filósofo, tudo é uma questão de ponto de vista. Entre poucas obras de arte, elas estão entre as poucas ainda capazes de falar à criança que existe eternamente em nós, procurando insuflar-lhe algum alento em momentos dolorosos. No caso em questão, trata-se ainda de lições que, em sua maior parte, já assimilamos, mas que, por uma questão de distração, vivemos esquecendo. Eis aí a função de pinturas e esculturas: não nos deixar esquecer de que causas como o amor e a fraternidade estão sempre – ou deveriam estar – no centro da humanidade, e não na periferia, para onde as relegamos, distraídos muitas vezes pelas causas mais nobres e por nossas melhores intenções.
Leonardo da Vinci: A virgem, o menino e Santa Ana
Relevos da Catedral de São Martinho, Utrecht